O retrato desta semana mostra que o streaming está cada vez menos organizado em torno de um único grande lançamento e cada vez mais sustentado por ecossistemas. Cada plataforma parece reforçar uma identidade muito específica: a Disney vive de franquias familiares; a Paramount+ transforma o universo de Taylor Sheridan em uma plataforma dentro da plataforma; a Apple TV consolida o território do prestígio; o Prime Video aposta em adaptações e no público jovem; a HBO Max equilibra evento, gênero e catálogo; e a Netflix continua fazendo da variedade — ou do caos algorítmico — sua maior força.
Nos filmes, a Disney não tem um sucesso: tem um universo inteiro
Avatar: Fire and Ash ocupa o primeiro lugar, mas o dado mais impressionante está abaixo dele. Quatro filmes de Toy Story aparecem no Top 10, enquanto Moana, Moana 2 e um especial da personagem também dividem espaço. Ou seja: sete das dez posições estão ligadas a apenas duas franquias.
É a demonstração mais clara de como a Disney usa um lançamento para reativar todo o catálogo. O espectador não assiste apenas ao filme mais recente. Ele volta ao anterior, apresenta a história às crianças, revê os clássicos e permanece dentro do mesmo ambiente. Nenhuma outra plataforma explora essa circulação entre gerações com tanta eficiência.


A Apple TV talvez tenha hoje o ranking mais coerente
F1 continua na liderança dos filmes, seguido por The Gorge e Fountain of Youth. Mais abaixo, aparecem os dois títulos de The Family Plan, além de Greyhound, Luck, Outcome, Highest 2 Lowest e Eternity.
O que chama a atenção é que não há a impressão de um catálogo preenchido por filmes aleatórios adquiridos apenas para aumentar volume. Mesmo quando os projetos são muito diferentes entre si, todos carregam a identidade da Apple: estrelas conhecidas, produção cara, imagem sofisticada e a sensação de “evento”. O catálogo ainda é menor, mas já existe material suficiente para um sucesso puxar outros títulos da própria plataforma.
A mesma coerência aparece ainda mais claramente nas séries. Silo lidera, seguida por Cape Fear e Sugar. Depois vêm Widow’s Bay, Trying, Star City, Your Friends & Neighbors, Ted Lasso, Severance e Margo’s Got Money Troubles. É praticamente uma vitrine da estratégia da Apple: ficção científica, thrillers adultos, comédias sofisticadas e séries de prestígio convivendo sem que a plataforma pareça perder a identidade.


A Paramount+ é oficialmente a casa de Taylor Sheridan
Poucos rankings explicam tão bem o funcionamento de uma plataforma quanto o de séries da Paramount+. Dutton Ranch aparece em primeiro lugar e Yellowstone, em segundo. Tulsa King, Marshals e Landman também estão entre os dez mais assistidos.
Metade do Top 10 está, direta ou indiretamente, ligada ao território narrativo que Sheridan construiu: famílias, poder, violência, masculinidade, grandes extensões de terra e personagens que vivem à margem das instituições. É uma dependência evidente, mas também uma identidade que nenhuma concorrente conseguiu reproduzir. A Paramount+ sabe perfeitamente quem é o seu público — e entrega a ele diferentes versões daquilo de que já gosta.
Nos filmes, Scream 7 lidera e ajuda a reforçar outra vocação da plataforma: terror, ação e franquias reconhecíveis. Primate, World War Z, Top Gun: Maverick e The Running Man mantêm o ranking dentro dessa lógica.


O Prime Video descobriu o valor das adaptações românticas
Nas séries, Elle, Off Campus e Every Year After ocupam as três primeiras colocações. The Summer I Turned Pretty reaparece no décimo lugar. É um bloco muito claro de romances, histórias universitárias e adaptações de livros com forte circulação nas redes sociais.
Ao mesmo tempo, Spider-Noir e The Boys preservam o público das produções de super-heróis, enquanto Clarkson’s Farm representa um sucesso completamente diferente, mas já consolidado. O Prime parece trabalhar por comunidades: leitores de romances, fãs de quadrinhos, público de realities e espectadores de novelas. Não existe uma única identidade visual, mas existem nichos muito bem alimentados.
Nos filmes, Project Hail Mary lidera e confirma o potencial da ficção científica de grande escala. Porém, o restante do ranking é bastante variado, com comédia, suspense, drama, romance e ação. É talvez a plataforma que mais se aproxima da antiga ideia de uma locadora: sempre existe alguma coisa para assistir, embora nem tudo pareça pertencer à mesma casa.

House of the Dragon continua sendo o grande evento da HBO Max
Não é surpresa que House of the Dragon esteja em primeiro lugar. A série continua funcionando como o produto capaz de organizar toda a conversa da plataforma. O mais interessante é o que aparece ao redor: Rick and Morty, From, Brilliant Minds, realities e produções internacionais. A HBO Max continua sendo uma mistura da antiga identidade de prestígio da HBO com o catálogo muito mais amplo e popular da Max.
Nos filmes, o terror ocupa as duas primeiras posições com Lee Cronin’s The Mummy e They Will Kill You. Depois, o ranking passa por animações como Despicable Me, Shrek Forever After, Puss in Boots e Minions, além de ação e clássicos como The Accountant, Back to the Future e Inception. É um catálogo menos coerente do que o da Apple, mas muito mais vasto — e capaz de atender públicos completamente diferentes.

A Netflix continua vencendo pela imprevisibilidade
Enola Holmes 3 lidera os filmes, mas logo abaixo encontramos lançamentos, sucessos antigos, ação, comédia e títulos que parecem ter ressurgido sem qualquer conexão aparente entre si. F9, The Hustle, Meg 2: The Trench e The Doorman dividem o mesmo ranking.
Nas séries, I Will Find You ocupa o primeiro lugar, enquanto Friends ainda aparece entre as dez mais assistidas. Entre os dois extremos estão dramas, documentários, produções internacionais, realities e títulos de catálogo. A Netflix talvez seja a única plataforma cuja ausência de identidade se tornou uma identidade. Ela não precisa que o público compreenda uma estratégia editorial. Precisa apenas que cada pessoa encontre alguma coisa diferente para assistir.


A leitura geral
O grande vencedor desta semana não é necessariamente um filme ou uma série, mas sim o conceito de franquia ampliada. Avatar leva o público de volta a Toy Story e Moana na Disney. Dutton Ranch alimenta todo o império de Sheridan na Paramount+. Silo ajuda a manter vivas as demais séries de prestígio da Apple. House of the Dragon sustenta a conversa da HBO Max, enquanto o Prime transforma adaptações literárias em uma linha própria de produção.
O streaming já não disputa apenas nossa atenção por duas horas. A verdadeira batalha é nos convencer a permanecer no mesmo catálogo depois que os créditos terminam. E, neste recorte, Disney, Paramount+ e Apple são as plataformas que parecem compreender melhor essa lógica.
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