Atenção: este texto contém spoilers de Enola Holmes 3.
Quando Enola Holmes estreou na Netflix, em setembro de 2020, o projeto parecia uma aposta improvável. Adaptar a série literária juvenil de Nancy Springer já era uma ideia arriscada; transformá-la em uma franquia centrada na irmã adolescente de Sherlock Holmes parecia ainda mais. O sucesso, no entanto, foi imediato. Em plena pandemia, Millie Bobby Brown — que também atuava como produtora — conseguiu transformar Enola em uma das poucas novas propriedades intelectuais da Netflix capazes de gerar sequências, fandom e reconhecimento internacional.
O primeiro filme funcionava porque sabia exatamente o que era. A trama acompanhava o desaparecimento de Eudoria Holmes (Helena Bonham Carter), levando Enola a fugir de seus irmãos, Mycroft e Sherlock, enquanto se envolvia em uma conspiração política ao lado do jovem lorde Tewkesbury. Era um filme leve, espirituoso, visualmente inventivo e, acima de tudo, carismático.

Enola Holmes 2, lançado em 2022, tentou crescer junto com sua protagonista. A investigação sobre uma operária desaparecida levou a uma releitura da greve histórica das trabalhadoras dos fósforos de Londres, introduziu Moriarty e permitiu que a relação entre Enola e Sherlock se tornasse o verdadeiro coração emocional da franquia.
Agora, quatro anos depois, Enola Holmes 3 tenta dar mais um passo rumo à maturidade. Talvez grande demais.
A premissa é excelente. Enola viaja para Malta para se casar com Tewkesbury, apenas para descobrir que Sherlock desapareceu misteriosamente. O que deveria ser uma celebração romântica rapidamente se transforma em uma investigação envolvendo ouro roubado durante campanhas britânicas no Afeganistão, culpa imperial, corrupção aristocrática e o retorno de Moriarty, agora escondida sob uma nova identidade.
No papel, tudo parece mais sofisticado. Na prática, quase nada funciona.
A principal dificuldade de Enola Holmes 3 é confundir complexidade com profundidade. O roteiro de Jack Thorne empilha revelações, reviravoltas, mensagens políticas e dramas familiares numa velocidade tão frenética que a investigação deixa de ser divertida e passa a ser simplesmente confusa. A edição acelerada — que já era uma marca da franquia — aqui se torna um vício. Personagens entram e saem de cena, pistas aparecem e desaparecem, e o filme parece constantemente preocupado em não permitir que o espectador tenha tempo para pensar sobre o que acabou de assistir.
Há também um problema inevitável: Millie Bobby Brown.
Não porque ela seja ruim. Pelo contrário. Brown continua tecnicamente competente e claramente investida na personagem que ajudou a construir. Mas algo da espontaneidade que tornava Enola tão encantadora em 2020 parece ter desaparecido. A quebra da quarta parede, antes divertida, agora soa mecânica. O charme juvenil deu lugar a uma performance mais calculada, e a personagem, ironicamente, tornou-se menos interessante justamente quando o roteiro tenta torná-la mais adulta.

E então surge Henry Cavill.
Ou, mais precisamente, reaparece o grande problema estrutural da franquia: Henry Cavill é simplesmente bom demais como Sherlock Holmes.
Desde o primeiro filme, Cavill construiu uma versão surpreendentemente eficaz do detetive. Menos arrogante que Benedict Cumberbatch, menos performático que Robert Downey Jr. e mais humano do que quase qualquer adaptação recente, seu Sherlock possui uma qualidade rara: ele parece gostar genuinamente das pessoas. Em Enola Holmes 3, mesmo desaparecido durante boa parte da trama, ele domina a narrativa. E quando finalmente divide a tela com Enola novamente, o filme instantaneamente ganha energia, humor e emoção.
Não ajuda o fato de que Sherlock é, de longe, o personagem mais interessante desta história.
A revelação de que Moriarty manipulou não apenas o desaparecimento de Sherlock, mas também o próprio casamento de Enola, possui um potencial dramático enorme. A discussão sobre o ouro saqueado durante a expansão imperial britânica também poderia render uma excelente aventura histórica. Mas o filme nunca encontra o equilíbrio entre entretenimento juvenil e comentário político. Ao final, tudo parece simultaneamente excessivo e superficial.
Ainda assim, existe algo quase admirável em Enola Holmes 3. Ele insiste em acreditar que sua protagonista pode crescer, casar, amadurecer e continuar sendo uma heroína de aventura. E o final deixa isso claro.
Sim, o filme termina deixando espaço para uma continuação.

Após derrotar Moriarty, recuperar o ouro e finalmente se casar com Tewkesbury — que abdica de seu título aristocrático —, Enola decide manter sua independência, seu sobrenome e sua carreira. Mas a última cena apresenta um novo mistério envolvendo o naufrágio de uma embarcação chamada The Wrath of Adeline, sugerindo que Moriarty talvez não tenha desaparecido completamente.
A questão é se precisamos realmente de Enola Holmes 4.
Porque, depois de três filmes, a maior ironia da franquia permanece intacta: Enola Holmes nasceu para provar que Sherlock não precisava ser o protagonista. Seis anos depois, continua provando exatamente o contrário.
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