Confesso que, quando a primeira temporada de Sugar revelou aquilo que muitos julgavam ser apenas uma teoria absurda da internet, minha reação foi menos de encantamento e mais de perplexidade. Passei boa parte da reta final tentando entender por que uma elegante homenagem ao cinema noir havia decidido se transformar em algo que ninguém pediu: uma ficção científica sobre alienígenas observando a humanidade.
E não é que, dois anos depois, cá estamos nós? A Apple não apenas renovou a série como parece determinada a transformar John Sugar em uma figura recorrente, quase um Philip Marlowe vindo das estrelas.

Vale lembrar que tudo começou de forma muito mais convencional. O produtor Jonathan Siegel contratava o famoso detetive John Sugar (Colin Farrell) para encontrar sua neta, Olivia, desaparecida sem deixar rastros. Enquanto a família parecia pouco convencida de que havia algo de realmente grave acontecendo, o sensível e excessivamente empático investigador acreditava que existia muito mais por trás do caso.
Ao longo dos episódios, a narrativa mergulhava em conspirações, assassinatos e personagens estranhos, sempre envoltos em referências ao cinema clássico. Só que, aos poucos, pequenas pistas sugeriam que o maior mistério talvez não fosse o desaparecimento de Olivia, mas o próprio John Sugar.
A revelação de que Sugar e seus companheiros eram visitantes de outro mundo transformou a série em algo inesperado. Nascia ali o sci-noir, uma mistura improvável de ficção científica com narrativa policial que poucos imaginavam querer assistir. A partir daquele momento, Olivia praticamente se tornava secundária diante das perguntas realmente intrigantes: quem eram aqueles observadores? Por que estavam na Terra? Quem recebia os relatórios enviados por eles? E o que havia acontecido com Djen, a irmã desaparecida de Sugar?
Quando a primeira temporada terminou, a sensação era de que havia muito mais perguntas do que respostas. Henry, amigo e colega de Sugar, revelou-se responsável pelos crimes envolvendo Olivia e também pelo desaparecimento da irmã do protagonista. Enquanto os demais retornavam para casa, seja lá onde fosse esse lar, Sugar permanecia na Terra para procurar Djen.
Na época, cheguei a me perguntar se a Apple realmente investiria em uma continuação. A resposta é sim.

Mas quem esperava uma sequência direta do caso Siegel talvez se surpreenda. A segunda temporada abandona quase todos os personagens do primeiro ano e apresenta uma investigação inédita. Agora, John Sugar tentará encontrar o irmão desaparecido de um jovem boxeador, em uma trama que promete mergulhar novamente nos cantos mais obscuros de Los Angeles.
O elenco também foi renovado, com nomes como Tony Dalton, Laura Donnelly, Jin Ha, Raymond Lee, Sasha Calle e Shea Whigham se juntando a Colin Farrell.
À primeira vista, parece uma ruptura radical. Mas talvez seja justamente o contrário. A impressão é de que Sugar quer se transformar em algo mais próximo das séries de detetive clássicas, nas quais um mesmo investigador atravessa diferentes mistérios enquanto carrega seus próprios fantasmas.
E esses fantasmas continuam lá. A busca por Djen permanece em aberto, assim como a mitologia envolvendo os observadores extraterrestres. A diferença é que a série parece menos interessada em explicar tudo imediatamente e mais empenhada em consolidar John Sugar como uma figura permanente.
Curiosamente, o tempo acabou tornando a existência dessa segunda temporada uma pequena vitória para o conceito. Porque, por mais estranha que tenha sido aquela revelação em 2024, a verdade é que poucas séries recentes ousaram tanto quanto Sugar.
E, gostando ou não do resultado, talvez seja impossível negar que o sci-noir era um gênero que simplesmente não sabíamos que queríamos.
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