Talvez seja a frustração de ver o Brasil eliminado justamente quando a Copa começou a ficar séria. Seria uma explicação fácil, não fosse um pequeno detalhe: em momento algum eu realmente considerei nossa seleção favorita ao título. Torci, claro. Sofri, evidentemente. E passei a nutrir uma antipatia completamente irracional pelos noruegueses, aqueles vikings simpáticos remando alegremente depois de despachar o Brasil, o que torna tudo ainda mais irritante. Mas não foi por causa deles que achei esta a pior Copa de que me lembro.

Aliás, houve coisas deliciosas em 2026. Cabo Verde foi uma delas. Uma seleção estreante, de um país minúsculo, nos deu Vozinha, um goleiro de 40 anos que virou um dos personagens mais adoráveis do torneio, ajudou seu país a chegar ao mata-mata e ainda saiu da Copa tratado como herói. Cabo Verde segurou a Espanha, enfrentou a Argentina sem se comportar como figurante e lembrou por que a ampliação para 48 seleções, apesar de todos os defeitos do novo formato, também abriu espaço para histórias que dificilmente teríamos antes.
Tivemos também os noruegueses. Grrr. Depois de 28 anos longe de uma Copa, voltaram, eliminaram o Brasil, chegaram às quartas e transformaram a Viking Row, aquela coreografia coletiva de remar, cantar e bater o ritmo, em uma das imagens afetivas do campeonato. Mesmo depois da eliminação para a Inglaterra, milhares foram às ruas de Oslo celebrar o time. É exatamente esse tipo de coisa que faz uma Copa ser uma Copa: durante algumas semanas, um país inteiro passa a falar a mesma língua sem precisar explicar nada.


Os ingleses também nos deram uma das melhores imagens do torneio ao transformar Wonderwall praticamente em hino informal da campanha. Jogadores e torcedores cantando Oasis juntos depois das vitórias foi uma daquelas cenas que nenhuma estratégia de marketing conseguiria fabricar de verdade, justamente porque nasceu espontaneamente da torcida. Harry Kane chegou a dizer que cantar a música com os torcedores depois da vitória sobre a Croácia foi um de seus momentos favoritos com a camisa da Inglaterra.
Ainda tivemos o Paraguai eliminando a Alemanha nos pênaltis, uma das grandes zebras do torneio, Marrocos novamente mostrando que 2022 não foi acidente e torcidas que lembraram que a Copa pertence muito mais a quem viaja fantasiado, canta, sofre e ocupa as ruas do que aos dirigentes sentados em áreas VIP. Os escoceses chegaram de kilt e gaita, os noruegueses remaram, os cabo-verdianos viveram uma estreia histórica. Houve uma Copa maravilhosa tentando sobreviver dentro da Copa de 2026.
O problema foi quase todo o resto.
Nunca senti tanto que a FIFA estava tentando adaptar o futebol à lógica do entretenimento americano em vez de deixar que os americanos descobrissem o futebol como ele sempre foi. Isso começou pelas famigeradas pausas para hidratação, obrigatórias em todos os 104 jogos, aproximadamente aos 22 minutos de cada tempo, independentemente da partida realmente exigir aquele intervalo pelas condições climáticas. O argumento da proteção aos jogadores é legítimo e ninguém minimamente responsável deveria defender que atletas joguem sob calor perigoso sem assistência. O problema foi transformar uma medida excepcional em regra universal. Na prática, dividimos uma partida de futebol em quatro quartos.
E isso interfere na essência do jogo. Uma das dificuldades do futebol sempre foi justamente a impossibilidade do treinador parar tudo quando sua equipe está sendo massacrada, reunir os jogadores, desenhar novamente o esquema e devolver o time reorganizado ao campo. Havia 45 minutos para resolver problemas praticamente em movimento e 15 minutos de intervalo para uma intervenção real. Agora há duas oportunidades adicionais que funcionam, gostemos ou não do nome, como timeouts táticos. Jogadores e técnicos discutiram exatamente isso durante a Copa: as pausas quebram o ritmo e oferecem oportunidades extras de reorganização.
Mas a americanização não parou aí. A final terá show no intervalo, porque aparentemente a final da Copa do Mundo — um evento que já mobiliza bilhões de pessoas sem precisar de absolutamente mais nada — precisava descobrir que queria ser o Super Bowl. E, numa cereja tão perfeita que parece sátira, a FIFA decidiu ainda entregar aos campeões anéis no estilo das grandes ligas esportivas americanas. Não falta muito para alguém sugerir cheerleaders atrás dos gols e um Kiss Cam enquanto o VAR decide se houve impedimento.

