Hacks, Temporada 5, Episódio 9 (Recap): legado não significa controle

O nome do penúltimo episódio de Hacks tem pegadinha: “The Garden” não é realmente sobre o Madison Square Garden. Ou melhor: é sobre tudo aquilo que o Garden representa para Deborah Vance. A validação definitiva depois de décadas sendo tratada como descartável por uma indústria que sempre preferiu homens mais velhos e mulheres mais jovens. Justamente por isso, a fantasia será desmontada peça por peça.

Voltamos com Deborah reaparecendo no The Breakfast Club depois do período de silêncio forçado imposto pelo escândalo do late night. Ela está elétrica, performática, feliz por voltar a controlar a própria narrativa — ainda mais porque os ingressos do Madison Square Garden esgotaram em apenas dez minutos.

Tudo, claro, mascara ansiedade com grandiosidade. Quanto mais perto Deborah chega da vulnerabilidade real, mais agressivamente engraçada fica. O preparo para o show parece o treinamento de um atleta olímpico entrando em colapso silencioso. Jean Smart vende tudo isso de forma brilhante porque Deborah nunca verbaliza o medo. O medo aparece nos pequenos excessos, na obsessão pelo controle, na incapacidade de dormir. Seu verdadeiro terror é que o público descubra que talvez ela já não consiga mais sustentar a própria lenda.

Por isso é tão irônico que Marty acabe funcionando justamente como sedativo emocional. Deborah o chama no meio da madrugada quase como alguém procurando anestesia humana. A relação dos dois continua sendo uma das coisas mais inesperadamente delicadas da série porque funciona menos como romance e mais como reconhecimento mútuo entre duas pessoas envelhecendo dentro de sistemas que descartam gente mais velha sem qualquer cerimônia.

Ela testemunha o momento em que Marty é demitido pelos “garotos do computador”, numa cena que mistura absurdo e melancolia. O detalhe importante não é apenas a demissão, mas Deborah imediatamente entender a humilhação dele porque ela própria viveu aquilo. Quando Marty reclama de etarismo, Deborah praticamente resume a dinâmica inteira da série ao suspirar que ele apenas “chegou atrasado ao clube”. Como quase sempre acontece, homens também sofrem as consequências — só que muito depois.

Enquanto isso, Ava entra numa trama que parece paralela, mas claramente prepara o verdadeiro final emocional da série. Finalmente vemos a tentativa de reboot de Who’s Making Dinner?, que fracassa porque os executivos consideram a ideia genérica demais. Falta algo “pessoal”. E é aí que Ava lentamente percebe que Deborah virou a matéria-prima da própria vida criativa.

Mesmo os momentos mais banais — as discussões sobre minibar, hábitos, idade e convivência — fazem Ava entender que diferenças que antes geravam guerra agora viraram intimidade.

Ela percebe que passou anos vivendo uma espécie de sitcom emocional com Deborah Vance sem se dar conta. Talvez essa seja a grande virada silenciosa da temporada: Deborah deixou de ser apenas chefe, mentora ou trauma ambulante. Virou sua alma gêmea emocional. E finalmente Ava encontra a história que consegue vender.

Mas na noite do Madison Square Garden tudo desmorona.

O corredor vazio. O silêncio dentro da arena. Deborah perguntando onde está o público enquanto Ava parece prestes a chorar antes de levá-la ao palco. O inimaginável aconteceu: Bob Lipka está sentado sozinho no Madison Square Garden. Ele comprou todos os ingressos.

A cena é profundamente humilhante porque não se trata apenas de sabotagem profissional. É uma tentativa literal de apagar Deborah Vance da existência pública. Bob quer que ela performe diante do vazio. Para ele, destruir Deborah e silenciá-la virou um objetivo para o qual vale usar qualquer recurso.

Mesmo trabalhando em televisão, ainda bem que nunca encontrei um Bob Lipka pela frente. Mas ele representa tantos executivos homens que é impossível não reconhecer o tipo imediatamente — e impossível não simpatizar com a dor de Deborah.

Além de destruir o sonho do Madison Square Garden, ele insiste que continuará tentando silenciá-la para sempre.

A resposta da série é ainda mais fantasiosa do que lotar o MSG. Numa operação de guerra improvisada, Deborah decide fazer um show gratuito no Central Park. Em três dias.

Jimmy surta tentando conseguir autorização no departamento de parques. Kayla insiste que seus amigos de acampamento “comandam Nova York”. Damien tenta salvar a estrutura do palco. Tudo funciona porque Hacks entende que bastidores do entretenimento são puro caos mascarado de profissionalismo — mesmo que aqui a lógica precise se curvar um pouco ao desejo da narrativa de dar a Deborah um triunfo quase mítico.

E, fechando mais um arco importante, Deborah e Marty finalmente parecem se encontrar no mesmo lugar emocional. Ela o convida para administrar o Diva, seu cassino. É uma parceria que precisou atravessar tantos altos e baixos para finalmente parecer equilibrada.

Falando em jornadas, Deborah ainda faz uma rodada pública de desculpas durante a divulgação improvisada do novo show, conseguindo aliados improváveis no processo. No final, diante de 30 mil pessoas que lotam o Central Park, ela quebra um recorde de público para stand-up.

Mas talvez o mais importante seja outra coisa: pela primeira vez, Deborah aparece como uma mulher cercada por pessoas em quem confia — e, mais raro ainda, pessoas que ela escuta.

Seu legado finalmente parece definido.

Só que ainda existe mais um episódio antes do adeus. E Hacks sempre soube que o verdadeiro conflito nunca foi profissional. É emocional.


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