Rosalía nunca pareceu pertencer completamente ao presente. Desde o início da carreira, ainda ligada ao estudo rigoroso do flamenco, existia nela uma relação muito particular com intensidade, teatralidade e exposição emocional. Enquanto boa parte do pop contemporâneo passou a buscar neutralidade estética e fórmulas reconhecíveis, Rosalía construiu justamente o oposto: uma obra baseada em excesso, risco, silêncio, desconforto e transformação constante. Talvez por isso sua entrada em Euphoria pareça menos uma escalação inesperada e mais uma consequência inevitável.
A terceira temporada da série chega depois de anos de adiamentos, crises de bastidores, mudanças criativas e questionamentos sobre o próprio futuro da produção. Nesse processo, algo parece ter mudado profundamente dentro do universo criado por Sam Levinson. A atmosfera escolar que definia as primeiras temporadas praticamente desaparece para dar lugar a um ambiente muito mais brutal, criminalizado e adulto, em que os personagens já não vivem apenas crises adolescentes estilizadas, mas começam finalmente a enfrentar consequências reais.
É justamente nesse contexto que surge Magick, personagem interpretada por Rosalía e ligada ao clube Silver Slipper, um espaço que rapidamente se transforma em um dos centros dramáticos da temporada. A princípio, ela poderia parecer apenas mais uma figura excêntrica construída para ampliar a estética excessiva da série. Mas quanto mais detalhes aparecem, mais fica evidente que Magick ocupa um papel muito mais importante: ela funciona como uma espécie de espelho distorcido de Rue.

A dinâmica entre as duas nasce imediatamente atravessada por tensão. Quando Rue esbarra nela no corredor do clube e recebe como resposta um ríspido “olha por onde anda”, a cena estabelece algo essencial sobre a relação que a temporada pretende desenvolver. Não existem curiosidade mútua, sedução imediata ou aproximação gradual. Existe reconhecimento hostil. Como se Magick enxergasse em Rue algo familiar demais para ser confortável.
E talvez seja exatamente isso que transforma a personagem em uma antagonista tão interessante.
Euphoria nunca trabalhou antagonismos tradicionais. Jules representava idealização e desejo de fuga. Elliot simbolizava cumplicidade destrutiva. Fezco funcionava como acolhimento emocional em meio ao caos. Magick parece operar em outra camada: ela é alguém que compreende perfeitamente os códigos da autodestruição, mas que aparentemente aprendeu a sobreviver dentro deles. Enquanto Rue ainda oscila entre culpa, dependência e impulsividade, Magick transmite a sensação de alguém que já atravessou esse processo há muito tempo e reorganizou a própria identidade em torno dele.
Essa ideia aparece de maneira especialmente forte nas primeiras cenas divulgadas da personagem. Em uma delas, Magick discute violentamente com seu cafetão sobre o colar cervical que usa no pescoço. Ela insiste que poderia processar alguém pelo acidente que a deixou naquela condição, mas é imediatamente interrompida quando ele exige que retire o acessório porque aquilo “mata o clima” para os clientes do clube. A sequência resume com brutalidade o universo que esta nova temporada parece explorar: corpos femininos tratados simultaneamente como espetáculo, produto e desgaste físico.
Existe algo profundamente cruel nessa cena porque ela desmonta qualquer glamour residual que ainda pudesse existir em torno do universo decadente que Euphoria frequentemente estetizou. O corpo de Magick já aparece marcado antes mesmo da personagem ganhar profundidade psicológica. Sua presença carrega exaustão, violência e sobrevivência ao mesmo tempo.
Visualmente, Rosalía parece ter sido incorporada à série sem que precisasse alterar aquilo que já construiu artisticamente ao longo da carreira. Magick surge coberta por maquiagem pesada, brilho excessivo, sensualidade performática e acessórios que oscilam entre proteção e ferida. Há algo quase ritualístico na personagem, como se ela carregasse no próprio corpo todos os excessos emocionais que Euphoria sempre transformou em imagem.
E Rosalía entende intuitivamente esse tipo de construção porque sua própria arte trabalha exatamente essa fronteira entre dor e performance. Em textos anteriores aqui no Miscelana, já escrevi sobre como ela herdou do flamenco não apenas técnica vocal, mas uma relação visceral com teatralidade, exposição emocional e entrega absoluta. Sua música frequentemente transforma sofrimento em encenação litúrgica, criando uma estética onde vulnerabilidade nunca aparece como fragilidade simples, mas como linguagem artística. Em Euphoria, essa lógica parece ter sido absorvida diretamente pela personagem.

