Moana prova que às vezes a Disney não precisa reinventar a magia (Crítica)

Como publicado no Caderno B+

Em 2016, Moana parecia representar algo raro para a Disney: um filme simultaneamente tradicional e revolucionário. Tradicional porque retomava a estrutura clássica do estúdio — uma jovem heroína, canções memoráveis, uma jornada de autodescoberta e um universo visual deslumbrante. Revolucionário porque fazia isso olhando para a cultura polinésia com um grau de cuidado e colaboração inéditos, apresentando a primeira protagonista polinésia da história do estúdio e criando uma aventura que dispensava completamente qualquer romance. O resultado foi um sucesso de quase US$ 700 milhões em bilheteria, múltiplas indicações a prêmios e, talvez mais importante, uma segunda vida ainda mais impressionante no streaming, transformando Moana em um dos filmes mais assistidos da história da Disney+.

Dez anos depois, a Disney retorna à mesma história em live-action. E talvez a primeira pergunta seja inevitável: por quê?

A resposta mais fácil seria apontar para a atual obsessão do estúdio em revisitar seu catálogo. Afinal, a Disney sempre trabalhou em ciclos: animação, live-action, retorno à animação, nova onda de live-actions. Mas Moana talvez revele algo mais interessante sobre a indústria contemporânea. Chegamos a um momento em que aquilo que antes justificava a animação — a impossibilidade de transportar certos elementos fantásticos para atores reais — simplesmente deixou de existir.

A galinha Heihei continua vesga. O oceano continua vivo. Maui continua realizando proezas impossíveis. E quase nada disso exige mais a linguagem da animação para funcionar. Se antes desenhávamos porque não podíamos filmar, agora filmamos porque podemos recriar qualquer coisa.

Há também outro fator histórico. Desde Robin Williams e seu Gênio em Aladdin, Hollywood descobriu que vozes famosas agregam valor comercial às animações. Mas a tentação de finalmente associar esses personagens aos rostos de seus intérpretes sempre permaneceu. Poucos casos tornam essa transição tão inevitável quanto Dwayne Johnson.

Sou, em geral, bastante tradicionalista com adaptações. Costumo desconfiar profundamente da ideia de refazer filmes que já funcionavam. Mas Moana faz justamente aquilo que muitos de seus predecessores recentes evitaram: respeitar seu material original.

Os enquadramentos estão lá. Os movimentos de câmera estão lá. Os efeitos visuais estão lá. As canções estão lá. Em vários momentos, a sensação é menos a de assistir a uma nova adaptação e mais a de testemunhar uma recriação quase arqueológica da animação de 2016.

E, honestamente, se funcionou tão bem antes, por que não funcionaria agora?

Dez anos não é exatamente muito tempo. Mas talvez seja tempo suficiente para percebermos o quanto o mundo mudou. Uma geração inteira cresceu assistindo a Moana repetidamente no streaming. Crianças que a descobriram em tablets agora são adolescentes. Pais que a apresentaram aos filhos já a transformaram em tradição familiar. Revisitá-la em live-action acaba funcionando menos como um exercício de nostalgia e mais como uma confirmação de permanência.

Isso acontece porque Moana continua carregando algumas das mensagens mais bonitas produzidas pela Disney neste século: a descoberta da própria identidade, a responsabilidade com a comunidade, a reconexão com a ancestralidade e a coragem de aceitar quem somos. Nenhuma dessas ideias precisava ser atualizada ou corrigida.

Para quem já viu a animação, a experiência é quase surpreendentemente confortável. É tão gostoso quanto reencontrar um filme que nunca deixamos realmente de assistir. E convenhamos: não conheço muitas pessoas que tenham assistido a Moana apenas uma vez.

Existe, claro, um pequeno desconforto que a animação conseguia disfarçar melhor: a diferença etária entre Maui e Moana torna-se mais perceptível quando substituímos desenhos por atores reais. Mas mesmo isso acaba perdendo importância diante do carisma quase absurdo de Dwayne Johnson.

E talvez ninguém pudesse ocupar esse lugar além dele.

Para Johnson, Maui nunca foi apenas um personagem. O semideus foi concebido em parte como uma homenagem ao seu avô, o lendário chefe samoano Peter Maivia. Durante toda a divulgação do filme, o ator repetiu que este é provavelmente o papel mais pessoal de sua carreira. E isso transparece. Há algo de genuinamente afetivo em sua interpretação, uma alegria quase infantil em finalmente poder encarnar fisicamente um personagem que ajudou a transformar em ícone.

No fim, Moana talvez represente a defesa mais convincente que a Disney já produziu para seus próprios live-actions: nem toda adaptação precisa justificar sua existência reinventando aquilo que já funcionava. Algumas podem simplesmente existir para nos lembrar por que nos apaixonamos pela primeira vez.

O filme chega aos cinemas em 8 de julho, impulsionando novamente a animação original nas plataformas de streaming e com tudo para liderar as bilheterias mundiais. E, desta vez, isso não parece apenas uma aposta da Disney. Parece uma consequência inevitável.


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