No Brasil, até a maneira de assistir à Copa mudou definitivamente. A televisão já vinha perdendo havia muito tempo o monopólio emocional que teve sobre o torneio, mas a CazéTV consolidou outra linguagem: transmissão online, informalidade absoluta, gritos, palavrões, influenciadores, reações e a sensação permanente de que estamos numa enorme mesa de bar digital. Isso pode ser divertido e obviamente encontrou um público gigantesco. O que me incomodou profundamente foi outra coisa: a presença quase sufocante das apostas.
Não foi apenas uma impressão de quem sentiu que havia uma bet sendo oferecida a cada fração de segundo. O Conar chegou a determinar a suspensão de publicidade considerada abusiva durante as transmissões da CazéTV, enquanto o Ministério da Justiça ampliou o monitoramento da publicidade de apostas nas transmissões da Copa. Há algo profundamente perturbador em assistir a um esporte ser narrado simultaneamente como competição e oportunidade permanente de apostar dinheiro sobre o que acontecerá nos próximos minutos.
E então chegamos ao ponto que mais contaminou minha relação com esta Copa: a arbitragem e o VAR.
Não preciso acreditar numa conspiração organizada para achar absolutamente repulsiva a quantidade de decisões controversas que cercaram a Argentina até a final. A seleção argentina é excelente. Lionel Messi continua sendo Lionel Messi aos 39 anos. Justamente por isso, talvez seja ainda pior que sua campanha tenha sido acompanhada por uma sucessão de episódios que permitiram que surgisse até o apelido “VARgentina”. Houve reclamações formais de adversários, decisões discutidas contra o Egito e a Suíça e uma expulsão extremamente controversa de Breel Embolo quando o jogo ainda estava em disputa. A própria imprensa internacional passou a tratar a percepção de favorecimento como uma das grandes narrativas do torneio.
O episódio de Messi contra a Argélia foi especialmente revoltante. Ele pisou na panturrilha de Aïssa Mandi em um lance que não resultou em expulsão, provocando uma reclamação formal da federação argelina à FIFA. Podemos discutir intenção, intensidade e interpretação até amanhã. O que não dá para ignorar é a sensação de dois pesos e duas medidas quando vemos outros jogadores expulsos depois de análises milimétricas do VAR enquanto um lance envolvendo o maior astro da competição simplesmente segue adiante.

A pior interferência, porém, talvez nem tenha vindo de um árbitro. Donald Trump conseguiu transformar a Copa também em extensão de seu próprio espetáculo político. Pressionou publicamente pela revisão da suspensão do americano Folarin Balogun depois de uma expulsão, a punição acabou suspensa e o episódio gerou questionamentos formais sobre a independência política da FIFA e o papel de Gianni Infantino. Depois, Trump ainda comemorou publicamente a decisão ao lado do presidente da entidade. Um chefe de Estado interferir publicamente numa questão disciplinar da seleção de seu próprio país e depois ver a decisão revertida deveria ser tratado como algo extraordinariamente grave, independentemente de qual país estivesse envolvido.
Talvez por isso eu tenha sentido um prazer especialmente mesquinho quando a França caiu. Desculpem, franceses, mas bem feito. Chegaram como uma das grandes favoritas, foram tratadas em determinado momento como um espetáculo ofensivo comparável até ao Brasil de 1982 e acabaram eliminadas pela Espanha na semifinal. Que 2026 seja o 1982 deles: podem passar os próximos 44 anos explicando que tinham um dos melhores times do mundo e deveriam ter sido campeões. Nós entendemos perfeitamente como funciona.

Tá, talvez seja injusto chamar 2026 simplesmente de pior Copa de todas. Teve zebras, personagens improváveis, torcidas maravilhosas e aquele mecanismo único que só uma Copa consegue produzir, quando de repente nos importamos profundamente com um goleiro de um país que talvez metade do mundo nem soubesse localizar no mapa semanas antes. Meu problema é que nunca senti tanto que tudo isso precisava disputar espaço com o produto criado para vendê-lo.
Foram 48 seleções, 104 jogos, pausas transformadas em timeouts, bets invadindo a transmissão, VAR interferindo quando quer e desaparecendo quando convém, política entrando em campo, anéis de campeão e finalmente um show de intervalo porque, aparentemente, nem a final da Copa do Mundo é mais suficiente por si só.
Talvez 2026 tenha sido um gigantesco sucesso comercial. Talvez bata recordes de audiência, arrecadação, engajamento e todas as palavras que aparecem maravilhosamente bem em apresentações de PowerPoint. Mas uma Copa do Mundo nunca precisou ser melhorada dessa maneira porque já era o maior espetáculo do planeta. O erro foi achar que precisava virar outra coisa.
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