Codependência: estamos transformando um sintoma em um ideal romântico?

Como publicado em CLAUDIA

Durante décadas, a ideia de um casal que faz tudo junto seria recebida com desconfiança. Trabalhar juntos, passar quase todo o tempo livre juntos, criar os filhos juntos, compartilhar os mesmos círculos sociais e até dividir o mesmo terapeuta provavelmente apareceriam em algum manual de psicologia como um possível sinal de alerta. Hoje, porém, a reação parece ser outra. Em uma época marcada pela solidão, pelos aplicativos de relacionamento e pela dificuldade crescente de construir vínculos duradouros, histórias de casais inseparáveis frequentemente despertam admiração.

Foi exatamente essa discussão que voltou à tona após uma entrevista de Mark Duplass e Katie Aselton ao projeto Modern Love, do The New York Times. Casados há quase vinte anos, os dois descrevem uma vida profundamente entrelaçada. Fazem filmes juntos, criam os filhos juntos, passam a maior parte do tempo possível juntos e admitem que existe entre eles uma espécie de fusão que muitos terapeutas talvez classificassem como codependência.

A escolha de Modern Love como palco para essa conversa não é irrelevante. Criada em 2004 pelo The New York Times, a coluna se tornou um fenômeno ao publicar relatos reais sobre amor, casamento, divórcio, amizade, luto e todas as formas possíveis de conexão humana. O sucesso foi tão grande que o projeto gerou livros, um podcast e uma série da Amazon Prime Video.

A primeira temporada, lançada em 2019 e abraçada por muitos espectadores durante a pandemia, transformou histórias reais em episódios estrelados por nomes como Anne Hathaway, Dev Patel, Tina Fey e Andrew Scott. A segunda temporada teve recepção mais discreta, mas manteve a proposta original da coluna: explorar as ambiguidades dos relacionamentos humanos sem oferecer respostas fáceis. Talvez por isso a história de Duplass e Aselton tenha encontrado espaço justamente ali. Modern Love nunca se interessou por romances perfeitos. Seu foco sempre esteve nas contradições do amor real.

Sobre seu relacionamento com Duplass, em tom de brincadeira, Katie chegou a dizer que o casal está em uma campanha para reabilitar a imagem da codependência, da mesma forma que a couve kale passou de vegetal ignorado a símbolo de alimentação saudável.

A observação é engraçada, mas toca em uma questão muito séria. Afinal, quando a proximidade emocional deixa de ser intimidade e passa a ser dependência? Existe uma linha clara entre as duas coisas? Ou será que estamos diante de um conceito que diz mais sobre os medos de cada época do que sobre os relacionamentos em si?

O próprio termo “codependência” não nasceu para descrever casais apaixonados. Sua origem está nos estudos sobre alcoolismo e dependência química realizados a partir da década de 1970. Psicólogos observaram que familiares de pessoas dependentes frequentemente passavam a organizar suas próprias vidas em torno do comportamento destrutivo do outro. O sofrimento deixava de ser apenas do dependente químico e contaminava toda a dinâmica familiar. A esposa que escondia as garrafas, o marido que inventava desculpas para as faltas ao trabalho da companheira, os pais que viviam exclusivamente para administrar as crises do filho. Aos poucos, a identidade dessas pessoas passava a existir apenas em função do problema alheio.

Com o passar dos anos, entretanto, o conceito se expandiu tanto que acabou se tornando uma espécie de guarda-chuva para quase qualquer forma intensa de apego emocional. O resultado foi uma banalização curiosa. Hoje, não é raro que relacionamentos perfeitamente funcionais sejam descritos como codependentes simplesmente porque envolvem muita proximidade ou necessidade mútua.

É justamente nesse ponto que a psicanálise oferece uma perspectiva interessante.

Freud provavelmente estranharia a obsessão contemporânea pela independência emocional. Para ele, a dependência não é um acidente da vida adulta, mas a condição original da existência humana. Nascemos completamente dependentes de outra pessoa para sobreviver e passamos o resto da vida tentando reencontrar, de formas diferentes, aquela sensação primitiva de segurança. Em outras palavras, amar sempre envolve algum grau de dependência. A fantasia moderna de que indivíduos emocionalmente saudáveis não precisam de ninguém talvez fosse vista por Freud como uma ilusão tão problemática quanto a dependência excessiva.

Donald Winnicott avançaria ainda mais nessa discussão. Poucos autores compreenderam tão profundamente a importância dos vínculos. É dele a ideia de que não existe bebê sem mãe, não porque a mãe seja biologicamente indispensável em todos os momentos, mas porque a identidade humana nasce dentro de uma relação. Para Winnicott, a maturidade não significa independência absoluta. Significa alcançar aquilo que ele chamou de “capacidade de estar só”. E aqui existe um paradoxo fascinante: apenas pessoas que experimentaram relações suficientemente seguras conseguem realmente ficar sozinhas sem entrar em colapso emocional. A autonomia saudável não nasce da ausência de vínculos, mas da presença deles.

Já Lacan provavelmente olharia para a discussão por um ângulo menos confortável. Em sua leitura, todos nós carregamos uma falta fundamental. Existe algo que jamais conseguimos preencher completamente e que nos leva a procurar no outro uma sensação de completude. O amor seria justamente essa tentativa permanente de encontrar fora de nós aquilo que sentimos faltar dentro de nós. O problema é que nenhum ser humano consegue cumprir essa promessa. Quando acreditamos que alguém pode nos completar integralmente, estamos construindo uma fantasia destinada à frustração. Sob essa perspectiva, muitos relacionamentos chamados de codependentes não seriam apenas relações excessivamente próximas, mas tentativas desesperadas de eliminar uma falta que faz parte da própria condição humana.

