The Boroughs: O Horror da Idade em Nova Série da Netflix

Depois da febre mundial que criaram com jovens adolescentes, é igualmente irônico e inteligente perceber que os Duffer Brothers agora parecem interessados em perguntar o que acontece quando essas crianças envelhecem. Ou melhor: quem essas pessoas se tornam quando o mistério continua existindo, mas o corpo já não responde da mesma forma.

É exatamente daí que nasce The Boroughs, nova série da Netflix criada por Jeffrey Addiss e Will Matthews (The Dark Crystal: Age of Resistance) e produzida pelos irmãos Duffer, que já ganhou o apelido inevitável de “Stranger Things da terceira idade”. E, honestamente? O apelido não está errado.

A trama se passa em uma comunidade de aposentados aparentemente tranquila no deserto do Novo México. Um daqueles lugares organizados demais, silenciosos demais, onde a ideia vendida é conforto, segurança e o fim das preocupações. Naturalmente, isso significa que algo horrível está escondido ali.

Quando moradores começam a desaparecer e criaturas estranhas passam a surgir entre paredes, corredores e lapsos de memória, um grupo de idosos decide investigar o que está acontecendo. E a série entende rapidamente onde está seu maior trunfo: essas pessoas não são “versões velhas” de protagonistas jovens. Elas carregam décadas de perdas, ressentimentos, culpas, doenças, luto e a sensação constante de que o mundo já decidiu descartá-las.

Até a trilha sonora ajuda a construir essa sensação de passado, memória e melancolia. Nora Felder, supervisora musical de Stranger Things, voltou a trabalhar com os Duffer Brothers e montou para The Boroughs uma seleção que mistura David Bowie, Bruce Springsteen, Santana, Siouxsie and the Banshees, Heart e Bob Seger. A série literalmente abre ao som de “Golden Years”, de Bowie, enquanto Sam Cooper, personagem de Alfred Molina, chega à comunidade de aposentados.

E existe algo muito simbólico nessa escolha. “Golden Years” não funciona apenas como nostalgia cool. Funciona quase como uma provocação. A ideia de “anos dourados” aqui parece menos um estado de paz e mais uma tentativa desesperada de convencer aquelas pessoas de que ainda existe tempo.

Talvez por isso Bruce Springsteen tenha se tornado outro eixo emocional importante da série. “Thunder Road” aparece como a música que conecta Sam à esposa morta, Lilly, atravessando diferentes momentos da temporada, do trauma à despedida final. Já “Born to Run” encerra a temporada como uma espécie de manifesto emocional: aqueles personagens ainda estão vivos, desejando, errando e tentando continuar.

E isso conversa diretamente com o grande tema da série: a recusa em tratar idosos como figuras esperando passivamente pelo fim.

Por isso, a comparação com Cocoon virou quase automática. Só que talvez The Boroughs funcione justamente como um “Cocoon ao contrário”.

Em Cocoon (1985), idosos reencontravam juventude, vitalidade e uma espécie de segunda chance cósmica. Aqui, o horror nasce exatamente do contrário: da consciência brutal do tempo acabando. O monstro de The Boroughs não ameaça apenas matar. Ele ameaça roubar a única coisa que aqueles personagens já sentem estar perdendo naturalmente: tempo.

E isso muda completamente a energia da série.

Se Stranger Things era sobre crescer rápido demais, The Boroughs é sobre descobrir que talvez nunca exista tempo suficiente. Mesmo aos 70. Mesmo aos 80.

Claro que o DNA dos Duffer Brothers está por toda parte. O clima de conspiração governamental. As luzes piscando. O uso de rádio, TV estática e sinais estranhos. O grupo improvável unido contra algo impossível. O horror que parece saído de Stephen King. A sensação de aventura oitentista misturada com melancolia contemporânea.

Mas existe uma diferença importante: The Boroughs parece menos interessada em nostalgia pura.

A crítica vem apontando justamente isso como um dos pontos mais fortes da série. Apesar da embalagem familiar, há uma camada emocional mais amarga e madura aqui. O horror não é apenas sobrenatural. É também o medo de irrelevância. A invisibilidade social. A crueldade com que idosos são tratados, mesmo em espaços “luxuosos” pensados para eles.

E o elenco ajuda muito nessa densidade. Alfred Molina lidera a série como Sam Cooper, um viúvo recém-chegado à comunidade, cercado por nomes como Geena Davis, Alfre Woodard, Bill Pullman, Clarke Peters e Denis O’Hare. É um elenco tão forte que boa parte das críticas diz que, mesmo quando o mistério parece familiar demais, as atuações sustentam tudo.

Há, inclusive, algo muito bonito em ver a série tratar idosos como pessoas ainda profundamente desejantes. Não apenas sobreviventes simpáticos esperando o fim da vida. Alguns críticos destacaram justamente isso: os personagens fazem karaokê de Springsteen, usam drogas recreativas, flertam, brigam, fazem sexo, escondem segredos e continuam tentando entender quem são.

Talvez seja aí que The Boroughs encontre sua identidade própria.

Porque seria fácil transformar tudo em uma piada sobre velhinhos enfrentando monstros. Mas a série aparentemente evita isso na maior parte do tempo. O envelhecimento não é punchline. É parte central da mitologia.

E sim: há spoilers curiosos surgindo sobre a dimensão sobrenatural da trama.

A temporada revela que existe uma entidade chamada “Mother”, descoberta ainda nos anos 1940, ligada a experimentos, manipulação temporal e criaturas que se alimentam de fluido cerebral para prolongar a vida. O horror passa a misturar alienígenas, distorções temporais e quase uma obsessão humana pela imortalidade.

Ou seja: quanto mais a série avança, mais ela parece trocar o “aventura juvenil” de The Goonies por algo existencialmente mais triste.

Porque crianças acreditam que viverão para sempre. Idosos sabem que não.

E talvez seja exatamente isso que transforma The Boroughs em algo mais interessante do que apenas “Stranger Things com pessoas velhas”.


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