Depois de tantos anos, chegou o dia para se despedir de Ser Criston Cole em House of the Dragon. Tudo o que a série vem construindo nesta terceira temporada aponta para o fim do Kingmaker, com o Butcher’s Ball finalmente à nossa frente. Para quem leu Fire & Blood, sua morte nunca foi exatamente um mistério. O mais interessante, agora que chegamos até ela, é olhar para trás e perceber o quanto o homem que vai morrer nas telas é diferente daquele que George R.R. Martin deixou nas páginas. Não necessariamente porque a série tenha mudado seu destino, mas porque decidiu explicar Criston Cole. Talvez até demais.
A ascensão de um homem de origem comum
Já cobrimos as diferenças de Fire & Blood e House of the Dragon, em artigos mais antigos aqui em Miscelana (clique aqui e aqui). Ser Criston é uma figura fascinante nas páginas justamente porque nunca conseguimos compreendê-lo completamente e quase tudo no livro, sua história chega por relatos contraditórios. Não sabemos suas motivações, apenas que nutre um ódio visceral à Rhaenyra, de quem um dia foi próximo, e é um dos mais ativos adversários dos pretos, provocando muitas derrotas e mortes do lado da rainha.
Vale lembrar, como ele fez no episódio 5 da terceira temporada, em uma conversa com Gwayne Hightower, que ele é de Dorne, que seu pai foi intendente de Lord Dondarrion e que, por isso, é de origem comum. Chegou à corte sem um grande sobrenome para protegê-lo e foi apenas sua habilidade que o colocou diante dos Targaryen, quando chamou a atenção de Rhaenyra em um torneio e foi escolhido como guarda pessoal da Princesa. Em uma história dominada por homens que herdaram poder, Criston conquistou o seu, mas foi sempre lembrado do que não era, tanto pelos Verdes como os Pretos.

A semente do ódio
Sua relação com Rhaenyra, sugerida no livro, foi esclarecida na série: ela o seduziu e passaram uma noite juntos, mas, quando Criston quis que ela deixasse tudo para se casar com ele, foi rejeitado. Como quebrou o voto de castidade da Guarda Real, algo que para ele tinha um peso muito maior do que uma simples aventura amorosa justamente porque vem de origem modesta, sem terras ou grande nome, sua honra de cavaleiro era praticamente tudo o que possuía e o desprezo de Rhaenyra teve peso duplo.
Fugir com Rhaenyra seria, em sua cabeça, uma maneira de dar algum sentido ao sacrifício que acabara de fazer, mas ficou diante da certeza de que rompeu seus votos por uma relação que, para ela, não tinha relevância alguma.
Essa humilhação pessoal escala para convicção política quando a oportunidade de colocar Aegon II no trono surge. Tirar Rhaenyra do trono é uma vingança pessoal que mescla misoginia, orgulho ferido, fé cega e, eventualmente, simples ambição. Vê-la sofrer e perder tudo repararia a injustiça que sofreu (mesmo que apenas Alicent saiba da verdade).
A indiferença faz a tragédia de Ser Cole ser mais dolorida
Curiosamente, vemos Ser Criston nutrindo seu ressentimento por Rhaenyra ao longo de mais de 10 anos, mas jamais a vemos citar seu nome ou sequer lançar um olhar para ele. De todos que a fazem sofrer, é como se Rhaneyra nem lembrasse que Cole existe. Ela teve três filhos com Ser Harwin Strong, outros dois com Daemon Targaryen, e em nenhum momento para para pensar que o amante de uma noite apenas tenha motivação para querer seu mal.
Não é claro se isso é deliberado em House of the Dragon, mas nem isso ajuda ao público a simpatizar com o homem rancoroso e invejoso que fala mal de uma Rainha que nem lembra de sua existência. Ser Criston treinou pessoalmente Aegon II e Aemond para lutarem e baterem nos sobrinhos, Lucaerys e Jacaerys, uma atitude covarde e mesquinha que era obvia, mas que Viserys ignorava e Alicent gostava. Para os fãs: Ser Criston se tornou o símbolo do homem tóxico, sem nenhuma característica que minimamente o ajudasse a ser visto com outros olhos. Apenas Alicent conhecia sua versão e concordava com ela. Logo Ser Criston Cole se tornou um dos personagens mais detestados da série e sua morte uma das mais esperadas também.


