Existe algo quase desesperadamente ambicioso no primeiro trailer completo de Avengers: Doomsday. Depois de anos tentando convencer o público de que dezenas de novos personagens, séries, universos paralelos e continuações ainda faziam parte de uma grande história, a Marvel aparentemente resolveu simplificar a estratégia: chamou todo mundo.
E quando digo todo mundo, é quase literalmente isso.

Thor está lá. Steve Rogers está de volta. Há Shang-Chi, Yelena Belova e os novos Vingadores de Thunderbolts, Wakanda, Namor, o Quarteto Fantástico e, porque isso ainda não parecia suficiente, os X-Men que conhecemos dos filmes produzidos pela Fox, com Patrick Stewart novamente como Charles Xavier e Ian McKellen como Magneto. Tudo sob a ameaça do Doutor Destino de Robert Downey Jr., justamente o homem cujo Tony Stark sustentou emocionalmente o MCU durante sua fase de maior sucesso.
É difícil imaginar uma declaração de intenções mais clara: a Marvel quer que Doomsday pareça novamente indispensável.

Durante a chamada Saga do Infinito, isso aconteceu de forma quase orgânica. Os Avengers deixaram de ser simplesmente uma série de filmes para se transformar em ponto de encontro. Você podia preferir Capitão América, Thor ou Homem de Ferro, mas quando os Vingadores se reuniam havia a sensação de que alguma coisa importante aconteceria. Depois de Endgame, essa urgência se perdeu.
Não necessariamente porque a Marvel tenha parado de produzir bons filmes. O problema foi outro: o universo cresceu tanto que começou a se fragmentar. Surgiram novos heróis, novas equipes, séries no streaming, dimensões, linhas temporais e versões alternativas de personagens, mas ficou cada vez mais difícil responder à pergunta mais básica de qualquer narrativa compartilhada: para onde estamos indo?
Doomsday parece querer responder de maneira bastante simples: estamos indo todos para o mesmo lugar.
O trailer começa com Charles Xavier alertando que algo está chegando e que, antes do fim daquele dia, os personagens terão de enfrentar uma “decisão impensável”. O vilão é Victor von Doom, cuja escala da ameaça parece suficiente para colocar universos inteiros em rota de colisão. Kevin Feige já explicou que a história explora justamente o encontro entre diferentes Terras e cronologias, permitindo que personagens de franquias distintas finalmente coexistam.
Naturalmente, eles primeiro parecem dispostos a lutar uns contra os outros.

Há algo muito Marvel nisso também. O trailer sugere conflitos entre X-Men, Quarteto Fantástico e as diferentes formações de Vingadores antes que todos percebam que existe um inimigo maior. Thor parece ser um dos poucos a compreender imediatamente a dimensão do problema. E quando admite que precisarão de um milagre, quem aparece?
Steve Rogers.
Chris Evans retorna a um universo que aparentemente já havia deixado para trás em Endgame, e sua presença tem um peso que vai muito além do personagem. Steve é memória afetiva. Assim como Patrick Stewart. Assim como Ian McKellen. E, evidentemente, assim como Robert Downey Jr., ainda que agora do outro lado da batalha. É exatamente aí que Doomsday revela sua arma mais poderosa, e também seu maior risco.: nostalgia.
A Marvel não está apenas reunindo personagens. Está reunindo lembranças. Os fãs que chegaram pelo primeiro X-Men, em 2000, encontram seus atores. Quem acompanhou o MCU desde Homem de Ferro, em 2008, reencontra Downey e Evans. Quem entrou depois tem Shang-Chi, Yelena, Sam Wilson e o novo Quarteto Fantástico. É uma estratégia praticamente impossível de ignorar, mas reunir todos não é o mesmo que contar uma boa história.
Infinity War e Endgame funcionaram não apenas porque tinham dezenas de personagens. Funcionaram porque havia anos de relações, perdas e conflitos por trás de cada encontro. Quando Steve Rogers e Tony Stark se olhavam, nós sabíamos o peso daquele silêncio.
Doomsday agora terá que fazer algo ainda mais difícil: transformar personagens de universos diferentes em uma história que pareça emocionalmente inevitável, e não apenas uma enorme fotografia de classe da Marvel.

Os irmãos Russo sabem administrar multidões melhor do que quase qualquer diretor que tenha passado pelo MCU. Ainda assim, o primeiro trailer deixa uma pergunta inevitável.
Quando você precisa convocar Vingadores, X-Men, Quarteto Fantástico, Wakandanos, Thunderbolts e Robert Downey Jr. para recuperar a atenção do público, talvez o maior adversário da Marvel não seja exatamente Doutor Destino.
É a expectativa de voltar a ser o que já foi e essa talvez seja uma batalha ainda mais difícil de vencer.
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