Por que algumas tragédias nos fascinam tanto? A visão da psicanálise

Nas últimas semanas, tragédias muito diferentes provocaram ondas semelhantes de choque e comoção. No Brasil, a morte brutal da menina jogada de uma ponte mobilizou milhões de pessoas em busca de respostas para um crime tão violento quanto difícil de compreender. Também no Brasil, a poucos quilômetros de onde estou, a colisão entre dois helicópteros que matou o cantor americano Oliver Tree provocou uma reação parecida de incredulidade. Nas Maldivas, a morte de cinco mergulhadores italianos durante uma expedição em cavernas subaquáticas no Atol de Vaavu também despertou enorme atenção internacional. E, nos últimos anos, histórias como a da estudante que caiu em um vulcão durante uma trilha, a dos milionários desaparecidos no submarino Titan e a dos alpinistas presos no Everest acabaram produzindo algo em comum. Milhões de pessoas acompanharam as atualizações, buscaram explicações, discutiram hipóteses e tentaram compreender como histórias tão assustadoras puderam acontecer.

Embora separados por circunstâncias completamente distintas, todos esses casos compartilharam algo em comum: a sensação coletiva de que aquilo simplesmente não deveria ter acontecido.

Se não vimos os momentos finais dos mergulhadores italianos — cujas câmeras foram recuperadas, mas nunca divulgadas — a morte de Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, a estudante de Educação Física de 21 anos que participava de uma atividade de rope jump em Limeira, foi registrada por testemunhas e compartilhada em inúmeros perfis e plataformas. Em uma época em que praticamente todos carregamos câmeras nos bolsos, o horror deixou de ser apenas uma notícia para se transformar em uma experiência compartilhada em tempo real. Pessoas presentes registram, outras reproduzem, comentaristas analisam e milhões acompanham simultaneamente. Todos se tornam, de alguma maneira, repórteres, detetives e comentaristas.

Diante disso, uma pergunta inevitável surge. Por que continuamos acompanhando? Por que lemos cada atualização, procuramos novos detalhes e discutimos hipóteses, mesmo quando as histórias são dolorosas e, muitas vezes, insuportáveis?

A resposta mais simples seria atribuir esse interesse à morbidez. Mas a psicanálise talvez fizesse uma pergunta diferente. E se aquilo que chamamos de curiosidade mórbida for, na verdade, uma forma de identificação?

À primeira vista, a ideia parece absurda. Afinal, ninguém deseja ser vítima de um acidente ou de uma tragédia. Mas talvez não seja a morte em si que reconhecemos nessas histórias. Talvez seja o desejo que veio antes dela.

Os mergulhadores italianos não partiram em busca da morte. Procuravam beleza, aventura e descoberta. Os passageiros do Titan não queriam desaparecer no fundo do oceano. Queriam testemunhar os destroços mais famosos da história. A brasileira que caiu em um vulcão não buscava o fim da vida, mas a experiência de uma paisagem extraordinária. Maria Eduarda Rodrigues de Freitas queria viver um momento de adrenalina. Até mesmo os alpinistas que desafiam o Everest ou os astronautas que se aventuram no espaço são movidos por algo que nos é profundamente familiar: o desejo de ir mais longe.

Talvez seja justamente isso que nos fascina. Não a morte, mas a vida levada até seus limites.

Freud acreditava que os seres humanos não são movidos apenas pela busca do prazer e da segurança. Existe em nós uma relação paradoxal com o risco e os limites. Não porque desejemos morrer, mas porque existe algo profundamente humano na vontade de explorar, descobrir, desafiar e ultrapassar fronteiras.

Lacan diria que o desejo humano nunca se satisfaz completamente. Sempre existe algo além. Uma montanha mais alta, uma viagem mais distante, uma experiência mais intensa, um mistério ainda não desvendado. Talvez seja por isso que exploramos oceanos, atravessamos desertos, subimos montanhas e sonhamos em chegar a Marte. Não porque sejamos suicidas, mas porque nos recusamos a viver inteiramente dentro dos limites.

É por isso que certas tragédias parecem nos atingir de maneira tão particular. Elas representam o colapso de uma fantasia que todos compartilhamos. A fantasia de que é possível ir mais fundo, mais alto ou mais longe e voltar para contar a história.

Ernest Becker, autor de A Negação da Morte, acreditava que boa parte da experiência humana é construída em torno da tentativa de esquecer a própria finitude. Vivemos como se os acidentes acontecessem com os outros. Como se fôssemos a exceção. Como se a corda segurasse, o helicóptero pousasse, o submarino retornasse e a montanha permitisse o caminho de volta.

Talvez seja justamente por isso que procuramos explicações obsessivamente. Queremos acreditar que houve uma falha específica, um erro identificável ou uma decisão equivocada. Porque a alternativa é muito mais assustadora. Aceitar que a vida contém uma parcela de acaso, vulnerabilidade e imprevisibilidade maior do que gostaríamos de admitir.

No fundo, talvez não acompanhemos essas histórias porque somos mórbidos. Ou, pelo menos, talvez a morbidez não seja exatamente o oposto da identificação. Talvez ela seja uma forma dela.

Desde Ícaro, passando pelos exploradores dos polos, pelos astronautas, pelos alpinistas e pelos aventureiros modernos, a humanidade parece contar a mesma história repetidas vezes. A história de homens e mulheres que insistem em se aproximar do impossível.

E talvez seja por isso que certas tragédias nos perseguem tanto. Porque elas não nos mostram apenas como as pessoas morrem. Elas nos lembram de como todos nós escolhemos viver: acreditando, silenciosamente, que será possível desafiar os limites e voltar em segurança.

Talvez aquilo que chamamos de curiosidade mórbida seja apenas o nome que damos à dificuldade de reconhecer algo mais desconfortável: vemos nessas histórias não apenas vítimas, mas uma versão ampliada dos nossos próprios desejos. E é justamente essa identificação que torna o horror tão difícil de desviar o olhar.


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