Star City: Anna Maxwell Martin e Agnes O’Casey falam sobre paranoia, poder e sobrevivência emocional na nova série da Apple TV

Como publicado em CLAUDIA

Entre as muitas séries recentes sobre corrida espacial, poucas começam tão interessadas nas consequências emocionais do poder quanto Star City. Derivada do universo de For All Mankind, a nova produção da Apple TV retorna ao momento em que a União Soviética vence a corrida para colocar um homem na Lua, mas escolhe contar essa história a partir de um ponto de vista raramente explorado: o das mulheres, agentes e famílias que precisavam sobreviver dentro de um sistema construído sobre vigilância, silêncio e controle.

Em vez de transformar o espaço em fantasia heroica, Star City funciona quase como um thriller psicológico sobre paranoia e sobrevivência. O programa espacial soviético está no centro da narrativa, mas a série entende que, por trás da disputa tecnológica da Guerra Fria, existiam pessoas tentando preservar algum tipo de identidade dentro de uma estrutura que exigia obediência absoluta.

E talvez nenhuma relação represente isso tão bem quanto a de Ludmilla Raskova e Irina Morozova. Anna Maxwell Martin interpreta a agente da KGB encarregada de proteger o programa espacial soviético, enquanto Agnes O’Casey vive a jovem Irina Molokova, personagem que os fãs de For All Mankind já conhecem em sua versão madura. Existe algo inevitavelmente trágico nessa construção: mesmo antes de vê-la se transformar na figura política fria e poderosa da série original, Star City deixa claro como aquele ambiente começa a moldá-la emocionalmente desde cedo.

Mas existe um detalhe especialmente inteligente na forma como a série constrói essa trajetória. Para quem ainda não assistiu a For All Mankind, é possível inicialmente não associar imediatamente aquela jovem Irina à personagem que já conhecemos no futuro. E isso transforma a experiência em algo ainda mais interessante, porque a série consegue inverter completamente a maneira como enxergamos a personagem. Em vez da figura política distante e calculista apresentada na produção original, vemos alguém ainda vulnerável, insegura e moldável, tentando sobreviver dentro de um sistema que parece consumir lentamente qualquer traço de humanidade.

É justamente aí que o roteiro encontra uma de suas maiores forças, potencializada pela interpretação de Agnes O’Casey, que consegue equilibrar fragilidade, inteligência e ambição sem jamais transformar Irina em uma personagem óbvia. O público sabe que existe algo perigoso sendo construído ali, mas a série cria espaço suficiente para que ainda exista empatia.

Ao lado dela, Anna Maxwell Martin entrega talvez uma das atuações mais desconcertantes de sua carreira. Conhecida por personagens frequentemente mais calorosas, vulneráveis ou até afetuosas, a atriz aparece aqui de maneira quase apavorante. Sua Ludmilla nunca precisa elevar a voz para transmitir ameaça. O desconforto nasce justamente da calma, da contenção e da sensação constante de que ela está sempre observando mais do que revela.

Durante a conversa com a CLAUDIA, Anna Maxwell Martin e Agnes O’Casey falaram justamente sobre essa dinâmica complexa entre suas personagens, sobre o peso psicológico de viver em um sistema sustentado pelo medo e sobre a escolha da série de não reduzir suas protagonistas ao fato de serem mulheres em posições de poder. Em vez disso, ambas destacam como Star City trata essas personagens como pessoas tentando sobreviver dentro de um ambiente onde até afeto, admiração e confiança podem se transformar em instrumentos de controle.

CLAUDIA: Parabéns pela série. Anna, preciso dizer que sou sua fã há anos e nunca fiquei tão assustada com uma personagem sua quanto fiquei aqui.

Anna Maxwell Martin: (rindo)  Sim, claro! É assim que eu sou na vida real. Todo o resto era atuação, mas essa sou eu de verdade.

CLAUDIA: Normalmente suas personagens são tão doces. E a Ludmilla até tem algo doce, mas ela também assusta muito. E como eu sei no que a Irina vai se transformar, também fiquei com medo dela.

Anna Maxwell Martin: Elas formam uma ótima dupla, não é? Nós realmente nos divertimos muito interpretando essas personagens juntas. Acho que são figuras muito emocionantes de interpretar.

CLAUDIA: Uma das coisas que mais me chamaram a atenção na série é essa atmosfera de opressão. Tem uma cena muito interessante em que sua personagem fala sobre igualdade dentro do sistema, mas percebemos que aquilo não existe de verdade. Ainda há hierarquias sociais muito rígidas. E fiquei pensando nisso enquanto assistia: quanto a Raskova realmente sabe sobre Irina?

