Por que a morte de Nate em Euphoria é tão perturbadora?

Se Sam Levinson sabe uma coisa, é incomodar. No caso de Euphoria, arrisco até dizer que traumatiza. A última temporada da série foi marcada pela destruição visual, moral e física de seu principal antagonista: Nate Jacobs.

Nate sempre foi um monstro em Euphoria. A diferença é que, nas primeiras temporadas, Sam Levinson filmava essa monstruosidade quase como fascínio. Nate era abusivo, manipulador, violento, perseguidor, cruel com mulheres, cruel com homens, cruel consigo mesmo. Ele aterrorizava Maddy, destruía psicologicamente Jules, usava Cassie como projeção emocional, espancava pessoas, mentia compulsivamente e reproduzia exatamente a masculinidade tóxica que aprendeu dentro de casa com Cal. Ainda assim, havia um certo glamour em torno dele. A câmera gostava de Nate. A fotografia gostava de Nate. Até seus colapsos eram filmados como grandes tragédias masculinas estilizadas. Claro que ajudou ter um ator bonito e talentoso como Jacob Elordi dando vida a ele.

Por isso tanta gente começou a achar que a série estava “amolecendo” o personagem conforme ele ganhava momentos mais vulneráveis. O problema é que vulnerabilidade não apaga violência. E Euphoria entrou numa zona estranha em que parte do público passou a ler Nate quase como alguém “salvável”, especialmente depois da exposição do pai, do vazio emocional dele e das cenas em que parecia genuinamente perdido. Como se sofrimento automaticamente produzisse redenção.

Só que Nate nunca deixou de ser perigoso.

Talvez por isso o arco descendente tenha parecido inevitável. Não porque todo personagem violento precise morrer, mas porque a série criou alguém incapaz de existir sem controle. Nate controlava o ambiente pela intimidação, pelo sexo, pelo medo, pela performance de masculinidade perfeita que aprendeu a reproduzir desde cedo. Quando começa a perder isso, sobra um personagem implodindo diante da própria incapacidade emocional.

E é aí que a morte dele vira horror corporal.

Nate foi literalmente despedaçado aos poucos quando saiu do ambiente estudantil; continuou agindo como fazia na high school. Deu um passo maior do que as pernas, tentou burlar leis, se envolveu com criminosos. Estar sem alguns dedos, espancado e enterrado vivo já parecia punição intensa, mas aí veio a cascavel.

A aproximação lenta, sua descoberta do cano de respiração, a cobra descendo pelo rosto de um Nate desesperado, apavorado, incapaz de impedir o próprio fim enquanto ele se aproximava lentamente. Existe algo quase cruelmente íntimo nessa sequência, porque Euphoria obriga o espectador a permanecer ali junto dele.

A cena da cobra não é apenas grotesca. Ela é deliberadamente humilhante. Quando vemos Nate morto, a língua inchada, escurecida, quase animalizada, causa choque porque Nate sempre usou a fala como arma. Ele seduz, ameaça, mente, manipula e destrói pessoas através das palavras. Então ver justamente a boca e a língua se tornando algo monstruoso parece uma punição simbólica muito clara. Euphoria transforma o corpo dele numa imagem de degradação absoluta.

O curioso é que a série não filma isso como catarse heroica. Não existe redenção ou beleza, mas apenas sofrimento físico extremo sendo prolongado até ficar quase insuportável de assistir. E isso conversa diretamente com o maior problema da série desde o começo: sua dificuldade de encontrar limite para a dor.

Porque Euphoria frequentemente parece acreditar que intensidade emocional só existe através da destruição completa dos personagens. Nate precisava cair? Dramaticamente, talvez sim. Mas a forma como a série escolhe fazer isso diz muito sobre o prazer que ela encontra no excesso. A sequência deixa de funcionar apenas como narrativa e entra num território de espetáculo cruel, quase como se o espectador também precisasse ser punido junto com ele.

A internet se dividiu, como sempre. Não exatamente porque queriam “salvar” Nate ou porque ele merecia, mas porque foi simplesmente sádico. E me fez lembrar outras cenas igualmente gráficas e marcantes: o Casamento Roxo, ou a morte de Joffrey Baratheon em Game of Thrones, e a morte de Ramsay Bolton na mesma série. Dois vilões dos mais cruéis e apavorantes da história da TV. Joffrey morreu envenenado e engasgado no próprio sangue; Ramsay, devorado pelos próprios cães de caça.

Sabe o pior? Celebrei as duas mortes. Já a de Nate, com aquela cobra chegando lentamente, ainda me deixa impactada.

Talvez seja justamente por isso que tanta gente tenha ficado tão chocada. Não é apenas a morte de Nate Jacobs, mas a sensação sufocante de assistir a um personagem ser reduzido a um corpo em colapso enquanto a câmera se recusa a desviar o olhar. E foi muito difícil de ver.


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