Às vezes, uma grande série não passa despercebida porque lhe falta qualidade ou ambição, mas porque o público nunca entende exatamente o que ela é. Tenho a impressão de que foi isso que está acontecendo com Star City. Desde o anúncio, a nova produção da Apple TV foi apresentada como um spin-off de For All Mankind, que é um dos mais antigos produtos da plataforma e um dos mais bem-sucedidos. Mas Star City, que é a mesma história, mas do lado dos antagonistas, parece estar sendo vista como uma história complementar, feita para os fãs da série original. Um erro. Star City nunca foi sobre foguetes. E talvez nem seja, de fato, um spin-off.
Star City, que mal entra no Top 10 da Apple TV, é a melhor série dramática de 2026. É um drama extraordinariamente atual sobre indivíduos esmagados por instituições, sobre pessoas obrigadas a abrir mão da própria identidade em nome de projetos maiores do que elas mesmas e sobre o preço humano das grandes conquistas da História. A corrida espacial é apenas o cenário e o verdadeiro assunto da série sempre foi as pessoas. É justamente aí que mora sua grandeza.

Enquanto tantas produções de prestígio apostam em grandes reviravoltas ou em personagens maiores do que a vida, Star City faz exatamente o contrário. Ela desacelera, observa e escuta. Aliás, literalmente em alguns aspectos. A série permite que conheçamos cada personagem antes de pedir que nos importemos com ele. Quando finalmente percebemos, já estamos completamente envolvidos.
Irina Morozova talvez seja a porta de entrada para quem vem de For All Mankind, mas ela está longe de ser o coração da narrativa. É muito interessante vê-la já excedendo em habilidade no que eventualmente vai assumir, sua precisão e talento investigativos, mas ainda com uma natureza próxima da pura, sendo moldada aos poucos na fria e manipuladora personagem da série original. Em Star City, Irina é dúbia, mas, aparentemente, bem-intencionada.
Ainda assim, a verdadeira força da série está nos personagens inéditos, aqueles que chegam sem qualquer peso de franquia e, ao final da temporada, parecem impossíveis de esquecer. Valya, Sasha e Tanya são escritos com uma humanidade rara, distante de qualquer estereótipo sobre a União Soviética ou sobre a Guerra Fria. Eles amam, erram, sonham, fracassam e fazem escolhas impossíveis, sempre tentando preservar algum espaço para si dentro de um sistema que exige obediência absoluta.

Poucas séries recentes conseguem fazer com que o espectador se importe tanto com personagens completamente novos. Quando a temporada termina, a sensação não é de despedida de figuras fictícias, mas de pessoas que aprendemos a conhecer.
O exemplo mais poderoso dessa proposta talvez seja o engenheiro-chefe cujo nome permanece escondido durante boa parte da história. A escolha é brilhante porque transforma a própria narrativa em um reflexo do regime que retrata. O homem responsável por tornar possível o programa espacial soviético não pode sequer existir publicamente. Sua identidade precisa desaparecer para que toda a glória pertença ao Estado. É uma ideia simples, mas profundamente comovente, porque nos lembra que algumas das maiores conquistas da humanidade foram construídas por pessoas que jamais puderam receber reconhecimento.
Rhys Ifans compreende perfeitamente esse paradoxo. Sua interpretação é marcada pela contenção, pelos silêncios e pela delicadeza com que transforma um cientista brilhante em alguém permanentemente dividido entre o entusiasmo pela exploração espacial e o peso de viver invisível. É um trabalho extraordinário, daqueles que permanecem conosco muito tempo depois do último episódio.
No extremo oposto está Anna Maxwell Martin, que entrega uma das atuações mais surpreendentes de sua carreira. Acostumada a personagens calorosos e afetuosos, ela cria uma antagonista cuja autoridade nunca depende da violência explícita. O que assusta é justamente sua serenidade. Ela acredita profundamente em tudo o que faz, e essa convicção torna cada decisão ainda mais inquietante. São vilões assim, convencidos de sua própria virtude, que costumam ser os mais memoráveis.

Toda essa construção é sustentada por um roteiro preciso, uma fotografia de rara beleza e uma trilha sonora que sabe exatamente quando conduzir a emoção e quando apenas observar em silêncio. Nada parece excessivo. Nada busca impressionar pelo tamanho. Tudo existe para servir aos personagens.
Talvez seja por isso que Star City esteja me marcando tanto. Não penso na corrida espacial, na disputa entre os Estados Unidos e a União Soviética ou nas conquistas tecnológicas daquela época. Penso em Valya, em Sasha, em Tanya, no Engenheiro-Chefe e até na versão jovem de Irina. Penso nas escolhas que fazem, nos sonhos que precisam abandonar e na injustiça de uma História que tantas vezes transforma pessoas em notas de rodapé.
Sem qualquer exagero, considero Star City uma das melhores séries já produzidas pela Apple TV. É curioso que tenha chegado ao público como uma expansão de outro universo quando possui força suficiente para caminhar completamente sozinha. Talvez o tempo lhe faça justiça. Afinal, algumas obras não nascem para dominar as conversas da semana. Nascem para permanecer na memória de quem lhes deu uma chance.
E Star City merece muito mais gente disposta a fazer exatamente isso.
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