Posture Parenting: quando os filhos se tornam parte da identidade pública dos pais

Nas últimas semanas, um termo relativamente novo começou a aparecer com frequência em debates sobre celebridades, influenciadores e redes sociais: posture parenting. A expressão costuma ser usada para descrever pais que parecem mais preocupados em demonstrar publicamente determinados valores sobre criação dos filhos do que propriamente em atender às necessidades das crianças. Como acontece com muitos conceitos populares da internet, o termo pode ser injusto, simplista ou utilizado como forma de ataque. Ainda assim, ele aponta para uma transformação cultural que merece atenção.

A parentalidade sempre foi observada pela sociedade. Durante séculos, pais foram julgados por familiares, vizinhos, professores e comunidades religiosas. O que mudou não foi a existência do julgamento, mas sua escala. As redes sociais transformaram a criação dos filhos em uma atividade potencialmente pública, permanente e passível de avaliação por milhares ou milhões de pessoas ao mesmo tempo. Cada decisão pode ser fotografada, filmada, compartilhada e debatida. Cada escolha pode se transformar em uma declaração de valores.

É justamente nesse ponto que a psicanálise oferece uma leitura interessante do fenômeno.

Freud observou, ainda em 1914, que os filhos ocupam um lugar privilegiado no narcisismo dos pais. Em Introdução ao Narcisismo, descreveu a criança como “Sua Majestade o Bebê”, objeto de investimentos afetivos, sonhos, expectativas e idealizações. Os pais frequentemente enxergam nos filhos a possibilidade de realizar desejos que a própria vida deixou incompletos. Trata-se de um mecanismo humano e universal. O problema não está em sua existência, mas nos excessos que pode produzir.

As redes sociais introduziram um elemento novo nessa dinâmica. O filho não é apenas alguém amado, protegido ou idealizado. Ele pode também se tornar uma extensão da identidade pública dos pais. Sua alimentação, sua escola, sua rotina, suas roupas, seus hábitos e até suas opiniões passam a funcionar como sinais visíveis daquilo que os pais desejam comunicar sobre si mesmos.

Nesse sentido, o debate sobre “posture parenting” não é apenas um debate sobre crianças. É um debate sobre adultos.

Lacan talvez ajudasse a compreender por quê. Para ele, o sujeito é profundamente constituído pelo olhar do Outro. Construímos nossa identidade não apenas a partir do que somos, mas também da forma como imaginamos ser vistos. As redes sociais potencializaram esse mecanismo em uma escala inédita. O olhar do Outro deixou de ser representado apenas pela família ou pelos círculos sociais próximos. Hoje ele pode assumir a forma de seguidores, curtidas, compartilhamentos e comentários.

Quando isso acontece, a pergunta “o que meu filho precisa?” pode começar a dividir espaço com outra questão menos explícita: “o que esta escolha diz sobre mim?”.

É nesse ponto que surge a acusação de posture parenting. O problema não seria educar uma criança segundo determinados valores. O problema surgiria quando a demonstração pública desses valores passasse a ocupar um lugar tão importante quanto a própria experiência da criança.

Essa lógica pode ser observada em diferentes grupos e ideologias. Alguns pais transformam a alimentação dos filhos em demonstração de consciência ambiental. Outros fazem da educação uma vitrine de superioridade intelectual. Há quem apresente a maternidade como símbolo de perfeição emocional e quem transforme a parentalidade em evidência de ativismo político ou moral. Apesar das diferenças, existe um elemento comum: a criança deixa de ocupar apenas o lugar de sujeito e passa a participar da construção da identidade pública dos pais.

A consequência mais preocupante talvez não seja a exposição em si, mas aquilo que ela representa. Toda criança precisa, em algum momento, escapar das expectativas depositadas sobre ela. Precisa construir uma identidade própria, distinta dos sonhos, valores e desejos de seus pais. Quando a criança se torna parte fundamental de uma narrativa pública, esse processo pode se tornar mais difícil.

Winnicott ofereceria aqui um contraponto importante. Sua ideia da “mãe suficientemente boa” surgiu justamente como crítica à fantasia da perfeição. O desenvolvimento saudável não depende de pais perfeitos, conscientes o tempo todo ou capazes de tomar sempre as melhores decisões. Depende de adultos suficientemente disponíveis para reconhecer limites, suportar falhas e permitir que a criança exista como alguém diferente deles.

Talvez seja justamente isso que o debate sobre “posture parenting” esteja tentando expressar, ainda que de forma muitas vezes confusa. A questão central não é se determinados pais são melhores ou piores. A questão é o que acontece quando a criação dos filhos deixa de ser apenas uma relação entre pais e crianças e passa a incluir uma audiência permanente.

A psicanálise dificilmente condenaria a exposição pública dos filhos de forma absoluta. Mas provavelmente faria uma pergunta simples e incômoda: quando falamos sobre nossas crianças, estamos tentando compreender quem elas são ou estamos tentando mostrar aos outros quem nós gostaríamos de ser?

Essa talvez seja a pergunta mais importante escondida por trás de um termo que, à primeira vista, parece apenas mais uma moda passageira da internet. Na realidade, ele revela algo muito mais profundo sobre a forma como construímos nossa identidade em uma época em que quase tudo, inclusive a parentalidade, pode se transformar em performance.


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