Fabien Frankel chegou a brincar, antes da terceira temporada, que os roteiristas queriam mantê-lo “unlikable”. Quando Olivia Cooke tentou argumentar que a série mostrava outros lados de Criston, o ator ironizou as escolhas de Ryan Condal e Sara Hess, sugerindo que momentos capazes de humanizá-lo nem sempre sobreviveram à montagem. Não deixa de ser revelador que o próprio intérprete tenha percebido algo que acompanhou o personagem por três temporadas: quase sempre que Criston tinha a oportunidade de ganhar alguma empatia, a história encontrava uma maneira de lembrá-lo — e de nos lembrar — de por que deveríamos odiá-lo.
A trajetória de um vilão
Ao ser colocado como ‘vilão’, Ser Criston também acabou se deslocando para desagradar pessoas do lado dos Verdes. Otto Hightower, por exemplo, perdeu sua posição de Mão para ele, mas declarou claramente que o considerava incompetente.
O fato é que falta à série o peso e a fama de Ser Criston como comandante e adversário. Ele quase conseguiu matar Rhaenyra na segunda temporada, ao colocar os gêmeos Arryk e Erryk Cargyll um contra o outro, provocando uma as tragédias mais lamentadas da saga. Também planejou a armadilha que custou a vida de Rhaenys, mas outras vitórias estratégicas ficaram mais diluídas, assim como sua ausência em King’s Landing ou efetiva presença nos combates entre Verdes e Pretos. Isso tem sido de alguma forma mostrado agora, mas eu considerei essa a maior falha com o personagem.
Embora Frankel faça piada da aversão do público à Cole, a série fez uma tentativa de humanizá-lo sim, porém os fãs não compraram. Ser Criston é a testemunha chave de que Aemond deliberadamente quis matar Aegon em Rook’s Rest e sua decepção diante da destruição moral e física da guerra, entra em um espiral depressivo e suicida. Ele deixa King’s Landing acompanhado de Gwayne Hightower, mas sabe que jamais voltará à capital com vida, se despedindo de Alicent com essa clareza no coração.


Um amor improvável e apenas das telas
O triângulo amoroso não explorado em House of the Dragon nasceu na 1ª temporada: Rhaenyra e Alicent se encantaram com Ser Criston, mas a Princesa teve “prioridade” justamente por sua posição.
Alicent, sempre obediente, foi praticamente vendida a Viserys, que era mais de 30 anos mais velho e que se tornou seu marido. Como Rainha, mesmo infeliz sexualmente, não tinha espaço (ou vontade) de buscar outros homens, com isso ela partilhou com ele o nojo e a inveja de ver Rhaenyra descartar as regras e viver sua vida sem lidar com as consequências. A princípio, Alicent acredita na amiga-enteada quando ela alega inocência das fofocas sobre sua virgindade, tanto que em uma última chance, questiona Ser Criston sobre o fato. Ela pensava que ele teria sido testemunha de Rhaenyra e Daemon, mas descobre que foi ainda pior: Ser Criston era o amante secreto.
Tudo isso uniu a dupla na missão de desmascarar Rhaenyra publicamente. Depois da morte de Viserys, eventualmente, Alicent e Cole se tornam amantes. É incerto como e quando os dois passaram a dormir juntos, mas quando Jahaerys (filho de Aegon e Helaena) é assassinado como vingaça de Lucaerys, eles já eram um casal. Tão obvio para nós quanto para todos no reino.
Ou seja: passou anos atacando moralmente a mulher com quem havia quebrado seus próprios votos apenas para tornar amante da rainha viúva e consolidar a hiprocrisia da dupla. O cavaleiro obcecado por honra violava e a Rainha que ditava a moral, eram simplesmente movidos por ciúme e inveja.

