Música da entrada da Copa: a história de Sirius, de Alan Parsons Project

O narrador do Sportv, Luiz Carlos Jr., sempre é ágil e preciso também quando o assunto é música. Sua trajetória como locutor de rádio antes da TV é revelada justamente por isso: ele sabe dizer que música está tocando, de quem é, ano e sucesso, não importa a década. E, a cada jogo, sempre se empolga quando os acordes de “Sirius”, do Alan Parsons Project, começam a tocar. Fãs de rock progressivo e da NBA também. Mas como esporte e rock acabaram unidos dessa forma?

É porque muito antes de embalar a entrada das seleções na Copa do Mundo de 2026, “Sirius” já era uma das músicas mais reconhecíveis do esporte. O curioso é que ela nunca foi composta com esse objetivo. Na verdade, a faixa nasceu em 1982 apenas como uma introdução para outra canção e acabou ganhando uma vida própria que talvez nem Alan Parsons imaginasse.

O Alan Parsons Project era uma das formações mais peculiares do rock britânico. Criado por Alan Parsons e Eric Woolfson, o grupo funcionava mais como um coletivo de estúdio do que como uma banda tradicional. Parsons já era um nome respeitado muito antes disso. Trabalhara como engenheiro de som em “Abbey Road”, dos Beatles, e em “The Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd, enquanto Woolfson era compositor e pianista. Juntos, transformaram o projeto em uma das grandes referências do rock progressivo e do pop sofisticado dos anos 1970 e 1980.

Foi justamente em “Eye in the Sky”, sexto álbum da dupla, que surgiu “Sirius”. Lançado em 1982, o disco se tornaria um dos maiores sucessos do Alan Parsons Project graças à faixa-título, mas Parsons acreditava que a música precisava de uma abertura dramática. A pequena peça instrumental, com apenas 1 minuto e 48 segundos, foi criada para conduzir naturalmente o ouvinte até “Eye in the Sky”. No álbum original, as duas músicas são praticamente inseparáveis.

O riff que se tornaria mundialmente famoso nasceu de uma combinação inusitada. Parsons utilizou um clavinet, instrumento popularizado por Stevie Wonder em “Superstition”, e recorreu a um Fairlight CMI, um dos primeiros samplers digitais da história, para criar o loop que serviria de base para a composição. O nome “Sirius” foi inspirado na estrela mais brilhante do céu noturno. Segundo o próprio músico, a sonoridade parecia espacial e planetária, o que combinava perfeitamente com a atmosfera do álbum.

Ninguém poderia imaginar que aquela breve introdução acabaria se tornando mais famosa do que a própria música principal.

Tudo mudou em Chicago. Nos anos 1980, as apresentações dos jogadores da NBA ainda eram quase protocolares. Muitas equipes dependiam do organista do ginásio e os anúncios aconteciam sem grande espetáculo. Os Bulls decidiram fazer diferente. Tommy Edwards, locutor do time e radialista da WLS, começou a transformar a entrada dos jogadores em um evento à parte. As luzes eram apagadas, efeitos sonoros eram adicionados e Michael Jordan sempre era anunciado por último.

No início, a trilha utilizada era “Thriller”, de Michael Jackson. Mas Edwards ouviu “Sirius” tocando como música ambiente em um cinema e percebeu imediatamente que a construção lenta e crescente da faixa seria perfeita para criar expectativa. A aposta deu certo. Quando a guitarra entrava, chegava o momento da apresentação de Jordan. Acostumado aos tempos exatos das músicas por causa do trabalho em rádio, Edwards sabia exatamente quando fazer cada anúncio.

A partir dali, “Sirius” se tornou parte inseparável da identidade dos Bulls. Quando Tommy Edwards deixou a equipe, em 1990, Ray Clay manteve a tradição e aperfeiçoou a apresentação que se tornaria lendária durante a dinastia de Michael Jordan, Scottie Pippen e companhia. Os Bulls conquistariam seis títulos da NBA na década de 1990 e ajudariam a transformar aquela música instrumental em um dos maiores hinos esportivos do planeta.

Talvez a anedota mais curiosa de toda a história seja a reação do próprio Alan Parsons. Quando um amigo americano lhe contou que sua composição estava sendo usada para apresentar Michael Jordan, a resposta foi simples e reveladora: “Quem é Michael Jordan?”. O músico britânico nunca foi fã de basquete e sequer imaginava a dimensão que a associação entre a música e os Bulls havia alcançado.

Com o passar dos anos, outras equipes adotaram “Sirius”. A música passou a ser utilizada em eventos esportivos, lutas e apresentações pelo mundo, tornando-se uma das trilhas mais reconhecíveis das arenas. Mais de quatro décadas depois de sua criação, ela encontrou um novo palco.

A Copa do Mundo de 2026 incorporou “Sirius” ao protocolo de entrada das seleções, substituindo as trilhas tradicionais que durante décadas acompanharam os jogadores antes dos hinos nacionais. Embora a FIFA não tenha explicado oficialmente a escolha, a decisão parece refletir a influência dos Estados Unidos como uma das sedes do torneio e a crescente aproximação do futebol com o modelo de espetáculo das grandes ligas americanas.

Assim, uma peça de menos de dois minutos criada para ser apenas uma introdução acabou atravessando gerações, tornou-se parte da imagem da maior dinastia da história da NBA e hoje acompanha a entrada das maiores estrelas do futebol mundial.

Poucas músicas percorreram um caminho tão improvável. Do rock progressivo britânico ao auge de Michael Jordan e, agora, ao maior evento do futebol, “Sirius” prova que algumas composições parecem destinadas a transcender o contexto em que foram criadas. E, às vezes, aquilo que começa como uma simples abertura acaba se transformando no próprio espetáculo.


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