Quinze anos depois da estreia de Game of Thrones, a HBO parece estar diante de um desafio peculiar. A série continua sendo um dos maiores fenômenos da história da televisão, mas também carrega o peso de uma conclusão que permanece controversa para uma parcela significativa do público. Poucas produções alcançaram um impacto cultural semelhante. Menos ainda terminaram sob um debate tão intenso sobre seu legado.
Por isso, é difícil não observar com atenção o momento escolhido para uma série de entrevistas nostálgicas com alguns dos rostos mais importantes da franquia. Primeiro Emilia Clarke. Depois Kit Harington e Peter Dinklage. Em vez de focar em novos projetos, as conversas retornam repetidamente aos anos passados em Westeros, ao fenômeno que viveram e ao impacto que a série teve em suas vidas. As matérias não tentam esconder a controvérsia do final, mas também não a colocam no centro da narrativa. O foco está na experiência, no legado e na dimensão histórica de Game of Thrones.


O que torna tudo isso particularmente interessante é o contexto. Essas entrevistas não estão sendo publicadas em um período de calmaria para a franquia. Elas surgem justamente quando a HBO inicia a divulgação da terceira temporada de House of the Dragon. Enquanto Emma D’Arcy, Olivia Cooke, Matt Smith e o restante do elenco promovem os novos episódios, a conversa pública também é ocupada por Jon Snow, Daenerys Targaryen e Tyrion Lannister.
Talvez seja coincidência, mas talvez não seja. A impressão que fica é que a HBO está conduzindo duas campanhas simultâneas. Uma delas vende o futuro de Westeros. A outra vende sua memória, e existe uma razão compreensível para isso.
Ao longo dos últimos anos, House of the Dragon provou ser um sucesso. A audiência é forte. A repercussão continua relevante. A série conquistou elogios e consolidou sua posição como uma das produções mais importantes da televisão atual, mas ela nunca alcançou exatamente aquilo que muitos imaginavam quando foi anunciada. Ela nunca se tornou o novo Game of Thrones.
Isso não significa fracasso. Significa apenas que o fenômeno original era provavelmente irrepetível.
Nenhum personagem de House of the Dragon ultrapassou a cultura popular da forma que Tyrion, Daenerys, Arya ou Jon Snow fizeram. Nenhum integrante do elenco se transformou em símbolo global da franquia como aconteceu com Emilia Clarke, Kit Harington ou Peter Dinklage. A série conquistou respeito, mas jamais escapou completamente da sombra de sua antecessora.


Talvez por isso seja tão revelador observar a forma como a HBO parece estar reposicionando a conversa sobre Westeros. Durante anos, o debate foi dominado pela oitava temporada. A questão era sempre a mesma: como uma das maiores séries já produzidas terminou de forma tão divisiva? Agora, porém, o foco parece ter mudado. Em vez de discutir constantemente os últimos episódios, a narrativa volta a destacar aquilo que tornou Game of Thrones um marco geracional.
A entrevista de Emilia Clarke é um bom exemplo disso. A atriz reconhece que ficou furiosa com o destino de Daenerys e relembra a decepção que cercou o encerramento da série. Ainda assim, a conversa termina em um lugar muito diferente: gratidão, amadurecimento e a compreensão do impacto que aquela experiência teve em sua vida.
Já o reencontro entre Kit Harington e Peter Dinklage praticamente transforma Game of Thrones em uma memória afetiva compartilhada. Os dois falam sobre amizade, carreira, sobriedade, filhos, envelhecimento e sobre como cresceram dentro daquele universo. A série deixa de ser apenas um programa de televisão e passa a funcionar como uma espécie de capítulo formador de suas vidas.
A recente entrevista de Ryan Condal acrescenta uma camada ainda mais interessante a essa discussão. Ao falar sobre o futuro, o showrunner confirmou que a quarta temporada encerrará House of the Dragon e sugeriu que sua jornada criativa em Westeros pode estar chegando ao fim. Sua declaração de que acredita já ter dito tudo o que tinha para dizer sobre aquele universo soa quase como o fechamento de um ciclo.



Isso chama atenção porque Condal foi, durante anos, visto como o principal responsável por reconstruir a confiança na marca após o encerramento de Game of Thrones. Era ele quem carregava a missão de provar que Westeros ainda podia produzir televisão de prestígio. Agora, ao mesmo tempo em que promove a reta final de sua série, já fala sobre o próximo capítulo de sua carreira.
A combinação desses elementos sugere algo maior do que a divulgação de uma temporada.
Talvez a HBO tenha compreendido que o futuro da franquia não depende de encontrar um novo Jon Snow ou uma nova Daenerys. Talvez dependa de algo mais amplo: transformar Westeros em uma marca capaz de sobreviver a qualquer série específica.
Nesse sentido, a estratégia faz sentido. Não é uma campanha para convencer o público de que o final de Game of Thrones foi brilhante. Essa batalha provavelmente já acabou. Também não parece ser uma tentativa de apagar a rejeição que cercou 2019.
O que parece estar acontecendo é uma tentativa de separar duas discussões que durante anos foram tratadas como a mesma coisa. Uma coisa é a avaliação da oitava temporada, a outra é o legado de Game of Thrones. E a HBO talvez tenha percebido que não precisa vencer a primeira discussão para vencer a segunda.
Existe, porém, uma ironia inevitável em tudo isso. Cada vez que a empresa coloca Emilia Clarke, Kit Harington ou Peter Dinklage novamente no centro da conversa, ela fortalece a nostalgia em torno da franquia. Mas também relembra ao público o tamanho da sombra que continua pairando sobre House of the Dragon. Quanto mais a HBO celebra seus personagens mais icônicos, mais evidente se torna o fato de que nenhuma de suas produções posteriores conseguiu gerar o mesmo nível de paixão popular.


Talvez seja justamente por isso que A Knight of the Seven Kingdoms tenha despertado tanta curiosidade desde o início. Diferentemente de House of the Dragon, ela não parece interessada em competir com Game of Thrones. Sua proposta é menor, mais íntima e menos dependente da comparação constante com o fenômeno original.
No fim, a sensação é que a batalha da HBO mudou de natureza. Há alguns anos, a missão parecia ser convencer o público a esquecer o final de Game of Thrones. Hoje, a missão parece ser muito mais ambiciosa: convencer o público a lembrar de tudo o que veio antes dele.
E, olhando para a força que Jon Snow, Daenerys Targaryen e Tyrion Lannister ainda exercem sobre a imaginação coletiva quinze anos depois, talvez essa seja uma batalha que a HBO tenha muito mais chances de vencer.
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