Emilia Clarke e a maldição do megassucesso: por que nenhuma série consegue repetir Game of Thrones?

Existe uma espécie de maldição que acompanha atores associados a sucessos gigantescos. Quanto maior o fenômeno, mais difícil parece escapar da sombra dele. E poucos exemplos ilustram isso tão bem quanto Emilia Clarke.

Cinco meses depois de sua estreia, a série Ponies foi cancelada pelo Peacock. A decisão não chega a ser surpreendente. Apesar dos excelentes números no Rotten Tomatoes — 94% entre os críticos e 83% entre o público — a mistura de suspense de espionagem, drama e humor ambientada em Moscou, em 1977, simplesmente não encontrou uma audiência grande o suficiente para justificar uma segunda temporada.

É uma pena. Porque, para muitos espectadores, a série estrelada por Clarke e, após o cancelamento de Ponies, a atriz soma três franquias e vários projetos elogiados, mas ainda busca um novo fenômeno cultural; parecia justamente o tipo de projeto capaz de inaugurar uma nova fase na carreira da eterna Daenerys Targaryen. A atriz interpretava Bea, uma secretária da embaixada americana que, após a morte misteriosa do marido na União Soviética, acaba envolvida em operações da CIA. A personagem permitia a Emilia explorar registros mais maduros, vulneráveis e cômicos, muito distantes da rainha de Westeros, mas o cancelamento acaba reforçando um padrão curioso.

Desde o fim de Game of Thrones, Emilia Clarke nunca deixou de trabalhar. Pelo contrário. Ela foi uma das poucas integrantes do elenco principal a transitar por algumas das maiores franquias de Hollywood. Esteve em Terminator Genisys, assumindo o papel eternizado por Linda Hamilton. Entrou para o universo de Star Wars em Solo, como Qi’ra. E mais recentemente fez parte da Marvel em Secret Invasion.

No papel, parece uma trajetória invejável. Na prática, porém, nenhuma dessas apostas conseguiu se transformar em um novo fenômeno. Terminator Genisys encerrou os planos de uma nova trilogia. Solo teve uma recepção melhor do que sua fama sugere, mas decepcionou nas bilheterias e congelou os derivados cinematográficos de Star Wars. Já Secret Invasion tornou-se uma das produções mais criticadas do Universo Marvel.

Agora, ironicamente, foi justamente um de seus trabalhos mais elogiados em anos que acabou cancelado.

Talvez seja injusto chamar isso de fracasso. Afinal, Clarke continua sendo uma atriz requisitada, querida pelo público e por seus colegas de profissão. São poucos os artistas capazes de sair de um fenômeno global e continuar protagonizando projetos de grandes estúdios mais de uma década depois. O problema é que sucessos do tamanho de Game of Thrones distorcem qualquer comparação. Tudo o que vem depois inevitavelmente parece menor.

E Emilia não está sozinha. Kit Harington, Sophie Turner, Maisie Williams e Lena Headey também nunca encontraram algo remotamente comparável ao impacto de Westeros. Mesmo as estrelas que seguiram trabalhando regularmente não voltaram a ocupar o centro da cultura pop da mesma maneira.

Talvez a maior exceção seja Jason Momoa, que transformou Khal Drogo em apenas um capítulo de uma carreira impulsionada por Aquaman. Ou Pedro Pascal, cuja participação relativamente breve como Oberyn Martell acabou sendo apenas o começo de uma ascensão impressionante, que o transformou em uma das maiores estrelas da televisão contemporânea graças a séries como Narcos, The Mandalorian e The Last of Us.

No caso de Emilia Clarke, a impressão é que talento e oportunidades nunca foram o problema. Nem mesmo a recepção crítica. O que continua faltando é aquele elemento imprevisível que transforma uma produção em um verdadeiro acontecimento cultural.

Porque talvez essa seja a ironia de estrelar um dos maiores sucessos da história da televisão: depois de voar em dragões, qualquer outro voo parece menor.


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