A televisão passou décadas transformando jovens em protagonistas do fim do mundo. De Buffy a Stranger Things, passando por praticamente toda a lógica contemporânea da cultura pop, existe uma obsessão narrativa pela juventude como centro emocional da experiência humana. Os adolescentes sentem mais. Sofrem mais. Salvam mais. Até os monstros parecem escolhê-los primeiro.
Por isso existe algo profundamente interessante na inversão de The Boroughs, nova série produzida pelos irmãos Duffer para a Netflix. Não apenas porque coloca personagens acima dos 70 anos no centro da narrativa, mas porque faz isso sem a condescendência normalmente reservada à terceira idade. Ainda é raro ver idosos ocupando o papel de heróis, investigadores ou sobreviventes sem serem tratados como caricaturas frágeis, “fofas” ou meramente nostálgicas.
E talvez seja justamente aí que a série esconda sua verdadeira força.

Porque por trás da aparência de série sobre monstros — uma espécie de vampiros, criaturas misteriosas, pessoas esquecidas sendo manipuladas ou usadas em nome da promessa de “vida eterna” — existe a sensação de que The Boroughs fala sobre algo muito maior: o abandono silencioso da velhice em uma sociedade obcecada por juventude.
A premissa acompanha idosos vivendo em uma comunidade aparentemente tranquila até que forças sobrenaturais começam a surgir. Mas o detalhe importante e cruel da história talvez esteja justamente em quem essas criaturas escolhem atingir: pessoas esquecidas, invisíveis. Pessoas que o mundo contemporâneo já colocou à margem antes mesmo da ameaça aparecer e mais ainda, cuja credibilidade é frequentemente questionada por conta de lapsos de memória ou mesmo Alzheimer.
O horror, então, deixa de ser apenas sobrenatural e vira um dedo apontado para todos nós.
A série parece tocar numa contradição profundamente humana: passamos a vida inteira tentando amadurecer emocionalmente enquanto o corpo caminha inevitavelmente para o desgaste. O tempo psíquico e o tempo físico raramente evoluem juntos e a inconformidade dessa fórmula é tanto atemporal como universal: envelhecer nunca foi visto como algo bom.
A famosa frase atribuída a George Bernard Shaw — “a juventude é desperdiçada nos jovens” — continua atravessando gerações justamente porque existe nela uma ironia cruel. Quando finalmente acumulamos experiência suficiente para compreender nossas ambivalências, traumas, arrependimentos e desejos contraditórios, a juventude física já começou a desaparecer.
Carl Jung chegou muito perto dessa percepção ao desenvolver o conceito de individuação: o processo de integração da psique, no qual o sujeito consegue reconhecer partes contraditórias de si mesmo, incluindo traumas, repressões e aquilo que chamou de sombra. Para Jung, esse processo frequentemente só começa a se tornar possível na segunda metade da vida, justamente porque depende da experiência acumulada. Parte da maturidade psíquica só pode surgir depois da vivência, quando o sujeito finalmente é capaz de confrontar suas próprias dores e incongruências sem a urgência performática da juventude.
E, no entanto, é essa juventude momentânea e fulgás que continuamos perseguindo.
Talvez porque o corpo amadureça num ritmo cruelmente diferente da mente. O físico “cansa” pelo próprio uso exatamente quando a psique começa a se tornar mais complexa. A maturidade emocional chega ao mesmo tempo em que a sociedade passa a valorizar menos aquele sujeito. É quase como se nos tornássemos mais completos justamente quando o mundo decide parar de olhar.

Isso torna ainda mais simbólica a obsessão recorrente da ficção pela vida eterna. Vampiros, rejuvenescimento artificial, corpos preservados, consciências transferidas. Quase sempre, a eternidade nunca significa apenas continuar vivo. Significa recuperar juventude. Recuperar potência física. Recuperar desejo. Recuperar tempo. Como se viver para sempre só fosse aceitável caso o corpo permanecesse jovem.
The Boroughs parece brincar diretamente com isso. O antagonista chega a falar sobre o conceito de “o melhor está por vir” e como a frase soa quase errada para aqueles personagens porque, em determinado ponto da vida, olhar para frente já não produz necessariamente esperança. O olhar inevitavelmente retorna ao passado. Às pessoas que morreram. Aos erros. À juventude perdida. Aquilo que não volta mais. E talvez seja justamente isso que diferencia a série de outras histórias de horror contemporâneo.
Assim como Corra! parecia inicialmente apenas um thriller psicológico antes de revelar uma metáfora muito mais profunda sobre racismo, apropriação e violência estrutural, The Boroughs dá sinais de que o sobrenatural talvez funcione apenas como superfície para discutir algo mais doloroso: invisibilidade, envelhecimento e o medo social da decadência física. A energia dos idosos esquecidos, ignorados e com pouca expectativa de vida se transforma em matéria-prima perfeita para um casal que dribou mais de meio século de doenças e rugas tirando dos que todos esperavam de alguma forma morrer. Um crime perfeito, um crime tão cotidiano e tão real que a fantasia só ressaltou. Melhor ainda, apesar disso, The Boroughs jamais é didático ou julgador: é o que é.
E a verdade é que a terceira idade frequentemente é retratada pela ficção como um espaço suspenso. Condomínios silenciosos, bairros afastados, instituições isoladas da cidade, lugares onde o tempo parece desacelerar até quase parar. Ambientes que lembram histórias de fantasmas antes mesmo de qualquer criatura aparecer. Porque a velhice ainda assusta profundamente a cultura contemporânea.
Não apenas por causa da morte, mas porque ela desmonta duas fantasias modernas muito específicas: a de produtividade infinita e a de controle absoluto sobre o corpo. Vivemos numa sociedade que fala constantemente sobre longevidade, autocuidado e envelhecimento saudável, mas existe uma condição implícita nisso tudo. O idoso aceitável é aquele que continua performando juventude. Quem envelhece “de verdade” rapidamente se torna desconfortável para o imaginário coletivo.


Talvez por isso Cocoon continue sendo uma das metáforas mais bonitas já feitas sobre envelhecimento. O filme, que completou 40 anos em 2025, usava ficção científica para falar de algo extremamente simples e profundamente humano: idosos continuam querendo viver plenamente. Continuam querendo tocar, amar, sentir prazer, desejar o mundo e serem desejados por ele.
A piscina alienígena de Cocoon nunca oferecia apenas rejuvenescimento físico. Ela devolvia algo emocionalmente mais profundo: a sensação de voltar a existir completamente. E The Boroughs parece partir de um desconforto parecido e invertido.
Existe inclusive um personagem interpretado por um dos meus atores favoritos, David O’Hare, lidando diretamente com a perspectiva inevitável da morte depois de já ter vivido perdas profundas. Pelo pouco revelado até agora, há algo particularmente doloroso nele: não querer partir, mas também não suportar assistir os outros partindo. Em certa altura da vida, sobreviver também significa assistir ao desaparecimento gradual das pessoas que sustentavam sua memória emocional do mundo.
E aqui está uma esquação sensível: se a juventude teme o futuro, a velhice muitas vezes teme o esvaziamento do passado, mas é algo que apenas quando chegamos lá percebemos. Talvez por isso o verdadeiro horror de The Boroughs não esteja nos monstros. Talvez esteja na percepção de que envelhecer, hoje, significa continuar existindo em um mundo que lentamente aprende a não enxergar mais você.
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