Quando a notícia de que Quinta Brunson irá desenvolver e interpretar Betty Boop em um novo filme começou a circular, muita gente reagiu com surpresa. Não exatamente porque Betty esteja esquecida, já que ela nunca realmente desapareceu da cultura pop, mas porque a personagem parecia pertencer a um tipo específico de nostalgia, quase congelada em vitrines retrô, camisetas vintage e referências pin-up espalhadas há décadas pela moda, pela música e pela publicidade. Ainda assim, talvez justamente por isso, a escolha de Quinta pareça mais inteligente do que inicialmente aparenta.
Porque Betty Boop nunca foi apenas um desenho fofo.
Ela foi uma das primeiras grandes estrelas femininas da animação, surgiu em plena era do jazz e carregava sensualidade, independência e humor em um momento em que Hollywood ainda aprendia a transformar mulheres em fenômenos culturais globais. Muito antes de Barbie virar objeto de releitura feminista contemporânea, Betty já existia como um símbolo contraditório, simultaneamente comercial, provocador e profundamente ligado às transformações sociais dos Estados Unidos do início do século 20.

Criada em 1930 por Max Fleischer e desenhada inicialmente por Grim Natwick, Betty apareceu pela primeira vez no curta “Dizzy Dishes”, ainda com características parcialmente caninas, antes de ser gradualmente transformada na figura que o mundo reconhece hoje. Os olhos enormes, o vestido curtíssimo, as argolas gigantes, a voz infantilizada e o famoso “Boop-Oop-a-Doop” acabaram se tornando parte definitiva do imaginário cultural americano.
Mas existe algo especialmente interessante em Betty Boop quando ela é observada a partir do presente. A personagem nasceu em um período em que mulheres começavam a desafiar códigos tradicionais de comportamento, ocupando espaços noturnos, dançando jazz, fumando em público e reivindicando uma liberdade visual e sexual que ainda assustava grande parte da sociedade americana. Betty condensava tudo isso em forma animada.
E justamente por isso ela também gerou controvérsias.
Com o endurecimento do Código Hays nos anos 1930, a personagem acabou sendo suavizada. Sua sensualidade foi reduzida, suas roupas ficaram menos provocativas e sua personalidade passou a ser domesticada para se adequar às novas regras morais impostas a Hollywood. A trajetória de Betty Boop praticamente acompanha a história do controle exercido sobre a representação feminina na cultura pop americana.
Existe ainda outra camada importante que sempre reaparece quando Betty é discutida: a acusação de apropriação cultural.
A cantora Helen Kane processou os estúdios Fleischer em 1932 alegando que Betty havia copiado sua voz, aparência e estilo performático. O processo acabou revelando algo ainda mais complexo, já que muitos dos trejeitos associados a Kane pareciam ter origem em artistas negras como Baby Esther Jones e Florence Mills, mulheres fundamentais para a construção da linguagem do jazz e da performance americana, mas frequentemente apagadas da memória cultural dominante.
Betty Boop sempre foi visualmente apresentada como uma personagem branca dentro da animação americana clássica, inspirada na estética das flappers dos anos 1920. Ainda assim, o debate cultural em torno dela se tornou mais complexo porque muitos dos elementos performáticos associados à personagem, incluindo vocalizações, ritmo corporal e trejeitos cômicos, pareciam ter raízes em artistas negras do jazz e do vaudeville que raramente receberam o mesmo reconhecimento histórico.
Décadas depois, Betty Boop continua funcionando quase como um retrato das tensões dos Estados Unidos envolvendo espetáculo, raça, feminilidade, sexualização e indústria cultural.
Talvez seja exatamente por isso que Quinta Brunson tenha afirmado ter encontrado “uma história mais profunda” ao mergulhar na origem da personagem.
E talvez seja exatamente por isso que ela seja uma escolha tão interessante para liderar esse projeto.

