Antes dos 145 anos de seu nascimento, em 2026, Anna Pavlova continua ocupando um lugar singular na história das artes. Quase um século após sua morte, em 1931, poucas figuras permanecem tão imediatamente associadas à própria ideia de balé quanto a bailarina russa que transformou A Morte do Cisne em um dos solos mais famosos de todos os tempos. Mas existe outro aspecto fascinante em sua trajetória que raramente recebe a mesma atenção: sua inesperada ligação com o cinema.

A relação entre balé e cinema sempre foi curiosamente complicada. Ao contrário da música popular, do teatro ou da ópera, a dança clássica jamais encontrou nas telas uma extensão natural de sua arte. Hollywood produziu relativamente poucos filmes sobre bailarinos e, mesmo quando o fez, raramente conseguiu reproduzir a experiência de assistir a um espetáculo ao vivo. Talvez porque o balé dependa da presença física, do espaço e daquela sensação irrepetível compartilhada entre artista e público.
É justamente por isso que Anna Pavlova ocupa um lugar tão especial.
As maiores lendas da dança do século 19 pertencem, em grande parte, ao reino da imaginação. De Maria Taglioni, Fanny Elssler e Carlotta Grisi restaram retratos, pinturas e relatos apaixonados de quem teve a sorte de vê-las dançar. Algo semelhante acontece com nomes como Sarah Bernhardt, Eleonora Duse e até Enrico Caruso. Sabemos que foram gigantes em suas respectivas áreas, mas jamais poderemos testemunhar plenamente aquilo que encantou seus contemporâneos.

Pavlova pertence a uma geração de transição. Quando alcançou fama internacional, o cinema ainda engatinhava, mas já era capaz de registrar movimentos. E a bailarina compreendeu muito cedo o potencial das novas tecnologias. Posava para fotógrafos, distribuía cartões-postais, concedia entrevistas e permitia que suas apresentações fossem filmadas. Em certo sentido, comportava-se como uma celebridade moderna décadas antes de Hollywood criar o seu sistema de estrelas.
Em 1916, ela protagonizou The Dumb Girl of Portici, dirigido por Lois Weber, uma das grandes pioneiras do cinema americano. Mais importantes do que o filme em si, porém, foram os registros preservados de suas danças. Graças a eles, Anna Pavlova se tornou uma das primeiras artistas da história a deixar como herança não apenas imagens estáticas, mas o próprio movimento.
Isso significa que, mais de um século depois, ainda podemos observar seus braços delicados, a musicalidade, os port de bras e a interpretação que transformaram A Morte do Cisne em uma obra imortal. São fragmentos imperfeitos, naturalmente limitados pela tecnologia da época, mas suficientes para criar uma ponte extraordinária entre os séculos 19, 20 e 21.
A ironia é que o cinema jamais se apaixonou verdadeiramente pelo balé. Maria Callas, Edith Piaf, Judy Garland e Leonard Bernstein inspiraram filmes e séries. Sarah Bernhardt, outra gigante das artes performáticas, ganhou recentemente uma cinebiografia na França. A mulher que talvez tenha sido a maior estrela da história da dança, no entanto, continua à espera de uma produção capaz de fazer justiça à dimensão de sua lenda.
Talvez porque a própria Pavlova já tenha alcançado algo que poucas artistas conseguiram. Enquanto Taglioni, Grisi e tantas outras sobrevivem apenas em retratos e descrições, Anna Pavlova continua dançando. E talvez não exista forma mais bela de imortalidade para uma bailarina.
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