A morte de Nate Jacobs em Euphoria foi construída como um espetáculo de horror. Sam Levinson transforma o personagem numa figura quase amaldiçoada, enterrado vivo e condenado a morrer sozinho depois de temporadas manipulando, abusando e destruindo emocionalmente todos ao redor. A cena da cascavel funciona como punição grotesca, mas também como distração. Porque o verdadeiro terror da reta final talvez não esteja no destino de Nate, mas no que acontece com Maddy e Cassie depois dele.
As duas terminam a temporada presas ao universo de Alamo.
E o mais perturbador é perceber como Euphoria constrói essa armadilha lentamente.

Maddy conhece Alamo através de Rue Bennett, que já estava circulando pelo submundo criminoso da temporada e trabalhando como ponte entre diferentes figuras daquele universo. O encontro acontece numa lanchonete tradicional americana, num balcão aparentemente banal, mas que muda completamente a trajetória da personagem. Maddy já estava desesperada por dinheiro depois do salto temporal da série e procurava formas rápidas de ascensão financeira. Alamo imediatamente percebe nela algo valioso: frieza emocional, inteligência social e capacidade de controlar outras pessoas.
A relação profissional cresce rápido. Maddy passa a trabalhar para o império dele, ajudando a gerenciar garotas ligadas às boates de strip-tease e outras atividades ilícitas. Aos poucos, ela assume uma posição de poder ilusório naquele sistema. Parece estar ganhando autonomia, dinheiro e influência, mas a série deixa claro desde cedo que ninguém entra no universo de Alamo sem se tornar propriedade dele de alguma forma.
Cassie acaba sendo puxada para esse mundo por Nate.
Quando a dívida de um milhão de dólares ligada a Nate Jacobs explode, a situação sai completamente do controle. Cassie é sequestrada pelo agiota armênio Naz enquanto Nate é torturado e enterrado vivo com apenas 72 horas para sobreviver. Em pânico, Cassie recorre justamente à única pessoa que ainda acredita poder ajudá-la: Maddy Perez.
É aí que a dinâmica entre as duas muda radicalmente.

Apesar de todo o histórico de rivalidade, humilhação e ressentimento, Maddy decide salvar Cassie. Ela vai até a casa de Alamo implorar por um milhão de dólares para pagar o resgate. Só que a sequência da jacuzzi deixa claro que Alamo nunca negocia sem transformar vulnerabilidade feminina em moeda de troca.
Ele obriga Maddy a vestir um maiô escolhido por ele, entrar na jacuzzi e se submeter a uma situação profundamente humilhante e sexualmente ameaçadora. A cena é construída como demonstração absoluta de poder. Maddy tenta negociar, manter algum controle emocional, mas a série deixa implícito que ela cruza uma linha sem possibilidade de retorno para conseguir ajuda.
E, no pior momento possível, ela ainda destrói sem querer a única pessoa que tentava derrubar Alamo.
Durante a conversa, Maddy menciona casualmente que Rue vinha falando sobre as conexões dele com “nazistas” e com a DEA. O comentário confirma as suspeitas de Alamo de que Rue estaria funcionando como informante. A partir daí, Rue deixa de ser apenas uma aliada problemática e passa a ser alvo direto do império criminoso dele.
Só que nem o sacrifício de Maddy salva Nate.

No encontro final, Alamo não entrega o dinheiro para Naz. Ele aparece com uma mala vazia, executa o agiota e assume a dívida para si mesmo. Quando Cassie e Maddy finalmente conseguem chegar até o caixão, Nate já está morto, picado pela cascavel antes do resgate.
Todo o horror foi em vão e é justamente aí que Euphoria se torna mais cruel.
Porque Alamo informa às duas que a dívida agora pertence a ele. Maddy passa a dever 20% de todos os seus ganhos futuros, enquanto Cassie mergulha num colapso psicológico absoluto. Sem dinheiro, traumatizada e emocionalmente destruída pela morte de Nate, ela é obrigada a reativar o OnlyFans numa tentativa desesperada de sobreviver financeiramente.
Maddy assume o controle da carreira online de Cassie de forma agressiva, pressionando-a a produzir conteúdo, aumentar engajamento e continuar lucrando. A relação entre as duas deixa de ser apenas rivalidade adolescente e se transforma em algo muito mais triste: uma codependência construída dentro de exploração, trauma e medo constante.
Por isso, a teoria envolvendo tráfico humano assusta tanto.


Rue encontra a carteira de motorista de Angel, personagem vista pela última vez sendo enviada para uma clínica de reabilitação extremamente suspeita. O detalhe aparentemente pequeno reforça a ideia de que Alamo usa clínicas, boates e redes de exploração sexual como partes de um mesmo sistema. Laurie já havia avisado temporadas atrás do que acontecia com garotas vulneráveis sem dinheiro ou proteção. Agora a série parece finalmente mostrar esse mecanismo funcionando de maneira explícita.
Maddy e Cassie terminam a temporada exatamente no perfil descrito por Laurie: emocionalmente fragilizadas, financeiramente dependentes e presas a homens que transformam trauma feminino em negócio.
A morte de Nate Jacobs encerra a trajetória dele. Para Maddy e Cassie, porém, o horror apenas começou.
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