A temporada final de Hacks é uma sequência de situações e oportunidades que Deborah Vance cria e aproveita tanto para contornar a consequência de sua briga contra o sistema como para se manter em evidência. Dessa forma, mesmo que paralelamente exista um fiapo de história para os coadjuvantes, ela é a estrela e é sempre sobre ela. Ou seja, um episódio não necessariamente se conecta com o outro e nem sempre é perceptível sua jornada a algum lugar melhor ou pior, mas por isso mesmo “The Cube” talvez seja um dos episódios mais melancólicos de Hacks. Justamente porque entende uma coisa que a série vem repetindo desde o começo, mas que agora aparece sem qualquer proteção cômica: amar profundamente o próprio trabalho não significa necessariamente ser recompensado por ele. Às vezes significa apenas continuar insistindo mesmo quando tudo já está desmoronando ao redor.
E é curioso porque, faltando tão pouco para o final da série, Deborah e Ava parecem finalmente ter encontrado uma espécie de equilíbrio improvável. Depois de temporadas inteiras construídas em guerra permanente, manipulação emocional, ressentimento e dependência, existe agora uma calma entre as duas. Só que Hacks nunca foi realmente sobre finais perfeitos. Enquanto Deborah se aproxima do Madison Square Garden como alguém prestes a alcançar a última grande validação da carreira, Jimmy e Kayla vivem exatamente o oposto: o momento em que o sonho começa a morrer diante deles.
A estrutura do episódio quase funciona como um espelho. Deborah está literalmente presa dentro de um cubo suspenso em Las Vegas enquanto Jimmy e Kayla descobrem que também estão presos, só que financeiramente, emocionalmente e profissionalmente. E talvez seja justamente aí que “The Cube” encontra seu coração.

Toda a sequência do show promocional de Deborah é absurdamente exagerada, não fosse o fato de que é tão próxima da realidade. Afinal, Deborah é uma celebridade e o ego performático das celebridades americanas funciona quase como um espetáculo de sobrevivência. Vale tudo para estar em evidência.
O humor autocrítico de Deborah segue afiado: a reencontramos primeiro discutindo como será sua entrada no Madison Square Garden: saindo de um caixão cheio de lantejoulas, amordaçada com uma peça da Schiaparelli, carregada por dançarinos dos Knicks. A metáfora perfeita e o uso de tudo que foi ruim em sua vida nos últimos anos para renascer ainda mais ousada. Se é uma vingança e afirmação pessoal, também é um tanto ridículo e até deprimente. A empolgação de estar criando transforma tudo em evento, performance, notícia, construção de narrativa. Até sua vulnerabilidade precisa ser comercializada.
A ideia inicial de usar Katya como uma “Deborah drag queen” é maravilhosa justamente porque expõe esse lado artificial da personagem. Quando Katya diz que não consegue interpretar uma Deborah contemporânea porque é “uma Deborah dos anos 90”, Hacks quase admite que Deborah também continua emocionalmente presa naquele período. Ela ainda reage ao mundo como alguém que precisou sobreviver sendo constantemente humilhada pela indústria, pelos homens, pela imprensa e pelo próprio público. Ela mesma não avança.
Então o truque mágico dá errado e Hacks acerta muito ao não transformar isso apenas em gag visual.
Deborah inventa de participar de um desafio de um mágico, no coração de Las Vegas, mas é óbvio que tinha que dar errado. Há um apagão na cidade, o truque dá errado e Deborah acaba presa no alto de um cubo de vidro durante horas. Não funciona só como humilhação pública, é outra imagem perfeita da própria carreira dela: uma mulher suspensa entre o espetáculo e o desastre, tentando convencer o mundo — e talvez a si mesma — de que ainda controla tudo.
Ironicamente, a única que não se apavora, não a abandona e a acalma é Ava. Sua jornada, podemos dizer, não foi a de “mudar” Deborah, mas de se aceitar parte do universo da estrela que tanto questionou. Nada de discutir o narcisismo crônico de Deborah, ao contrário, seu apoio agora é irrestrito. Ela entende Deborah de verdade e quando diz que Deborah é “louca pelo trabalho” e que isso é “foda”, Ava finalmente reconhece algo essencial sobre a estrela que também é seu. O fato de não saber existir sem performar porque trabalhar foi a única forma que encontrou de sobreviver emocionalmente. E volto a me perguntar como está o reboot de Who’s Cooking Dinner, mas isso parece ser irrelevante até mesmo para Ava.

Enquanto isso, a jornada literal de Jimmy e Kayla também cresce. Hacks passou anos tratando os dois como alívio cômico paralelo, mas a verdade é que eles sempre carregaram uma das relações mais genuinamente emocionais da série. Dois nepo babies que também sacrificaram tudo pela ideia de fazer parte daquela indústria, mesmo diante de muitos obstáculos. Eles representam os bastidores e a realidade daqueles que não têm fama suficiente para transformar fracasso em espetáculo.
As cenas deles desmontando o escritório são devastadoras justamente porque Hacks entende a humilhação silenciosa do fracasso profissional, sem explosão dramática. Desde cancelar a assinatura de pickleball, a trabalhar na cozinha de casa, dividir comida ou descobrir que o processo de Michael Schaefer pode destruir completamente a agência, é impossível que não vejam que o sonho deles simplesmente não deu certo.
É preciso elogiar o showrunner e o ator Paul W. Downs, que aproveita Jimmy para dar seu melhor na série. Diante de tudo desmoronando, Jimmy finalmente admite algo que sempre esteve implícito: ele nunca quis ser artista e seu maior talento sempre foi ajudar pessoas talentosas a existirem. Não é uma derrota, mas uma compreensão clara de seu papel no sistema.
Quem muda mesmo é Kayla, que também cresce muito no episódio. O que começou lá atrás quase como caricatura de “nepo baby insuportável” virou uma personagem surpreendentemente humana. Quando ela admite que entrou na indústria só para ficar perto de Jimmy, Hacks revela algo triste sobre ela também: Kayla passou a vida inteira tentando transformar afeto em utilidade. E talvez seja por isso que o episódio termina sendo menos sobre sucesso e mais sobre desgaste.
Deborah consegue lotar o Madison Square Garden em dez minutos depois que sua quase tragédia vira espetáculo midiático. É um final aparentemente triunfante, mas Hacks filma tudo com um cansaço estranho. Como se a série soubesse que existe algo profundamente absurdo nessa lógica onde uma mulher precisa quase morrer publicamente para vender ingressos.
Enquanto isso, Jimmy volta para a Latitude praticamente recomeçando do zero.

E talvez seja esse o contraste mais cruel do episódio inteiro. Deborah consegue transformar humilhação em marketing porque ela já virou marca. Jimmy não. Algumas pessoas conseguem monetizar o próprio caos. Outras apenas sobrevivem a ele.
“The Cube” acaba sendo um episódio sobre pessoas que continuam insistindo mesmo depois de perceberem o preço emocional da própria ambição. E Hacks entende uma coisa muito dolorosa sobre carreiras criativas: às vezes o amor pelo trabalho não melhora sua vida. Às vezes só faz você aceitar sofrer mais tempo por ele.
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