Quinta não se tornou apenas uma atriz popular por causa de Abbott Elementary. Ela virou uma das criadoras mais importantes da televisão americana recente justamente porque entende como equilibrar humor, comentário social e humanidade sem transformar tudo em discurso óbvio. Antes do sucesso da série, ela ganhou notoriedade nos anos 2010 através de vídeos virais nas redes sociais e do trabalho no BuzzFeed, onde rapidamente se destacou pela capacidade de transformar situações aparentemente banais em observações extremamente precisas sobre raça, trabalho, gênero e cotidiano.
Depois vieram participações em produções como A Black Lady Sketch Show e iZombie, mas foi Abbott Elementary que mudou completamente sua trajetória.
A série, centrada em professores de uma escola pública subfinanciada da Filadélfia, conseguiu algo raro na televisão aberta americana contemporânea: ser simultaneamente popular, inteligente, acolhedora e politicamente consciente sem soar panfletária. Quinta venceu dois Emmys, incluindo o prêmio de atriz principal em comédia, tornando-se a primeira mulher negra a vencer na categoria desde 1981, além de se transformar na primeira mulher negra indicada no mesmo ano por atuação, roteiro e produção em comédia.
Existe um detalhe importante nisso tudo. Quinta entende personagens femininas tentando sobreviver dentro de sistemas que constantemente tentam reduzi-las.
Janine, em Abbott Elementary, vive exatamente isso. Betty Boop também viveu.
A comparação com Barbie, de Greta Gerwig e Margot Robbie, surgiu imediatamente após o anúncio do projeto e faz sentido. Hollywood percebeu que existe espaço para revisitar ícones femininos históricos sob perspectivas contemporâneas. Mas Betty talvez seja ainda mais interessante porque nunca foi completamente “limpa” culturalmente. Sempre existiu algo meio estranho, melancólico e transgressor nela.
Até porque Betty Boop jamais desapareceu de verdade.

Ela atravessou gerações sendo reinterpretada pela música, pela moda e pela cultura pop. Madonna talvez tenha sido uma das artistas que mais claramente incorporaram sua estética, especialmente nos anos 1980, ao brincar constantemente com a mistura entre ingenuidade performática e sexualidade exagerada. Marilyn Monroe também frequentemente foi associada à energia de Betty Boop pela combinação entre voz infantilizada, sensualidade e construção performática da feminilidade. Mais tarde vieram referências em artistas como Christina Aguilera, Gwen Stefani e Katy Perry, além de inúmeras releituras visuais espalhadas pela publicidade, pelos videoclipes e pela estética pin-up contemporânea.
O impacto visual da personagem também nunca diminuiu.
Betty virou ícone fashion muito antes de personagens animados serem tratados dessa maneira. Seu rosto estampou roupas, maquiagem, bolsas, campanhas publicitárias e coleções retrô durante décadas, transformando-a em uma das personagens animadas mais reconhecíveis do mundo mesmo para pessoas que jamais assistiram aos curtas originais.
A repercussão da notícia tem seguido exatamente essa lógica. Parte do público demonstra curiosidade para entender como Quinta irá atualizar Betty sem destruir sua essência, outra parte teme uma adaptação excessivamente contemporânea e existe ainda um entusiasmo genuíno entre aqueles que percebem que talvez essa seja a primeira vez em muito tempo que Hollywood tenta olhar para Betty Boop como personagem histórica e não apenas como marca vintage.
O mais interessante é que o próprio conceito do filme parece fugir do caminho mais previsível. Em vez de simplesmente transformar Betty em protagonista de uma aventura nostálgica, o projeto pretende discutir a relação entre criador e criatura, entre arte e exploração comercial, entre identidade pública e autonomia. Ou seja, exatamente os temas que cercam Betty Boop desde os anos 1930.
No fim, existe algo quase poético na ideia de Quinta Brunson assumir esse papel em 2026.
Porque Betty Boop nasceu em um período de transformação cultural profunda nos Estados Unidos. E Quinta também se tornou símbolo de uma mudança importante dentro da televisão americana contemporânea, marcada pela possibilidade de mulheres negras comandarem narrativas populares sem abrir mão de inteligência, sutileza e autoria.
Ainda é cedo para saber se o filme funcionará.
Mas é difícil negar que essa escolha faz sentido.
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