Abbott Elementary continua sendo uma das minhas séries favoritas da televisão atual justamente porque entende algo que muitas comédias parecem ter esquecido nos últimos anos: fazer rir não significa abrir mão de inteligência, sensibilidade ou observação social. Talvez exista até uma ironia cruel no fato de que ela — assim como Only Murders in the Building — continue frequentemente prejudicada nas premiações por competir em categorias dominadas por produções que, no fundo, funcionam muito mais como dramas com humor do que como sitcoms propriamente ditas.

Hacks e The Bear são excelentes séries, mas existe algo curioso nessa dificuldade contemporânea de reconhecer comédias que não precisam transformar sofrimento em prestígio para parecer “importantes”. Abbott Elementary faz exatamente o oposto. Ela aposta em humanidade, calor, timing cômico clássico e personagens profundamente afetivos sem abandonar comentários sociais bastante contundentes sobre educação pública, desigualdade, esgotamento profissional e abandono estrutural.
Talvez por isso a série criada por Quinta Brunson continue recebendo um carinho tão raro da crítica e do público mesmo já entrando em sua quinta temporada. Em um momento em que sitcoms tradicionais praticamente desapareceram da televisão americana, Abbott virou uma espécie de televisão de conforto para muita gente. E não no sentido pejorativo. Existe algo quase reconfortante em voltar semanalmente para aquela escola, para aqueles corredores e para personagens cuja dinâmica já conhecemos tão bem.
No Brasil, talvez a comparação mais próxima fosse imaginar a Escolinha do Professor Raimundo encontrando Rebelde, mas deixando completamente de lado o besteirol e as caricaturas exageradas. Porque Abbott entende que escolas são espaços absurdamente caóticos, engraçados, cansativos e emocionais ao mesmo tempo. O humor nasce justamente da tentativa constante daqueles professores de continuar funcionando apesar do sistema claramente falhar com eles todos os dias.


E isso continua sendo o maior mérito da série. Mesmo quando exagera em alguns plots ou entra em arcos mais frágeis, Abbott mantém uma humanidade muito difícil de encontrar hoje. Os críticos continuaram destacando exatamente esse equilíbrio entre humor, doçura e crítica social como o elemento que faz a produção sobreviver tão bem depois do impacto inicial. A série ainda consegue fazer comentários sobre precarização sem soar panfletária e ainda encontra espaço para pequenas observações emocionais extremamente precisas.
Ao mesmo tempo, a 5ª temporada foi talvez a primeira em que começaram a aparecer críticas mais consistentes sobre desgaste criativo. Não no sentido de uma queda brusca de qualidade — quase ninguém realmente acha que a série “desandou” —, mas na percepção de que Abbott entrou naquela fase delicada em que sitcoms muito amadas precisam encontrar novas maneiras de continuar evoluindo sem perder a própria identidade.
E acho difícil discordar completamente disso.
Existe um conforto inevitável em já conhecer profundamente a dinâmica daqueles personagens. O espectador praticamente antecipa as reações de Ava, o sarcasmo de Melissa, a tentativa constante de Barbara de manter alguma elegância em meio ao caos ou a ansiedade quase permanente de Janine. Essa familiaridade virou parte da experiência da série. Só que ela também pode criar uma sensação de repetição quando os episódios não encontram conflitos particularmente fortes.
Alguns capítulos desta temporada realmente pareceram um pouco “enche-linguiça”, especialmente o episódio do shopping e o de 1º de abril, que deram a impressão de histórias criadas mais para preencher espaço entre arcos maiores do que por necessidade narrativa real. Não chegam a ser episódios ruins porque o elenco continua extremamente carismático e o timing cômico permanece funcionando, mas são talvez os primeiros momentos em que Abbott pareceu operar no piloto automático.

A maior divisão entre os críticos, no entanto, acabou girando em torno de Janine e Gregory. A série entrou oficialmente naquela fase clássica dos casais “will they/won’t they” em que os roteiristas precisam descobrir como manter tensão depois que o relacionamento finalmente acontece. E a tentativa de criar um afastamento entre os dois realmente pareceu mais uma decisão do tipo “precisamos inventar conflito” do que um problema orgânico entre os personagens.
Depois de temporadas construindo a relação com tanta delicadeza, a separação temporária acabou soando artificial para parte do público e da crítica. Quinta Brunson comentou inclusive que fãs passaram a abordá-la em aeroportos pedindo que o casal voltasse. E honestamente? Dá para entender a reação. Porque o problema nunca foi o casal perder química. A sensação foi mais a de uma série tentando prolongar tensão romântica por obrigação estrutural.
Ainda assim, talvez o maior elogio que eu possa fazer para Abbott Elementary seja justamente o fato de que nada disso chega a comprometer verdadeiramente a experiência. A série continua tão gostosa, calorosa e genuinamente engraçada que até seus momentos mais fracos passam rápido. Pouquíssimas produções contemporâneas conseguem transmitir essa sensação de companhia semanal sem parecer artificiais ou excessivamente calculadas.
E talvez seja exatamente isso que parte das premiações ainda não saiba muito bem como reconhecer: existe inteligência também em fazer o público sair de um episódio simplesmente feliz por ter passado meia hora com aqueles personagens.
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