Talvez seja por isso que a cultura contemporânea viva uma relação tão contraditória com o tema. Nunca se falou tanto sobre independência emocional. Nunca se valorizou tanto a ideia de autonomia. Nunca houve tantas mensagens incentivando as pessoas a se colocarem em primeiro lugar, estabelecerem limites, preservarem espaço individual e evitarem qualquer forma de dependência afetiva. Ao mesmo tempo, nunca houve tantos relatos de solidão, isolamento e dificuldade para construir conexões duradouras.

A impressão é que passamos boa parte do século 20 tentando escapar da prisão dos relacionamentos sufocantes e chegamos ao século 21 assombrados pela possibilidade oposta: a de não precisarmos mais de ninguém.

Talvez seja por isso que a cultura contemporânea viva uma relação tão contraditória com o tema. Nunca se falou tanto sobre independência emocional. Nunca se valorizou tanto a ideia de autonomia. Nunca houve tantas mensagens incentivando as pessoas a se colocarem em primeiro lugar, estabelecerem limites, preservarem espaço individual e evitarem qualquer forma de dependência afetiva. Ao mesmo tempo, nunca houve tantos relatos de solidão, isolamento e dificuldade para construir conexões duradouras.

A impressão é que passamos boa parte do século 20 tentando escapar da prisão dos relacionamentos sufocantes e chegamos ao século 21 assombrados pela possibilidade oposta: a de não precisarmos mais de ninguém.

Talvez por isso a cultura pop esteja tão fascinada por histórias que ocupam esse território ambíguo entre amor e dependência. Algumas delas retratam formas bastante claras de codependência. Outras são mais interessantes justamente porque desafiam qualquer diagnóstico simples.

Em Big Little Lies, por exemplo, a relação entre Celeste e Perry mostra como dependência emocional, violência e trauma podem se tornar inseparáveis. O vínculo não sobrevive apesar dos abusos, mas em parte por causa da dinâmica psicológica criada por eles, algo frequentemente observado em relações marcadas por ciclos de controle e reconciliação.

Já em Maid, Alex passa boa parte da narrativa tentando compreender por que é tão difícil romper definitivamente com Sean, mesmo quando a relação se mostra destrutiva. A série oferece um retrato particularmente sensível de como dependência financeira, afetiva e familiar costumam caminhar juntas.

Normal People, por sua vez, habita uma zona muito mais cinzenta. Marianne e Connell não são exatamente codependentes, mas vivem uma história marcada por inseguranças, desencontros e pela sensação recorrente de que cada um encontra no outro algo que não consegue encontrar em nenhum outro lugar. O resultado é um dos retratos mais honestos da dificuldade de separar amor, necessidade emocional e construção da própria identidade.

Talvez o exemplo mais sofisticado de todos seja Cenas de um Casamento, obra criada por Ingmar Bergman em 1973 e revisitada décadas depois pela HBO em uma elogiada adaptação estrelada por Jessica Chastain e Oscar Isaac. Marianne e Johan, na versão original, ou Mira e Jonathan, na releitura contemporânea, não permanecem ligados porque não conseguem seguir em frente. Na verdade, seguem. Casam-se novamente, constroem outras vidas e tentam se reinventar. Ainda assim, continuam emocionalmente conectados por algo que nem eles compreendem inteiramente. Bergman estava menos interessado em diagnosticar uma relação do que em investigar uma questão mais desconfortável: por que algumas pessoas continuam moldando quem somos muito tempo depois de terem deixado de fazer parte do nosso cotidiano? O que torna tanto a minissérie original quanto a adaptação recente tão poderosas é justamente a recusa em reduzir essa ligação a uma explicação única.

E, se olharmos com cuidado, até mesmo Succession pode ser lida sob essa perspectiva de codependência. Embora a trama gire em torno de dinheiro, poder e disputas corporativas, o verdadeiro motor da narrativa é a incapacidade dos filhos de Logan Roy de abandonar a busca por uma aprovação paterna que nunca chega completamente. Em muitos aspectos, trata-se de uma das representações mais contundentes de dependência emocional já produzidas para a televisão.

O que todas essas histórias têm em comum é a recusa em oferecer respostas simples. Nenhuma sugere que a independência absoluta seja possível ou desejável. Nenhuma afirma que a fusão emocional seja necessariamente saudável. O que elas mostram é algo muito mais próximo da experiência humana: passamos a vida negociando a distância entre autonomia e pertencimento, entre a necessidade de sermos indivíduos e o desejo igualmente profundo de sermos importantes para alguém.

Talvez seja justamente aí que a provocação de Mark Duplass e Katie Aselton se torne interessante. Não porque eles tenham descoberto que a codependência é saudável, mas porque obrigam a repensar uma pergunta que muitas vezes passa despercebida. Quando descrevemos um relacionamento como codependente, estamos identificando um problema real ou apenas demonstrando desconforto diante da intensidade de um vínculo?

A resposta provavelmente varia de caso para caso. Há relações que sufocam, controlam e anulam. Há outras que simplesmente desafiam a crença moderna de que a felicidade depende de uma independência quase absoluta. Entre esses dois extremos existe um território muito maior, mais complexo e mais humano do que os discursos das redes sociais costumam admitir.

Porque talvez a verdadeira questão nunca tenha sido o quanto precisamos uns dos outros. A questão é se continuamos sendo capazes de existir como indivíduos enquanto escolhemos compartilhar a vida com alguém. Afinal, amar sempre significará depender um pouco. O desafio está em descobrir quanto dessa dependência fortalece o vínculo e quanto dela começa a apagar quem somos.


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