Kylie Minogue: o documentário que revela a mulher por trás do ícone pop

Vi nascer o fenômeno Kylie Minogue ainda adolescente, sem entender muito bem quem era aquela australiana de voz delicada, que não se encaixava exatamente no perfil das grandes divas vocais da época, mas que, ainda assim, dominava as rádios e as pistas de dança no fim dos anos 1980.

Boa parte daquele sucesso inicial vinha da máquina pop formada por Mike Stock, Matt Aitken e Pete Waterman, o trio responsável por transformar artistas em fenômenos globais e que já havia feito o mesmo com nomes como Rick Astley. Na Austrália e no Reino Unido, Kylie já era uma celebridade graças ao sucesso da novela Neighbours. Para boa parte do resto do mundo, porém, ela era apenas uma jovem cantora que surgia com uma sequência impressionante de hits.

Ao longo dos anos, acompanhei sua transformação de garota inocente da porta ao lado para um dos maiores símbolos pop de sua geração. Veio a fase mais sensual, a reinvenção artística, a consagração como ícone LGBTQIA+ e, sobretudo, uma capacidade rara de permanecer relevante enquanto tantas outras estrelas desapareciam pelo caminho.

Curiosamente, apesar de décadas sob os holofotes, sempre tive a sensação de que sabia relativamente pouco sobre sua vida pessoal. Havia os romances mais conhecidos, especialmente o relacionamento com Michael Hutchence, do INXS, e, anos depois, sua história com Olivier Martinez. Fora isso, Kylie parecia pertencer a uma categoria cada vez mais rara de celebridades: alguém que conseguia preservar parte de sua intimidade mesmo sendo mundialmente famosa.

Talvez por isso o documentário da Netflix tenha despertado minha curiosidade.

Mais do que uma retrospectiva de carreira, KYLIE funciona como uma tentativa da própria artista de assumir o controle de sua narrativa após quase quatro décadas sendo observada, julgada, reinventada e frequentemente subestimada. O filme chega em um momento particularmente interessante. Depois do fenômeno de Padam Padam, da conquista do Grammy e da bem-sucedida residência em Las Vegas, Kylie não precisava provar mais nada para ninguém. Ela já havia vencido a batalha pela relevância.

E talvez seja justamente por isso que o documentário seja tão aberto.

A maior revelação é também a mais surpreendente. Kylie conta que enfrentou um segundo câncer de mama em 2021, algo que nunca havia revelado publicamente. Mesmo para quem acompanhou de perto sua trajetória desde o diagnóstico de 2005, o relato causa impacto porque expõe o quanto ela continuou trabalhando enquanto atravessava mais uma batalha silenciosa.

O documentário também aborda um tema que ela raramente discutiu com profundidade: o impacto do câncer em seus planos de maternidade. Kylie fala sobre fertilização, sobre as possibilidades interrompidas pelo tratamento e sobre o luto de uma vida que imaginou para si mesma e que nunca aconteceu.

Há ainda momentos especialmente emocionantes quando ela relembra Michael Hutchence. A impressão que fica é que o vocalista do INXS ocupou um lugar único em sua vida. Não apenas como namorado, mas como alguém que ajudou a moldar sua visão de si mesma durante um período decisivo de sua carreira.

Mas o aspecto mais interessante do documentário talvez não esteja nas revelações.

O que mais me chamou a atenção foi entender melhor a relação entre Kylie e seus fãs. Sempre achei impressionante a devoção que ela desperta. Uma devoção que atravessa gerações, países e transformações culturais. O filme ajuda a explicar por quê. Enquanto muitas estrelas construíram suas carreiras em torno do excesso, do escândalo ou da autodestruição, Kylie construiu a sua em torno da resistência.

Ela sobreviveu às mudanças da indústria musical, às críticas constantes sobre sua voz, à misoginia da imprensa britânica, ao câncer, ao etarismo que atinge tantas artistas mulheres e às inúmeras previsões de que seu sucesso seria passageiro.

A crítica recebeu o documentário de forma bastante positiva justamente porque ele não tenta transformar Kylie em uma figura trágica. Pelo contrário. Ela continua aparecendo como alguém calorosa, divertida e otimista. O filme está menos interessado em desmontar o mito do que em mostrar o custo humano de sustentar aquela imagem durante tanto tempo.

Ao final, saí com a sensação de que conhecia muito mais sobre Kylie Minogue do que antes. Não necessariamente sobre seus romances ou segredos, mas sobre a força silenciosa que permitiu que ela atravessasse quarenta anos de cultura pop sem perder aquilo que sempre a tornou diferente.

Durante décadas, Kylie foi apresentada como uma sobrevivente do pop. O documentário sugere algo mais interessante. Ela não sobreviveu apesar das mudanças. Ela sobreviveu porque nunca deixou de mudar.


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