A questão é que essa dicotomia não foi desenvolvida ou explorada para nenhum dos lados. O Criston Cole do livro é mais inquietante porque não conseguimos encaixá-lo facilmente enquanto o da série é muito mais legível. Até suas verdadeiras razões para apoiar Aegon II permanecem em aberto nas páginas.
Há quem atribua sua escolha à ambição e à percepção de que Aegon seria um rei mais fácil de controlar; outros veem a rejeição de Rhaenyra como a origem pessoal de sua oposição. Há ainda quem atribua a Criston uma convicção política genuína, baseada na tradição sucessória que favorecia filhos homens, ou na recusa em aceitar que os filhos de Rhaenyra, que ele acreditava serem bastardos Strong, herdassem o Trono de Ferro. Talvez todas essas coisas fossem verdade ao mesmo tempo. Talvez nenhuma explique tudo. E é justamente essa dúvida que torna o personagem do livro tão mais difícil de decifrar.
House of the Dragon diminuiu algo fundamental: o Kingmaker.
Esse apelido deveria dizer tudo sobre sua importância histórica de Ser Criston Cole. Ele entra para história em Westeros como o homem que participa diretamente da ascensão de Aegon II, torna-se Lorde Comandante da Guarda Real, Mão do Rei e comandante dos exércitos Verdes. Seu nome fica ligado à própria fabricação de um rei e, portanto, à guerra que destrói a família Targaryen.
Nas telas, entretanto, “Kingmaker” nunca teve o peso que poderia ter tido. A política frequentemente perdeu espaço para o emocional e não por uma combinação mais interessante de classe, ambição, honra, misoginia, convicção e desejo de poder. É uma pena porque Criston tinha tudo para ser um dos personagens mais complexos da série.
Essa redução pesa ainda mais quando lembramos que, no livro, Criston demonstra uma leitura militar que muitas vezes falta aos próprios Targaryen que comanda. Depois da tomada de King’s Landing pelos Pretos e das derrotas sofridas pelos Verdes nas Terras Fluviais, é ele quem aconselha Aemond a abandonar Harrenhal e marchar para o sul, unindo seu exército às forças de Ormund Hightower e Daeron. Aemond se recusa, prefere usar Vhagar para incendiar as Terras Fluviais e deixa Criston cada vez mais isolado. Ou seja, o homem que a série frequentemente tratou como impulsivo e pouco brilhante tinha, nas páginas, uma percepção bastante clara de que aquela guerra não seria vencida apenas com um dragão.

O que restou foi um homem que viu de perto o que uma guerra com dragões realmente significa, que acreditava dominar o campo de batalha e que descobriu que sua espada é quase inútil quando criaturas gigantescas podem transformar homens e cavalos em cinzas em segundos. Na terceira temporada, essa consciência parece ter virado fatalismo.
O encontro com a morte
Na véspera de sua despedida, vemos Ser Criston cercado por uma guerra que já não controla, enfrentando as forças das Terras Fluviais e os Winter Wolves, e ciente de que está marchando para a própria morte. Gwayne percebe o caráter suicida de sua decisão e tenta dissuadi-lo, mas a alternativa para Ser Criston é mais uma vez “servir” e não quer mais essa limitação. Ele parece ter Alicent no coração e pensa nela, mas não quer tentar viver.
Assim, Butcher’s Ball deve deixar de ser apenas uma batalha e passa a funcionar quase como algo que Criston procura. Frankel descreveu o confronto como uma luta mais isolada e particular, bem diferente do espetáculo de outras grandes batalhas da temporada. É provavelmente a versão mais interessante de Criston Cole que vimos desde a primeira temporada e talvez essa seja a maior ironia de sua despedida.
A série passou anos tornando Criston fácil de odiar e começa a devolver alguma complexidade a ele justamente quando não há mais tempo para explorá-la.

No livro, seu fim é cruel justamente porque lhe nega até a morte que gostaria de ter. No Butcher’s Ball, cercado e sem saída depois de uma marcha em que seu exército foi sistematicamente enfraquecido, Criston primeiro oferece sua rendição em troca da vida de seus homens. A proposta é recusada. Só então desafia os três comandantes inimigos para um combate, numa última tentativa de decidir sozinho o desfecho. Eles também lhe negam isso. Não haverá duelo épico, gesto heroico ou oportunidade de transformar sua morte em lenda. Robb Rivers e seus arqueiros o derrubam com três flechas, e sua cabeça acaba carregada em uma lança. O Kingmaker, um homem que ajudou a decidir quem usaria a coroa, não consegue decidir nem como morrerá.
É um final perfeito para o personagem do livro. Resta saber se será igualmente poderoso para o personagem da série.
É o que temos
Fabien Frankel fez um ótimo trabalho com o material que recebeu, especialmente porque Criston poderia facilmente ter se tornado uma caricatura. No fim, a própria história de Westeros se lembra de Criston Cole como alguém que reuniu alguns dos melhores e dos piores aspectos da Guarda Real. A série, ao contrário, parece ter se interessado muito mais pelos piores.
Agora que Criston Cole está prestes a sair de House of the Dragon, não sei se sentirei falta dele. E isso, para um personagem tão importante na história da Dança dos Dragões, talvez seja a crítica mais dura que se possa fazer. Vou sentir falta, porém, do personagem que ele poderia ter sido.
Porque o homem que nas páginas ficou conhecido para sempre como Kingmaker chega à despedida nas telas conhecido principalmente como aquele que todos aprenderam a odiar. E talvez seja justamente aí que House of the Dragon tenha vencido e perdido ao mesmo tempo: conseguiu tornar Criston Cole inesquecivelmente detestável, mas nunca tão fascinante quanto o enigma que encontrou no livro.
Será que Rhaenyra vai lembrar dele quando souber de sua morte?
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