Já estou atrasada para comentar algo que os homens provavelmente detestam, mas as mulheres observam imediatamente. Sim, existem tendências de moda nos gramados também. Elas costumam aparecer no comprimento dos calções, na altura das meias e até na modelagem das camisas, mas a assinatura visual da Copa do Mundo da Fifa de 2026 está nos pés. Ou melhor, nas chuteiras. La Vie en Rose pode tocar: basta assistir a alguns jogos para perceber que boa parte das seleções está literalmente pisando em rosa.
Pode parecer um detalhe, mas não é. Durante grande parte da história do futebol, as chuteiras eram praticamente invisíveis. Pretas, pesadas e feitas de couro, elas acompanhavam uma época em que a personalidade dos jogadores se expressava mais pelo talento do que pela aparência. Pelé, Garrincha, Beckenbauer, Cruyff e Maradona passaram suas carreiras usando modelos que hoje pareceriam quase idênticos aos olhos do torcedor moderno. Durante décadas, ninguém imaginava que a cor de uma chuteira pudesse virar assunto.


Essa realidade começou a mudar nos anos 1990, quando as fabricantes perceberam que os pés dos jogadores também poderiam servir como vitrine. A transformação coincidiu com uma era em que os atletas se tornavam celebridades globais e, em 1998, Ronaldo Fenômeno ajudou a inaugurar um novo capítulo ao aparecer na Copa do Mundo da França com a Nike Mercurial prateada. A imagem do brasileiro usando aquele modelo metálico se tornou um marco e mostrou que uma chuteira poderia despertar desejo da mesma forma que um tênis.
Poucos anos depois, David Beckham contribuiu para derrubar outro tabu ao aparecer com versões brancas da Adidas Predator. O que inicialmente parecia extravagante acabou se transformando em tendência. Aos poucos, o preto deixou de ser uma obrigação e deu lugar ao dourado, ao vermelho, ao azul elétrico, ao amarelo fluorescente e ao laranja, acompanhando uma indústria que passou a lançar coleções como acontece na moda.
Nos anos 2010, Cristiano Ronaldo e Neymar levaram esse processo a outro patamar. As chuteiras deixaram de ser apenas equipamento esportivo e passaram a fazer parte da identidade visual dos jogadores. Edições especiais, cores exclusivas e modelos personalizados se transformaram em ferramentas de marketing e em símbolos de estilo.


A ascensão das redes sociais acelerou ainda mais essa mudança. Em uma era dominada por vídeos curtos, transmissões em alta definição e imagens compartilhadas instantaneamente, chamar a atenção se tornou um ativo valioso. E poucas cores conseguem isso melhor do que o rosa.
Se décadas atrás uma chuteira rosa seria vista como uma extravagância, em 2026 ela se tornou quase um uniforme não oficial da Copa do Mundo. Vinícius Júnior, Jude Bellingham, Erling Haaland e inúmeros outros jogadores adotaram tons de rosa, fúcsia e lilás, sem qualquer estranhamento. O que mudou não foi apenas a cor das chuteiras. Foi a própria ideia do que significa ser um astro do futebol.
E não é qualquer rosa. O Mundial parece ter abraçado o mesmo tom vibrante que a moda apelidou de “rosa Barbie”. Entre o fúcsia e o magenta, a cor já havia invadido passarelas, tapetes vermelhos e coleções masculinas desde o fenômeno cultural provocado pelo filme estrelado por Margot Robbie. Em 2026, chegou também aos gramados. O que antes poderia ser visto como extravagância hoje é encarado como moderno, estiloso e perfeitamente masculino. Se a Copa tem uma cor não oficial, ela certamente é rosa.
Nem todos, porém, embarcaram na onda. Em sua provável última Copa do Mundo, Lionel Messi continua fiel a modelos mais discretos, numa escolha que o aproxima mais de uma tradição representada por nomes como Luka Modrić e, em certa medida, Cristiano Ronaldo. Mesmo quando usam versões especiais ou comemorativas, os três permanecem ligados a uma época em que a chuteira era vista sobretudo como ferramenta de trabalho, e não como uma extensão da identidade visual.

A diferença talvez revele uma mudança geracional. Se Messi pertence a uma linhagem cuja assinatura estava principalmente no que fazia com a bola, a geração de Vinícius Júnior e Jude Bellingham cresceu em um universo em que estilo, marca pessoal e presença nas redes sociais também fazem parte do espetáculo.
Porque, se Pelé representava uma época em que todos pareciam iguais, os jogadores do século 21 são incentivados a construir uma identidade própria. E, curiosamente, uma das formas mais visíveis de fazer isso está justamente onde poucos imaginavam olhar. Nos pés. Afinal, até o futebol, um dos universos mais resistentes às mudanças, acabou descobrindo que a moda também entra em campo.
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