Eu já publiquei textos sobre tarô no MiscelAna. Não muitos, mas alguns. A razão era simples: minha irmã lê tarô há décadas, é colunista em CLAUDIA, e, como acontece com frequência nas melhores pautas, a curiosidade começou dentro de casa. O resultado, porém, foi curioso, aqui praticamente não performaram, mas a ironia é que a coluna de tarô da revista CLAUDIA continua sendo, consistentemente, uma das mais lidas da publicação.
Talvez isso diga algo sobre audiência. Talvez diga algo sobre plataformas. Mas talvez diga, sobretudo, algo sobre o próprio tarô: ele nunca desaparece. Pode sair de moda em determinados círculos culturais, ser tratado com ceticismo ou ironia em outros, mas continua exercendo um fascínio persistente, atravessando séculos, movimentos artísticos, revoluções tecnológicas e transformações sociais.
Não é coincidência, portanto, que uma das exposições mais fascinantes de Nova York neste momento seja dedicada justamente a ele.

Em cartaz até 4 de outubro na Morgan Library & Museum, Tarot! Renaissance Symbols, Modern Visions acompanha uma trajetória de quase seis séculos para responder a uma pergunta que parece simples, mas não é: como um jogo de cartas criado para entreter aristocratas italianos acabou se transformando em uma das linguagens simbólicas mais reconhecíveis do mundo contemporâneo?
A primeira surpresa da exposição é justamente desconstruir aquilo que a maioria das pessoas acredita saber sobre o tarô.
As primeiras cartas surgiram no norte da Itália, no século 15, e eram conhecidas como carte di trionfi ( cartas dos triunfos). Elas não foram criadas para prever o futuro, interpretar destinos ou revelar segredos espirituais. Eram, essencialmente, cartas de jogo.
Ao lado dos naipes tradicionais, apareciam vinte e um “triunfos”: figuras alegóricas inspiradas na literatura, na religião e no imaginário renascentista, misturando símbolos universais a cenas da vida cotidiana. Durante cerca de três séculos, ninguém consultava essas cartas esperando descobrir o futuro.
Talvez essa seja a revelação mais interessante da exposição: antes de ser esoterismo, o tarô já era narrativa.

Os primeiros conjuntos conhecidos foram produzidos para as grandes famílias aristocráticas italianas e funcionavam tanto como entretenimento quanto como demonstração de riqueza, sofisticação e poder cultural. Poucos exemplares sobreviveram. Os mais importantes pertencem ao chamado conjunto Visconti-Sforza, criado para a poderosa família que governava Milão e considerado o mais extraordinário exemplo de tarô renascentista preservado até hoje.
Pela primeira vez na América do Norte, a Morgan reuniu as cartas pertencentes ao seu acervo com as conservadas pela Accademia Carrara, de Bérgamo, permitindo ao público observar grande parte desse conjunto excepcional produzido por Bonifacio Bembo e seu ateliê entre 1456 e 1458. E obra-prima, aqui, não é figura de linguagem.
Essas cartas eram objetos de luxo pintados à mão, exigindo o domínio simultâneo da pintura sobre painel, da iluminura e de outras técnicas artísticas refinadas. Mais próximas de joias ou manuscritos preciosos do que daquilo que hoje entendemos como um baralho, elas revelam algo surpreendente: apesar dos quase seiscentos anos que nos separam delas, continuam imediatamente reconhecíveis.
A Morte continua sendo a Morte. A Justiça continua sendo a Justiça. Os Amantes continuam sendo os Amantes. Essa permanência talvez explique a extraordinária capacidade de sobrevivência do tarô.

Foi apenas no século 18, especialmente na França, que as cartas passaram a ser associadas ao ocultismo e à cartomancia. Ocultistas da época começaram a reinterpretar os símbolos do tarô como vestígios de conhecimentos ancestrais perdidos, chegando inclusive a atribuir — sem comprovação histórica — origens no Egito antigo.
A partir desse momento, o tarô iniciou uma nova transformação: deixou de ser apenas um jogo para se tornar uma ferramenta de interpretação do mundo.
A exposição acompanha essa evolução até chegar ao baralho mais influente da história: o Rider-Waite-Smith, publicado em 1909 pelo ocultista Arthur Edward Waite e ilustrado pela extraordinária Pamela Colman Smith. Se o Visconti-Sforza representa o nascimento do tarô, o Rider-Waite-Smith representa sua democratização.
Artista, escritora, colaboradora do poeta W.B. Yeats e admirada pelo fotógrafo Alfred Stieglitz, Pamela Colman Smith revolucionou o tarô ao ilustrar também os chamados arcanos menores. Pela primeira vez, cada carta se transformava em uma pequena narrativa visual. Inspirada simultaneamente pela Bíblia, pelo Art Nouveau, pela sociedade britânica e por sua própria imaginação, ela criou o conjunto de imagens que, ainda hoje, serve de referência para a maior parte dos baralhos contemporâneos.
Mas é a segunda metade da exposição, intitulada Modern Visions, que talvez explique por que o tarô nunca esteve tão presente quanto agora.

Ao longo do século 20, inúmeros artistas descobriram nas cartas algo extremamente raro: uma tradição visual consolidada e, ao mesmo tempo, aberta à reinvenção. Os surrealistas compreenderam isso particularmente bem.
Leonora Carrington, Remedios Varo e André Breton não estavam necessariamente interessados em produzir instrumentos de adivinhação. O que lhes fascinava era o potencial simbólico do tarô, sua capacidade de desafiar a lógica racional e abrir espaço para outras formas de imaginar a realidade.
A exposição reúne obras de artistas como Niki de Saint Phalle, Betye Saar, Kerstin Brätsch e Chris Ofili, além de figuras extraordinárias como o argentino Xul Solar, amigo próximo de Jorge Luis Borges, inventor de idiomas imaginários e criador de um dos mais fascinantes baralhos já produzidos. Há também exemplos que demonstram como o tarô acabou se transformando em uma linguagem cultural praticamente universal.
Hoje, existem baralhos dedicados a gatos, à turma de Peanuts, à culinária italiana, à astrologia pop e até ao universo cinematográfico de Guillermo del Toro. O que poderia parecer uma banalização talvez seja, na verdade, a prova definitiva de sua força simbólica.
As buscas por leituras de tarô dispararam durante a pandemia e continuam crescendo. Redes sociais transformaram tiragens em conteúdo diário. Livrarias independentes exibem dezenas de versões diferentes. O tarô se tornou, simultaneamente, objeto artístico, prática espiritual, entretenimento e fenômeno cultural.
E talvez a grande descoberta proporcionada pela exposição da Morgan seja justamente esta: o tarô nunca sobreviveu por causa da promessa de prever o futuro. Ele sobreviveu porque oferece algo muito mais raro: uma maneira de transformar a incerteza da vida em narrativa.
A exposição fica em cartaz de 26 de junho a 4 de outubro de 2026, na Morgan Library & Museum, em Nova York, com cerca de 380 obras que percorrem quase seis séculos de história.
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