O mais interessante é que Magick não parece construída para salvar Rue nem para destruí-la de maneira convencional. Sua função narrativa parece muito mais desconfortável do que isso. Ela existe para obrigar Rue a encarar uma versão possível de si mesma.
Essa percepção se fortalece em outra cena importante da temporada, quando Magick percebe o desconforto de Kitty, uma stripper recém-chegada ao clube, e pergunta se ela se sente “forçada” a trabalhar ali. O momento é breve, mas revela algo fundamental sobre a personagem: por trás da dureza constante, existe alguém plenamente consciente da violência daquele ambiente. No entanto, assim que Rue surge e interrompe a conversa, Magick abandona imediatamente qualquer tentativa de conexão emocional, saindo dali assoviando, quase como se vulnerabilidade fosse algo que ela desaprendeu a sustentar.
Esse movimento é central porque diferencia Magick de outros personagens do universo da série. Ela parece funcionar permanentemente entre humanidade reprimida e sobrevivência performática. É alguém que ainda reconhece sofrimento nos outros, mas que já não consegue mais permanecer tempo suficiente nesse lugar para lidar verdadeiramente com ele.
A relação entre ela e Rue se torna ainda mais explosiva quando Magick conta ao cafetão sobre a conversa que ouviu entre Rue e Kitty. O conflito entre as duas cresce rapidamente até ser interrompido por um assalto armado ao clube. A sequência marca uma mudança importante na própria identidade da série porque Euphoria finalmente mergulha de maneira aberta em território de thriller criminal. Rue e Magick acabam rendidas sob a mira de armas enquanto drogas e dinheiro são roubados do local, ampliando a sensação de que o universo de Laurie continua operando silenciosamente ao redor da protagonista.
Depois do assalto, Magick assume uma posição inesperadamente estratégica. Observando as câmeras de segurança enquanto fala ao telefone com Bishop, ela tenta identificar quem dirigia o carro utilizado na invasão. O detalhe que chama sua atenção são os lábios da motorista. Rue então percebe que a pessoa envolvida trabalha para Laurie: Faye Valentine.

A partir desse momento, Magick deixa definitivamente de parecer apenas uma presença estética ou uma participação especial de luxo. Ela passa a operar diretamente dentro do núcleo criminal da temporada e ajuda a reconectar Rue ao universo mais ameaçador deixado em aberto no final da segunda temporada. Isso reforça a sensação de que a terceira fase de Euphoria está muito menos interessada em romances adolescentes ou crises escolares e muito mais focada em mostrar personagens tentando sobreviver dentro de estruturas violentas que já os consumiram emocionalmente.
Talvez seja justamente por isso que Rosalía pareça uma escolha tão precisa para esse momento específico da série. Sua própria imagem artística sempre trabalhou essa mistura entre controle absoluto e sensação permanente de colapso iminente. Mesmo quando sua música se aproxima do pop, existe nela algo estranho, ancestral e inquietante demais para caber confortavelmente no mainstream.
Em textos anteriores aqui no Miscelana, descrevi Rosalía como uma artista que devolve mistério ao pop contemporâneo. E talvez seja exatamente isso que ela leva para Euphoria: a sensação de que algumas pessoas já atravessaram dor demais para conseguirem voltar a existir de maneira simples.
Magick parece construída exatamente sobre essa ideia. Não como alguém que caiu em ruína recentemente, mas como uma mulher que transformou sobrevivência em identidade e aprendeu a habitar o próprio desgaste emocional como se ele fosse a única linguagem possível.
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