Not Suitable for Work ainda procura uma razão para existir

No papel, Not Suitable for Work tem potencial: tem uma grande dose de Friends, uma boa roteirista e a cidade de Nova York para explorar. Mas confesso que assisti com uma sensação estranha. Não diria que a série é ruim. Há um elenco simpático, algumas boas ideias e momentos agradáveis aqui e ali. Mas, quando os créditos finais chegaram, fiquei com a impressão de ter assistido a um fiapo de história. Poucos personagens realmente me interessaram e, pior, quase não consegui criar empatia por eles. Curiosamente, ao ler a recepção da crítica internacional, descobri que não estava sozinha.

A nova criação de Mindy Kaling chegou cercada de expectativas. Não faltaram comparações com Friends, New Girl e até com Girls, mas o consenso parece ser que a série ainda não encontrou sua própria identidade. Muitos críticos elogiam o potencial do elenco, mas apontam justamente aquilo que mais me incomodou: a falta de profundidade dos personagens e a sensação de que os episódios acontecem sem um conflito forte capaz de sustentar emocionalmente a narrativa.

A Variety foi uma das publicações mais duras, descrevendo a produção como uma tentativa pouco inspirada de reproduzir a fórmula de Friends. Já o RogerEbert.com observou que a série raramente consegue escapar dos clichês e que seus protagonistas parecem mais interessantes no papel do que na tela. A crítica Judy Berman, da Time, foi ainda mais longe ao afirmar que os personagens soam como uma visão antiquada do que pessoas mais velhas imaginam que seja a Geração Z.

E talvez esse seja um dos problemas centrais de Not Suitable for Work. Passamos horas ao lado desses jovens adultos, mas ainda sabemos muito pouco sobre quem eles realmente são. Falta vulnerabilidade, falta complexidade e, acima de tudo, falta aquela conexão que faz o espectador querer voltar para passar mais tempo com eles.

Outro comentário recorrente envolve a dinâmica do grupo. Séries de amizade vivem ou morrem pela química entre seus personagens. Em Friends, Happy Endings ou mesmo New Girl, acreditamos que aquelas pessoas realmente escolheriam conviver umas com as outras. Em Not Suitable for Work, essa sensação ainda não existe completamente. Os protagonistas parecem compartilhar cenas, mas nem sempre parecem compartilhar uma vida.

Curiosamente, vários críticos destacaram justamente os coadjuvantes como os personagens mais interessantes da série. Constance Wu, Victor Garber, Jay Ellis e Michael Benjamin Washington frequentemente roubam a cena, a ponto de alguns textos sugerirem que acompanhar os adultos talvez fosse mais interessante do que seguir os cinco jovens protagonistas.

O humor também apareceu entre as principais críticas. Embora muitos reconheçam uma melhora ao longo da temporada, existe a percepção de que as piadas simplesmente não têm a consistência esperada de uma série desse tipo. O Guardian, por exemplo, observou que os diálogos são surpreendentemente pouco inspirados para uma produção criada por alguém com o histórico de Mindy Kaling.

Nem tudo, porém, é negativo. O elenco jovem recebeu elogios praticamente unânimes. Ella Hunt e Avantika foram apontadas por diversas publicações como os maiores destaques, enquanto Will Angus consegue extrair mais de Davis do que o roteiro inicialmente oferece. A amizade entre os personagens masculinos também foi elogiada por apresentar homens emocionalmente vulneráveis, fugindo dos estereótipos da chamada manosfera.

Nova York é outro elemento frequentemente celebrado. As filmagens em locações reais e o figurino comandado por Eric Daman, conhecido por Gossip Girl, ajudam a construir uma atmosfera que muitos críticos consideraram um dos pontos altos da série.

Os bastidores também revelam algumas curiosidades interessantes. O projeto nasceu com outro nome. Durante seu desenvolvimento, era conhecido como Murray Hill, título que acabou sendo abandonado antes da estreia. Mindy Kaling já explicou que considera a série a terceira parte de uma espécie de trilogia autobiográfica. Se Never Have I Ever refletia sua adolescência e The Sex Lives of College Girls era inspirada em seus anos de faculdade, Not Suitable for Work buscaria revisitar seus vinte e poucos anos em Nova York.

Os atores também contaram que as gravações acabaram criando amizades reais fora das câmeras, algo que eles esperam que se reflita nas próximas temporadas. Houve até uma pequena controvérsia quando uma organização dedicada à conscientização sobre alergias alimentares criticou um episódio envolvendo anafilaxia, alegando que a série mostrava procedimentos médicos incorretos.

No fim das contas, a impressão que fica é que existe um bom elenco preso dentro de uma série que ainda não descobriu exatamente por que existe. Há potencial, sem dúvida. Mas, por enquanto, Not Suitable for Work parece mais interessada em lembrar outras produções do que em construir uma personalidade própria.

E talvez seja justamente por isso que tenho a mesma sensação de tantos críticos: a de que passei várias horas com esses personagens, mas ainda não tenho certeza de quem eles são ou por que eu deveria me importar tanto com eles.


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