Gilda aos 80 anos: o filme que transformou Rita Hayworth em mito, e prisão

Poucos filmes envelheceram de maneira tão paradoxal quanto Gilda. O noir lançado em 1946 continua sendo um dos longas mais sedutores da história de Hollywood, ainda capaz de sobreviver apenas pela presença magnética de Rita Hayworth em cena. Ao mesmo tempo, oito décadas depois, também se tornou impossível ignorar os problemas de um filme construído inteiramente sobre humilhação feminina, ciúme possessivo e violência emocional romantizada. O fascínio permanece. Mas a leitura mudou.

Existe algo quase hipnótico em rever Gilda hoje porque o filme funciona simultaneamente como fantasia masculina, melodrama tóxico e espetáculo de erotismo cuidadosamente calculado. Não é por acaso que ele atravessou gerações como um símbolo da era dourada de Hollywood. Rita Hayworth não apenas estrelou Gilda: ela virou Gilda. E talvez esse tenha sido exatamente o problema.

Produzido pela Columbia como um “veículo” para transformar Hayworth definitivamente em superstar, o longa nasceu em torno da imagem dela. A própria produtora Virginia Van Upp desenvolveu o projeto pensando especificamente na atriz, que até então era mais associada a musicais e comédias leves. O resultado foi um noir luxuoso, cheio de fumaça, glamour e tensão sexual, ambientado em uma Buenos Aires estilizada que pouco tinha da Argentina real, mas muito da imaginação hollywoodiana do pós-guerra.

Nos bastidores, o clima era tão intenso quanto o do próprio filme. Rita Hayworth e Glenn Ford iniciaram durante as filmagens um romance que atravessaria décadas, em uma relação marcada por aproximações e afastamentos constantes. Há quem diga que parte da eletricidade entre Johnny e Gilda vem justamente dessa mistura entre desejo real e ressentimento performado diante das câmeras.

Mas nenhuma sequência cristalizou tanto o mito do filme quanto “Put the Blame on Mame”. É impossível falar de Gilda sem chegar naquele striptease que, ironicamente, mal é um striptease. Rita praticamente não tira roupa alguma. O escândalo estava menos na nudez e mais na atitude. Na maneira como ela canta, desafia, provoca e parece controlar completamente o olhar masculino ao redor.

A cena nasceu como uma espécie de provocação ao Código Hays. A censura da época impunha limites rígidos para a sexualidade em Hollywood, então o diretor Charles Vidor e a coreografia de Jack Cole trabalharam em cima da sugestão. Rita remove apenas uma luva lentamente enquanto canta “Put the Blame on Mame”, mas a sequência ficou gravada na história do cinema como uma das cenas mais eróticas já filmadas.

O detalhe mais curioso é que Rita Hayworth não cantava de verdade ali. Sua voz foi dublada por Anita Ellis. Ainda assim, o público nunca separou uma da outra. O mito era maior do que a própria realidade.

E claro: existe o vestido.

O vestido preto sem alças criado por Jean Louis talvez seja uma das peças de figurino mais famosas da história de Hollywood. O próprio estilista o definiu como “o vestido mais famoso que já fiz”. O desenho é relativamente simples para padrões modernos, mas a combinação entre o cetim negro, as luvas compridas e o cabelo ondulado de Rita criou uma imagem eterna. Não era apenas elegância. Era construção de fantasia.

Hollywood dos anos 1940 compreendia perfeitamente o poder de fabricar deusas. E poucas foram fabricadas de maneira tão eficiente quanto Rita Hayworth.

O problema é que Gilda também carrega as marcas mais desconfortáveis desse sistema. Revendo o filme hoje, fica evidente como Johnny Farrell é cruel com Gilda praticamente do início ao fim. O longa transforma vigilância obsessiva, manipulação psicológica e punição emocional em prova de amor. Johnny controla os passos dela, manda homens seguirem sua esposa constantemente e parece incapaz de enxergá-la como pessoa fora da projeção de desejo e rancor que criou em sua cabeça.

Durante décadas, parte da crítica enxergou Gilda apenas como uma clássica femme fatale noir. Hoje, a personagem parece muito mais complexa — e até profundamente triste. Ela performa liberdade, sensualidade e provocação porque entende que o mundo masculino ao redor já a condenou antes mesmo de ouvi-la.

Talvez por isso a frase mais famosa associada a Rita Hayworth tenha sobrevivido tanto tempo:

“Os homens vão para a cama com Gilda, mas acordam comigo.”

A frase resume não apenas sua relação com o filme, mas com toda a própria carreira. O sucesso de Gilda foi gigantesco. O longa arrecadou cerca de US$ 6 milhões mundialmente e consolidou Hayworth como uma das maiores estrelas do planeta. Mas a transformação em símbolo sexual teve um preço devastador para sua vida pessoal.

Nada exemplifica isso melhor do que o episódio mais perturbador ligado ao legado do filme: a bomba atômica “Gilda”.

Em 1946, durante a Operação Crossroads, uma bomba nuclear testada no Atol de Bikini recebeu o nome do filme e foi decorada com uma imagem de Rita Hayworth retirada da revista Esquire. O gesto foi tratado como homenagem pela imprensa da época. Rita ficou horrorizada.

Segundo Orson Welles, então marido da atriz, ela acreditava inicialmente que tudo fosse uma campanha publicitária da Columbia e “quase enlouqueceu de tanta raiva” ao descobrir que sua imagem havia sido associada a uma arma nuclear. É difícil imaginar o símbolo mais cruel da maneira como Hollywood consumia mulheres: transformar o maior sex symbol do momento literalmente em explosão.

Ainda assim, Gilda sobreviveu ao tempo de um jeito raro. Foi preservado pela Biblioteca do Congresso como obra “cultural, histórica ou esteticamente significativa”. Inspirou filmes, séries, videoclipes, Stephen King, David Lynch e até Michael Jackson, que planejava inserir digitalmente a si mesmo na cena de “Put the Blame on Mame” para a turnê This Is It.

Talvez porque o filme continue funcionando como uma espécie de cápsula do próprio mecanismo de Hollywood: um lugar capaz de criar imagens eternas enquanto destrói silenciosamente quem existe por trás delas.

Oito décadas depois, Gilda permanece fascinante justamente porque não cabe mais em uma leitura simples. É clássico absoluto, espetáculo visual, noir elegante e marco cultural. Mas também é documento de uma indústria que transformava mulheres em fantasia coletiva antes de permitir que fossem humanas.


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