Disney aposta alto em Moana: como nasceu o live-action mais ambicioso do estúdio

Quando a Disney anunciou que transformaria Moana em live-action menos de dez anos após o lançamento da animação original, a primeira reação de muita gente foi de estranhamento. Afinal, por que revisitar um filme de 2016 que continua entre os títulos mais assistidos da plataforma Disney+?

A resposta talvez esteja justamente aí.

Lançado em 2016, Moana arrecadou quase US$ 700 milhões nos cinemas, recebeu duas indicações ao Oscar e, mais importante, se tornou um fenômeno permanente do streaming. Ao longo da última década, poucas animações da Disney foram tão revisitadas por crianças, adolescentes e famílias. O filme nunca deixou realmente de existir no imaginário popular.

A prova definitiva veio em 2024. Concebido inicialmente como uma série para streaming, Moana 2 acabou transformado em longa-metragem e se tornou um fenômeno global, arrecadando mais de US$ 1 bilhão nas bilheterias mundiais. Durante o lançamento da sequência, conversei com a atriz e cantora Any Gabrielly, voz brasileira da personagem, e ficou claro como Moana havia deixado de ser apenas mais uma princesa Disney para se tornar uma referência de independência, identidade e representatividade para uma nova geração. O live-action, nesse sentido, parece menos uma aposta e mais uma consequência natural desse sucesso contínuo.

Mas existe outra explicação para a decisão do estúdio. A tecnologia finalmente chegou a um ponto em que praticamente não há mais limites entre o que pode ser desenhado e o que pode ser filmado. O oceano vivo, a galinha Heihei, os monstros, os deuses e a fantasia exuberante que antes dependiam exclusivamente da animação agora podem coexistir ao lado de atores reais.

E a Disney decidiu apostar alto.

Dirigido por Thomas Kail, o criador de Hamilton, o novo Moana mobilizou mais de 200 atores e artistas do Pacífico e contou com uma das maiores equipes de consultoria cultural já reunidas pelo estúdio. Durante toda a produção, linguistas, antropólogos, coreógrafos, especialistas em tatuagens tradicionais e representantes de diferentes culturas polinésias participaram ativamente do desenvolvimento do filme.

A escala da produção impressiona.

A equipe construiu uma versão completa da vila fictícia de Motunui em uma área de quase dez hectares. Foram necessários cinco meses de trabalho para erguer casas tradicionais, sistemas hidráulicos, plantações tropicais e mais de 250 coqueiros. Nenhum prego moderno foi utilizado na construção das embarcações e estruturas principais, que seguiram técnicas ancestrais de amarração com fibras de coco.

Para reproduzir a jornada marítima de Moana, a produção fabricou mais de 30 canoas diferentes, desenvolveu três gigantescos tanques de água — um deles com capacidade para aproximadamente 1,5 milhão de litros — e criou nove modelos distintos de embarcações inspiradas em tradições marítimas de diversas culturas do Pacífico.

Os figurinos também se transformaram em um projeto monumental.

Mais de 2 mil peças foram confeccionadas artesanalmente para o filme. Cada estampa, cor e símbolo utilizado nas roupas possui um significado específico ligado à cultura polinésia. O figurino de Moana, por exemplo, incorpora símbolos relacionados à navegação, ancestralidade e liderança, enquanto Maui utiliza armaduras e vestimentas que contam visualmente sua própria história.

No centro de tudo está Dwayne Johnson.

O ator, que retorna ao papel de Maui após dublar o personagem na animação original, também atua como produtor do filme e sempre afirmou que este é o projeto mais pessoal de sua carreira. Isso porque Maui foi concebido, em parte, como uma homenagem ao avô de Johnson, o lendário chefe samoano Peter Maivia.

“Ele representa legado, vida, orgulho e cultura”, afirmou o ator durante a produção.

A nova Moana, interpretada pela australiana Catherine Laga’aia, foi escolhida após uma busca global que recebeu mais de 32 mil inscrições. Segundo os produtores, a atriz foi identificada quase imediatamente como a intérprete ideal para carregar o legado criado pela animação.

Curiosamente, a maior aposta do novo Moana talvez seja justamente não apostar em mudanças radicais.

Ao contrário de outros live-actions recentes da Disney, a produção opta por preservar grande parte dos enquadramentos, das canções, dos personagens e até de muitos dos momentos mais memoráveis da animação original. É menos uma reinvenção e mais uma celebração.

Talvez porque a Disney tenha compreendido algo simples: algumas histórias não precisam ser atualizadas para uma nova geração. Elas apenas precisam ser contadas novamente.

E, se a reação inicial do público for um indicativo, Moana pode provar que a nostalgia, quando acompanhada de escala, tecnologia e respeito cultural, continua sendo uma das maiores forças de Hollywood.


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