A Copa do Mundo parece uma tradição eterna. A cada quatro anos, assistimos ao mesmo ritual: fase de grupos, mata-mata, prorrogação, disputa por pênaltis, cartões, substituições, árbitro de vídeo, chaveamentos e troféus erguidos diante de bilhões de espectadores. Tudo parece tão natural que é fácil esquecer uma verdade surpreendente: praticamente nada disso existia quando a competição foi criada.
Na verdade, a Copa do Mundo foi sendo inventada aos poucos.
As próprias regras do futebol moderno nasceram antes da Copa. Em 1863, na Inglaterra, a recém-criada Football Association estabeleceu as primeiras normas oficiais do esporte. O jogo era tão diferente do atual que, por exemplo, um jogador não podia receber a bola se estivesse à frente dela. Em outras palavras: passes para frente eram proibidos. O futebol se parecia mais com o rugby do que com o esporte que hoje mobiliza o planeta.
Em 1886 surgiu a International Football Association Board (IFAB), entidade que até hoje é responsável por definir as regras oficiais do futebol mundial. Quando a FIFA foi fundada, em 1904, ainda não existia uma Copa do Mundo. O principal torneio internacional era o futebol olímpico, disputado apenas por atletas amadores.
Mas havia um problema evidente: o futebol crescia rápido demais para não possuir seu próprio campeonato mundial.
Foi então que entrou em cena Jules Rimet.

Em 26 de maio de 1928, durante um congresso da FIFA realizado em Amsterdã, o dirigente francês conseguiu aprovar a criação de uma competição exclusiva para seleções nacionais. A proposta foi aprovada por 25 votos a favor e cinco contra. Nascia, oficialmente, a Copa do Mundo.
A primeira edição foi realizada apenas dois anos depois, em 1930, no Uruguai. E ela era muito diferente da Copa que conhecemos hoje.
Não existiam eliminatórias. As seleções foram convidadas pela FIFA. Apenas 13 aceitaram participar: Uruguai, Argentina, Brasil, Bolívia, Chile, Paraguai, Peru, Estados Unidos, México, Bélgica, França, Romênia e Iugoslávia.
A lista pode parecer estranha hoje. Onde estavam Alemanha, Itália, Espanha e Inglaterra? A resposta é simples: elas não quiseram ir.
A viagem até Montevidéu exigia semanas de travessia de navio, altos custos e a interrupção dos campeonatos nacionais. Muitos dirigentes europeus consideravam absurdo cruzar o Atlântico para disputar um torneio cuja importância ainda era completamente desconhecida. Jules Rimet precisou fazer uma verdadeira campanha diplomática para convencer algumas seleções europeias a participar.
A estrutura também era experimental. Os 13 participantes foram divididos em quatro grupos, e apenas os líderes avançavam para as semifinais. Não havia oitavas, quartas ou a complexa engenharia de chaveamentos que conhecemos hoje.
Na verdade, a própria estrutura da Copa foi sendo criada aos poucos. Em 1950, por exemplo, a FIFA realizou uma experiência que hoje parece impensável: não houve final. O campeão foi definido por um quadrangular decisivo, sistema que produziu um dos maiores traumas esportivos da história brasileira, o Maracanazo.
Com o passar das décadas, a FIFA percebeu algo fundamental: o futebol não funcionava apenas como esporte, mas também como narrativa. Primeiro, apresentavam-se os personagens. Depois, acompanhava-se quem sobrevivia. Por fim, chegava o confronto decisivo. Foi assim que o modelo de grupos seguidos por mata-mata se consolidou como a fórmula ideal para produzir drama, identificação e espetáculo.
As próprias regras do jogo continuavam mudando.
A regra do impedimento, talvez a mais controversa do futebol, sofreu diversas transformações. Inicialmente, passes para frente eram proibidos. Depois, exigia-se que quatro adversários estivessem entre o atacante e o gol. Mais tarde, três. Apenas em 1925 surgiu a base do impedimento moderno, exigindo a presença de dois defensores — normalmente o goleiro e mais um jogador. A mudança aumentou drasticamente o número de gols e transformou completamente a forma de jogar futebol.
Também não existiam cartões amarelos ou vermelhos.
Durante décadas, árbitros advertiam e expulsavam jogadores apenas verbalmente. O sistema funcionava razoavelmente até que partidas internacionais passaram a reunir atletas e árbitros que nem sequer falavam o mesmo idioma. Após uma série de confusões na Copa de 1966, o árbitro inglês Ken Aston teve uma ideia inspirada nos semáforos: amarelo para advertência, vermelho para expulsão. Os cartões estrearam oficialmente na Copa de 1970, no México.
Outras mudanças continuaram moldando o torneio. A vitória passou a valer três pontos em 1994, numa tentativa de incentivar jogos mais ofensivos. As disputas por pênaltis substituíram sorteios e partidas extras. O número de substituições aumentou. E, em 2018, a tecnologia entrou definitivamente em campo com a adoção do VAR.
Nem mesmo o símbolo máximo da competição escapou dessas transformações.

O primeiro troféu da Copa do Mundo foi batizado em homenagem ao homem que criou o torneio: Jules Rimet. A taça, projetada pelo escultor francês Abel Lafleur, representava a deusa grega da vitória, Niké. Durante décadas, a regra determinava que a seleção que conquistasse três títulos ficaria definitivamente com ela.
Foi exatamente o que aconteceu com o Brasil em 1970, após os títulos de 1958, 1962 e 1970.
O destino da taça, porém, foi digno de uma trama policial. Após permanecer sob custódia da CBF durante anos, a Jules Rimet foi roubada no Rio de Janeiro, em 1983. Os responsáveis pelo crime, segundo as investigações, eram criminosos argentinos radicados no Brasil. A taça jamais foi recuperada e acredita-se que tenha sido derretida.
A atual Copa do Mundo existe, portanto, porque a anterior desapareceu.
Talvez essa seja a maior curiosidade sobre o torneio mais importante do planeta: a Copa do Mundo nunca foi uma tradição imutável. Ela passou quase um século reinventando suas próprias regras, seus formatos, seus símbolos e até seus troféus.
No fundo, a Copa não conta apenas a história do futebol.
Ela conta a história de como decidimos jogar, assistir e imaginar o próprio esporte.
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