Anna Maxwell Martin: Essa é justamente a grande dicotomia do comunismo, não é? Existe a ideia de igualdade, mas nunca há igualdade real. Sempre haverá líderes, hierarquias, pessoas em posições superiores. Há diferentes cargos dentro da KGB, há quem tenha servido na guerra, quem tenha prestígio maior. Então a própria ideia de igualdade já nasce subvertida.

E essa questão sobre o que Ludmilla sabe sobre Irina é muito interessante. Na verdade, eu nunca tinha pensado profundamente nisso antes, mas talvez ela saiba mais do que deixa transparecer. Acho que Ludmilla fica intrigada pela Irina. Talvez porque veja nela algo que queira moldar à própria imagem. Talvez seja fascínio, curiosidade ou até projeção.

O jeito como Agnes e eu trabalhamos juntas foi tentando tornar essa relação o mais complexa e surpreendente possível.

CLAUDIA: Agnes, quem assistiu a For All Mankind já sabe o que a Irina vai se tornar no futuro, mas ainda assim eu me peguei torcendo por ela e depois me odiando por isso.

Agnes O’Casey: (comemorando) Isso é ótimo! Porque nós sabemos para onde ela vai, mas ainda assim existe algo muito dramático e emocionante nessa trajetória. É quase trágico.

É como assistir a Romeu e Julieta. Você sabe exatamente o final, mas continua torcendo para que aquilo termine de outra maneira.

Interpretar a Irina foi emocionante justamente porque pude acompanhar toda essa transformação dela. Você vê a personagem aprendendo tudo aos poucos.

CLAUDIA: Também achei muito interessante a maneira como a série trabalha mulheres dentro de uma estrutura de poder extremamente rígida. Não parece que a série reduz essas personagens ao fato de serem mulheres naquele ambiente.

Anna Maxwell Martin: Há muitas camadas nisso. Primeiro, eu sinto muita compaixão pela Ludmilla porque ela é produto daquele ambiente. No fim do dia, ela está apenas tentando fazer seu trabalho. E não cumprir seu papel naquele sistema é perigoso.

Nunca senti que estava interpretando “uma personagem feminina” especificamente. Talvez por causa do uniforme, talvez pela forma como foi escrito, mas eu nunca pensei nela em termos de gênero. Eu a enxergava simplesmente como uma pessoa dentro daquele sistema.

Matt Wolpert e Ben Nedivi trataram isso dessa maneira também. Não havia uma agenda explícita sobre isso. O fato de ela ocupar aquela posição nunca era tratado como algo extraordinário, e eu gostei muito disso.

Agnes O’Casey: Eu senti exatamente a mesma coisa. Foi muito libertador. Nunca precisei pensar constantemente sobre o gênero da Irina enquanto trabalhava nela. Acho que isso vem diretamente da maneira como os roteiros foram escritos.

CLAUDIA: E o mais interessante é que, apesar da conexão com For All Mankind, Star City funciona muito mais como um thriller político e psicológico.

Anna Maxwell Martin: Exatamente. Claro que existe o legado de For All Mankind, mas Star City não é exatamente uma série espacial. É um thriller.

Ela fala sobre o conflito entre pessoas que querem construir algo criativo, que acreditam profundamente no programa espacial, e o outro lado, que tenta proteger esse programa a qualquer custo. Mesmo que isso destrua justamente a criatividade necessária para fazê-lo existir.

O conflito verdadeiro da série é medo, segurança e paranoia.

CLAUDIA: E vocês fizeram muita pesquisa histórica para entrar nesse universo?

Agnes O’Casey: Muita. A pesquisa foi extremamente importante porque aquele mundo não poderia ser mais diferente do mundo em que eu cresci. E isso é uma das melhores partes do trabalho: aprender coisas novas.

Anna Maxwell Martin: Sim, mergulhar em outra cultura, em outras ideias.

Agnes O’Casey: Quando eu era mais nova, eu dizia que queria ser atriz porque parecia uma profissão em que você continuava aprendendo para sempre. E esse projeto realmente me deu essa sensação.

CLAUDIA: A série está incrível. E continuo com medo de vocês duas!

Anna Maxwell Martin: (rindo) Ótimo. Muito obrigada!

Agnes O’Casey: Obrigada! Fico feliz que você tenha gostado.


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