E se o problema não for a falta de felicidade?

Se há uma pergunta ainda mais complexa do que a origem do ovo ou da galinha, é a nossa tentativa de entender o que é felicidade. E os meus estudos de psicanálise têm se voltado bastante para esse tema, tornando-me mais atenta à questão nos filmes, textos, posts, músicas e até nos bate-papos com amigos e familiares.

Durante séculos, filósofos, escritores e artistas tentaram encontrar uma definição para algo extremamente subjetivo, embora universal e atemporal. A busca pela plenitude faz parte da experiência humana, seja ela terrena ou espiritual. Tanto que Aristóteles acreditava que a felicidade era o objetivo da vida humana, o que parece fazer bastante sentido.

Freud pertence a uma corrente muito menos otimista. Em O Mal-Estar na Civilização (1930), escreveu que aquilo que chamamos de felicidade só pode existir como um fenômeno episódico. A satisfação surge, dura pouco e logo dá lugar a novos desejos. Em outras palavras, o problema não é que nunca sejamos felizes, mas que a nossa insatisfação permanente contribui para que não consigamos permanecer nesse estado por muito tempo.

Mas, quanto mais penso sobre o assunto, mais a dúvida se desloca. Essa é realmente a questão central?

Porque talvez o problema não seja a brevidade da felicidade, algo com que a maioria das pessoas concordaria. Possivelmente, Thornton Wilder tenha sido cirúrgico ao questionar na peça Our Town se, além disso — e até por causa disso —, o obstáculo não estaria na nossa incapacidade de reconhecer a felicidade enquanto a estamos vivendo. Só a identificamos e valorizamos quando a perdemos.

Ele destaca isso através da personagem Emily Webb, que recebe a oportunidade de revisitar um dia comum de sua vida depois da morte. Ela não escolhe um aniversário extraordinário nem um acontecimento histórico, apenas um café da manhã qualquer. E é justamente nesse momento aparentemente banal e rápido, que ela não consegue aproveitar como queria, que Emily percebe algo devastador: ali estava tudo o que sempre buscou, mas não percebeu a tempo. “Será que algum ser humano percebe a vida enquanto a vive, cada minuto?”, ela pergunta. A resposta é uma das mais dolorosas da literatura americana: “Não. Talvez os santos e os poetas. Um pouco.”

A emoção de Emily Webb encontra eco em uma canção de 2009 da cantora Dido, The Day Before the Day, na qual lamenta a oportunidade perdida de se despedir de alguém que não voltaria a ver justamente por causa das urgências cotidianas. “Eu não pude dizer adeus, no dia antes do dia“, ela canta. “Estava tentando chegar ao trabalho a tempo; é por isso que fui embora e perdi a coisa mais importante que você jamais tentou dizer. Eu vivi minha vida sem arrependimentos… Até hoje.”

Outra obra marcante que explora essa questão é o livro As Horas, de Michael Cunningham, publicado em 1998 e adaptado para o cinema em 2002. Em determinado momento, Clarissa percebe que passou anos acreditando que a felicidade era algo que ainda estava por vir, mas já era, na verdade, a própria felicidade. “Lembro de uma manhã em que acordei ao amanhecer. Havia uma sensação tão grande de possibilidade”, ela diz. “Você conhece essa sensação? E me lembro de pensar: então é assim que a felicidade começa. É aqui que ela começa. E, claro, haveria sempre mais. Nunca me ocorreu que aquilo não era o começo. Aquilo era a felicidade. Era o momento. Ali mesmo”, lamenta emocionada.

Falando em cinema, o clássico A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra, que completa 80 anos em 2026, gira em torno de George Bailey, convencido de que a felicidade está na vida que não teve: nas viagens que não fez, nas oportunidades perdidas e nos sonhos abandonados. Apenas quando imagina um mundo sem sua existência, percebe que aquilo que considerava comum era justamente o que dava sentido à sua vida.

O curioso é que nenhuma dessas obras fala de riqueza, sucesso ou fama. Pelo contrário. Todas sugerem que a felicidade raramente está onde imaginamos encontrá-la. Citizen Kane também passa a vida acumulando poder para descobrir, no fim, que sua memória mais importante não envolve dinheiro nem influência, mas um trenó chamado Rosebud e um momento de infância que jamais conseguiu recuperar.

A tendência é olhar para esses exemplos e concluir rapidamente que a mensagem é apenas que a felicidade não deve ser medida por bens materiais. Mas a questão parece mais profunda do que isso. Se, parafraseando Wilder, a dificuldade não for entender o que é felicidade, mas sim reconhecê-la enquanto a vivemos?

O problema é que nem mesmo elucidamos o problema e já acrescentamos novos elementos. Durante grande parte da nossa existência, a felicidade foi tratada como um ideal desejável. Hoje, ela passou a funcionar também como uma obrigação. Não basta viver momentos felizes; é preciso demonstrá-los. Não basta estar satisfeito; é preciso parecer satisfeito. Não basta construir uma vida significativa; é preciso que ela seja validada por meio de curtidas, comentários, engajamento e aprovação social.

Essa mudança produz uma consequência curiosa. Se antes a infelicidade era entendida como parte inevitável da condição humana, agora ela é associada a um sinal de fracasso pessoal. Em uma cultura que transforma bem-estar em meta permanente, produtividade em virtude e felicidade em marca pessoal, qualquer tristeza, dúvida ou insatisfação tende a ser interpretada como algo que precisa ser corrigido imediatamente.

Talvez seja por isso que expressões como “felicidade tóxica” tenham ganhado tanta força nos últimos anos. Não porque a felicidade seja tóxica em si, mas porque a exigência constante de felicidade se torna sufocante. Lembra que Freud já alertava que a satisfação humana é necessariamente limitada e transitória? Pois ainda assim, a cultura contemporânea parece insistir na promessa oposta: a de que existe uma versão ideal da vida capaz de eliminar definitivamente a falta, a frustração e o sofrimento.

Por isso, se juntarmos Freud, Lacan, Capra, Wilder e tantos outros, as questões talvez já não passem por definir o que é felicidade, compreender que ela é passageira ou mesmo aprender a identificá-la quando acontece. Se a felicidade tem fim, a questão passa a ser outra: como vivê-la plenamente enquanto ela existe.

Talvez seja justamente aí que resida o paradoxo contemporâneo. Durante muito tempo, acreditamos que a felicidade estava sempre em outro lugar: no futuro, no sucesso, na próxima conquista. Hoje, quando finalmente reconhecemos o valor de determinados momentos, muitas vezes tentamos capturá-los, registrá-los ou preservá-los. Mas a felicidade não se deixa congelar. Ela acontece no instante vivido, não na lembrança futura nem no arquivo digital.

Talvez a lição comum entre todos os exemplos que citei seja menos sobre felicidade e mais sobre presença. Porque algumas das experiências mais importantes da vida não pedem para serem guardadas. Pedem apenas para serem vividas.







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