Your Friends & Neighbors melhorou na segunda temporada justamente porque entendeu que o charme da série nunca esteve no mistério criminal em si, mas no colapso moral elegante daqueles homens ricos que passaram a vida inteira operando perigosamente perto do limite sem jamais admitir isso. A série parece finalmente perceber que Coop não precisava virar um “Walter White suburbano”, porque Jon Hamm já sustenta sozinho algo muito mais interessante: um homem que continua atravessando o desastre com o mesmo sorriso arrogante, sedutor e quase cômico de quem acredita que ainda controla tudo ao redor.
E talvez a maior mudança esteja justamente aí. A série reduziu bastante aquele catálogo de luxo da primeira temporada, em que Coop narrava relógios, vinhos, obras de arte e objetos roubados de uma forma que às vezes parecia mais product placement do que crítica social. Existe menos fascínio explícito pelos brinquedos milionários e mais interesse nas consequências emocionais daquele universo. Em teoria, é um amadurecimento.
Mas a troca criou novos problemas.

A relação entre Coop e Elena, por exemplo, virou uma subtrama desconfortavelmente perdida na temporada. A série claramente tenta transformá-la em algo maior, talvez até numa futura virada dramática, especialmente agora que ela entra em dívida com traficantes e personagens ainda mais violentos. Só que, por enquanto, tudo soa deslocado do centro emocional da narrativa. Elena fica presa naquele espaço ingrato de personagem que existe mais para gerar tensão ao protagonista do que para desenvolver uma trajetória própria.
Em compensação, a decisão de ampliar a participação de Hoon Lee como Barney foi uma das melhores escolhas da temporada. Ele está absolutamente sensacional. Barney talvez seja hoje o personagem que melhor traduz o verdadeiro tema da série: homens que passaram décadas operando “do lado certo”, mas sempre próximos demais do abismo moral que fingiam condenar. Existe algo profundamente melancólico na forma como ele entra naquele grupo de ladrões quase sem perceber que já pertencia àquele universo muito antes do primeiro crime.
E Hoon Lee entende perfeitamente isso. Barney nunca vira caricatura. Há vergonha, ressentimento, humilhação e até certo entusiasmo infantil naquela descida. Ele parece alguém descobrindo tarde demais que o sistema que o sustentava também o devorava.
Já Mel, de Amanda Peet, talvez represente o maior problema estrutural da temporada.
A série insiste em transformar sua instabilidade emocional numa consequência quase direta da menopausa, e o resultado é extremamente incômodo. Não porque mulheres nessa fase não possam atravessar crises profundas, mas porque a narrativa parece constantemente aproximar menopausa de irracionalidade, descontrole e perigo emocional de uma maneira superficial demais para soar humana e complexa. Sua aproximação da cunhada bipolar só torna isso ainda mais delicado, porque a série flerta o tempo inteiro com uma associação problemática entre feminilidade madura, instabilidade psíquica e comportamento destrutivo.
E o mais frustrante é que Mel nem sequer parece organicamente integrada ao núcleo principal. Ela continua orbitando aquele grupo superficial e cruel sem que a série consiga justificar emocionalmente sua permanência ali. Sam, por outro lado, faz muito mais sentido naquele universo. Existe nela uma consciência mais amarga sobre poder, aparência e sobrevivência social. Mel parece escrita apenas como sintoma.

E talvez isso revele algo maior sobre Your Friends & Neighbors: apesar de toda tentativa de crítica social sofisticada, ela continua sendo uma série profundamente masculina, escrita por homens e para homens. Mesmo quando tenta olhar para suas personagens femininas com mais profundidade, frequentemente volta ao mesmo ponto de vista masculino sobre desejo, envelhecimento, instabilidade e validação social.
James Marsden funciona bem como o traficante de armas justamente porque entende esse tom meio cínico e sedutor da série. Ele tem presença, charme e ameaça suficientes para virar uma sombra interessante para Coop. Mas o personagem também nunca ultrapassa totalmente a sensação de “mais do mesmo”. A série precisava de alguém que refletisse Coop como espelho distorcido, e Marsden entrega isso competentemente.
O problema é que Jon Hamm continua sendo inalcançável dentro desse universo.

Pouquíssimos atores conseguem sustentar simultaneamente arrogância, decadência, humor e carisma da maneira como Hamm faz aqui. Existe algo nele — e talvez apenas George Clooney tenha essa mesma qualidade — que transforma homens moralmente desastrosos em figuras estranhamente encantadoras sem que a série precise pedir desculpas por eles. Coop continua funcionando porque Hamm entende que o personagem é ridículo, perigoso, triste e engraçado ao mesmo tempo.
E talvez seja justamente por isso que a série ainda funcione tão bem mesmo quando tropeça. Porque no fundo Your Friends & Neighbors não é realmente sobre crimes, luxo ou suspense. É sobre homens ricos percebendo, tarde demais, que passaram a vida inteira confundindo privilégio com caráter.
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