Elinor e Marianne: O Desafio na Nova Adaptação de Austen

O primeiro trailer da nova adaptação de Sense and Sensibility é, ao mesmo tempo, encantador e preocupante. Encantador porque tudo parece estar no lugar: a fotografia é elegante, o elenco é excelente, a ambientação é luxuosa e há um evidente cuidado em apresentar a história de Jane Austen para uma nova geração. Preocupante porque, mais uma vez, tenho a sensação de estar vendo uma heroína de Jane Austen do século 21 vestida com roupas do século 19.

Desde Pride & Prejudice (2005), a adaptação definitiva de Joe Wright com Keira Knightley, parece que Hollywood decidiu que existe apenas uma forma de tornar Austen atraente para o público contemporâneo: transformar suas protagonistas em versões mais expansivas, mais espontâneas e mais verbalmente modernas do que elas jamais foram no papel. O problema é que nem todas as heroínas de Austen são Elizabeth Bennet. E mesmo Elizabeth Bennet não era exatamente a Elizabeth Bennet que aprendemos a reconhecer no cinema.

Lizzie era espirituosa, observadora e opiniativa, mas também era uma jovem educada, recatada e profundamente condicionada pelas convenções sociais de sua época. Ela não corria pelos campos declarando sentimentos, nem fazia do próprio desejo um espetáculo público. O que a distinguia era sua inteligência, não sua extroversão.

Por isso, talvez nenhuma personagem sofra mais com essa tendência contemporânea do que Elinor Dashwood.

A grande qualidade — e a grande tragédia — de Elinor em Sense and Sensibility é justamente sua capacidade de conter aquilo que sente. Austen constrói uma heroína cuja força moral está na discrição, no autocontrole e na responsabilidade. Elinor não é menos apaixonada do que Marianne; ela apenas acredita que expressar livremente suas emoções pode destruir não apenas a própria vida, mas a estabilidade de toda a sua família.

Marianne, ao contrário, é a própria “sensibility”: impulsiva, romântica, teatral, incapaz de separar emoção e ação. O romance só funciona porque as duas irmãs começam em extremos opostos e passam a caminhar, lentamente, uma em direção à outra. Marianne aprende prudência. Elinor aprende que a repressão absoluta também tem um custo humano devastador.

É justamente por isso que o trailer da nova adaptação me deixou um pouco apreensiva. Não porque Daisy Edgar-Jones não pareça uma excelente Elinor — ela certamente é uma das atrizes mais talentosas de sua geração —, mas porque, em vários momentos, a impressão é de que as duas irmãs habitam o mesmo registro emocional. As risadas abertas, a linguagem corporal expansiva e a expressão mais imediata dos sentimentos parecem aproximar Elinor de Marianne, quando toda a força dramática da obra depende de elas começarem tão distantes uma da outra quanto possível.

Talvez seja cedo para julgar. Trailers vendem emoções mais do que nuances, e é perfeitamente possível que a contenção de Elinor apareça com toda sua força no filme completo. Ainda assim, não consigo deixar de pensar que existe uma certa dificuldade contemporânea em aceitar uma verdade que Jane Austen compreendia perfeitamente: mulheres não precisam parecer modernas para serem extraordinariamente modernas.

Austen nunca escreveu heroínas revolucionárias porque elas quebravam regras. Ela escreveu heroínas revolucionárias porque levava a sério sua vida interior. Anne Elliot não precisava fazer discursos para ser radical. Elinor Dashwood não precisava desafiar convenções para ser heroica. E Elizabeth Bennet não precisava deixar de ser tímida para ser inteligente.

Dito isso, continuo ansiosa para assistir a Sense and Sensibility. Porque, apesar das minhas ressalvas, o trailer também sugere algo que talvez seja ainda mais importante: uma adaptação que parece acreditar sinceramente no romance, na melancolia e na inteligência emocional de Jane Austen. E, em 2026, isso já é quase uma pequena revolução.


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