Escrevo sobre House of the Dragon há mais tempo do que a série existe. E talvez por isso minha relação com Westeros seja um pouco diferente da de parte do fandom online. Ao ver as mudanças feitas pela adaptação em relação a Fire & Blood, nem sempre concordei com elas, mas também nunca fui o tipo de leitora que exigia reprodução literal de cena por cena. Honestamente, acho até que tive sorte de assistir Game of Thrones antes de ler os livros de George R. R. Martin. Vivi muitos dos grandes choques narrativos como surpresa real. Hoje isso parece impossível.

Mesmo quem nunca abriu Fire & Blood provavelmente já sabe como essa história termina tragicamente, especialmente para Rhaenyra. E, ainda assim, há anos acompanhamos um debate dominado por cobranças de cenas específicas, batalhas específicas, personagens específicos, como se adaptar Westeros fosse apenas cumprir checklist de fandom.
Talvez por isso eu receba com certa preguiça o discurso promocional que a HBO e os showrunners repetem a cada nova temporada. Agora, novamente, ouvimos que a terceira temporada terá batalhas “como nunca vimos”, que a guerra finalmente começou, que tudo mudou de escala. A tradicional cobertura da Entertainment Weekly praticamente funciona como um braço oficial dessa campanha, descrevendo a Batalha da Goela como um evento gigantesco, comparável a Helm’s Deep em O Senhor dos Anéis: navios montados em gimbals simulando correntes marítimas, milhares de litros de água sendo despejados nos atores, lança-chamas reproduzindo soldados queimando vivos, dragões atravessando céus tomados por fumaça e fogo.

Tudo isso pode até impressionar visualmente. E provavelmente vai. Mas House of the Dragon nunca teve realmente um problema de escala. O problema sempre foi outro: entender seus personagens. E é justamente aí que a terceira temporada parece mais interessante.
A fala mais importante de toda a cobertura talvez tenha vindo de Emma D’Arcy ao afirmar que Rhaenyra passa por um “movimento em direção à tirania”. Não me incomoda nem um pouco a ideia de uma protagonista feminina moralmente ambígua. Muito pelo contrário. Nunca fiz parte dos insatisfeitos com o destino de Daenerys Targaryen em Game of Thrones ou daqueles que alegam que houve uma “mudança repentina de personalidade”.
Para mim, Daenerys sempre foi exatamente aquela pessoa. Seu discurso libertador funcionava, sim, como transformação social, mas também como construção de poder pessoal. Danny sempre foi profundamente ambiciosa, populista, sedutora e progressivamente apaixonada pela própria lenda. E isso estava presente desde o início. O fascínio da personagem vinha justamente de acompanhar alguém que começava como vítima absoluta e lentamente passava a acreditar que destino, moralidade e desejo pessoal eram a mesma coisa.
Seria muito mais estranho ver Jon Snow, um personagem que rejeitou repetidamente coroas, títulos e poder, de repente se tornando obcecado pelo “direito” ao trono. Daenerys, não. O percurso dela fazia sentido. Talvez o problema tenha sido apenas a velocidade da execução.
E é justamente essa sombra que paira sobre House of the Dragon agora.

Já escrevi aqui em Miscelana sobre como a série alterou profundamente a imagem histórica de Rhaenyra em comparação ao que existe em Fire & Blood. A personagem descrita nos relatos do livro é frequentemente paranoica, cruel, ressentida e cada vez mais isolada politicamente. A série preferiu apresentá-la inicialmente como uma mulher acuada por estruturas patriarcais, constantemente obrigada a sobreviver em um espaço que jamais quis aceitá-la no poder.
Faz sentido dramatúrgico. Especialmente porque, no fim das contas, Rhaenyra será a parte derrotada da História de Westeros. E a História raramente trata bem os derrotados, mas existe uma mudança específica que continuo considerando equivocada: a necessidade quase compulsiva de adaptar Rhaenyra a uma protagonista mais “ativa” fisicamente.
Emma D’Arcy deixa isso claro ao afirmar que queria ver a personagem parar de “pedir desculpas” e assumir uma posição mais direta na guerra. Entendo completamente o desejo da atriz. E aparentemente ela conseguiu influenciar bastante essa leitura da personagem.
Só que Rhaenyra nunca foi uma comandante de campo e era criticada justamente por isso nos livros. Porque ela entendia seu lugar como o de soberana. Os outros guerreavam por ela. Existia uma lógica monárquica ali. Rhaenyra não precisava empunhar espada ou liderar tropas pessoalmente para exercer poder. Ao colocá-la mais diretamente no centro da ação física e estratégica, House of the Dragon aproxima a personagem de um modelo muito mais contemporâneo de heroína televisiva: ativa, operacional, cinematográfica.
Mas isso altera profundamente sua natureza política. Ainda assim, honestamente? Já aceitei que a série seguirá esse caminho. E talvez justamente por isso eu esteja mais interessada nos personagens que a adaptação inicialmente parecia tratar de forma mais simplista.
Porque tanto Tom Glynn-Carney quanto Ewan Mitchell conseguiram fazer algo extremamente difícil: transformar figuras que poderiam facilmente virar vilões rasos em personagens profundamente trágicos.

Tom entende Aegon quase como uma vítima permanente de um sistema familiar emocionalmente deformado. Isso aparece não apenas na atuação, mas até nos relatos físicos da produção: horas intermináveis em próteses, calor insuportável, um corpo literalmente apodrecendo diante do espectador. Aegon não surge como grande conquistador tirânico. Surge como alguém destruído antes mesmo de compreender plenamente o poder que recebeu.
Já Ewan Mitchell encontrou em Aemond algo ainda mais desconfortável. O personagem poderia ter virado apenas o clássico “vilão cool” de fandom. Em vez disso, Mitchell o interpreta quase como uma figura de horror psicológico. Existe uma frieza profundamente perturbadora em Aemond porque ele parece permanentemente dissociado da própria humanidade. Quando o ator diz que House of the Dragon é uma série de horror em que “os monstros são os seres humanos, não os dragões”, ele entende Westeros melhor do que muita gente.
E talvez seja justamente isso que espero da terceira temporada: não apenas batalhas maiores ou dragões mais impressionantes, mas, finalmente, ver House of the Dragon abraçar aquilo que George R. R. Martin sempre escreveu melhor: o momento em que pessoas convencidas de sua própria legitimidade moral começam lentamente a justificar atrocidades em nome de um suposto destino histórico.
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