Dizem que o Brasil acabou. Então por que ninguém consegue seguir em frente?

Há uma frase frequentemente atribuída a Freud segundo a qual, quando Pedro fala de Paulo, acabamos sabendo mais sobre Pedro do que sobre Paulo. A autoria é discutível, mas a ideia continua irresistível quando aplicada ao futebol, especialmente numa Copa em que o Brasil foi eliminado cedo, passou longe da final e, ainda assim, continuou aparecendo nas provocações, nas comparações e até no imaginário do espetáculo.

Todo mundo parece ter alguma coisa a dizer sobre o Brasil. Os japoneses provocaram, Mbappé falou, a torcida argentina canta sobre nós há anos e, nesta Copa de 2026, um jornalista escocês foi além e praticamente decretou a morte do futebol brasileiro. Talvez ele tenha algum argumento, porque o Brasil não ganha uma Copa do Mundo desde 2002. São 24 anos, quase um quarto de século. Neste torneio, fomos eliminados nas oitavas de final, já não assustamos adversários simplesmente entrando em campo de amarelo e a sexta estrela deixou de ser uma expectativa natural para virar uma promessa cada vez mais distante.

Toda eliminação brasileira parece produzir um novo obituário. O Brasil acabou, vive do passado, virou mais marca do que potência esportiva, o jogo bonito é nostalgia, Pelé pertence a outro século e Ronaldo e Ronaldinho representam uma geração que não voltou. Parte dessa crítica é justa. O Brasil passou anos oferecendo razões de sobra para que o mundo se perguntasse o que aconteceu com o nosso futebol. Mas existe uma contradição curiosa nisso tudo: para alguma coisa supostamente morta, o Brasil ocupa um espaço extraordinário no imaginário dos outros.

É aí que a Argentina se torna especialmente interessante, embora esteja longe de ser a única. A torcida argentina continua cantando sobre o Brasil, provocando o Brasil, comparando Messi e Maradona a Pelé, lembrando nossas derrotas e usando a Seleção como medida para a própria grandeza. E tem todo o direito de celebrar uma superioridade recente. O Brasil lhes deu munição de sobra. Só que rival não é qualquer adversário. Rival é aquele cuja derrota torna sua vitória maior, aquele que você precisa superar para confirmar quem acredita ser. E, aparentemente, o Brasil ainda cumpre essa função.

O final da Copa de 2026 ofereceu uma imagem quase perfeita dessa contradição. O Brasil havia sido eliminado duas semanas antes, Argentina e Espanha disputavam o título e, esportivamente, não havia mais razão alguma para que o Brasil importasse. Mesmo assim, Pelé apareceu no telão, enquanto Ronaldo e Ronaldinho surgiram em um dos maiores momentos do espetáculo mundial.

Por alguns minutos, numa final de Copa em que o Brasil nem estava jogando, o imaginário mundial do futebol voltou a falar português. E aí vem a pergunta inevitavelmente maldosa: cadê Maradona? Cadê os grandes ícones das outras potências ocupando aquele mesmo espaço simbólico?

É justamente aí que todas essas declarações sobre o “fim” do Brasil ficam interessantes, porque talvez estejam confundindo duas coisas completamente diferentes. O Brasil pode não ser mais a melhor seleção do mundo, evidentemente não é, e não é há décadas. A Argentina teve argumentos esportivos recentes muito mais fortes, a França construiu uma geração extraordinária, a Espanha voltou ao topo e outros países se modernizaram, formaram jogadores e alcançaram ou ultrapassaram um Brasil que muitas vezes parece preso entre nostalgia e improvisação. Mas existe uma diferença entre ser o melhor agora e ocupar o imaginário de um esporte inteiro.

Pelé não é apenas um ex-jogador brasileiro. Ronaldo e Ronaldinho não são simplesmente campeões aposentados. A camisa amarela, o futebol ofensivo, o carnaval, a música e a ideia romantizada do jogo bonito criaram uma iconografia que há muito deixou de pertencer apenas ao Brasil e passou a fazer parte do próprio futebol.

Talvez seja por isso que o Japão possa provocar o Brasil, que Mbappé possa invocar o Brasil, que um jornalista escocês possa declarar que o Brasil acabou e que a torcida argentina possa cantar sobre nós mesmos mesmo quando é a Argentina que está vencendo. Para dizer que o Brasil caiu, primeiro é preciso reconhecer de onde caiu. E, para celebrar que ultrapassou o Brasil, ainda é preciso usar o Brasil como medida.

Há uma ironia difícil de ignorar: mesmo quando perde, o Brasil continua dentro da conversa dos outros, nas provocações, nas comparações, nos obituários e nas comemorações. O futebol vive anunciando que o Brasil acabou enquanto volta repetidamente ao Brasil para explicar como era a grandeza.

E, antes que alguém aponte a contradição, sim, a regra vale para mim também. Se estou escrevendo sobre o quanto todos falam do Brasil, provavelmente estou revelando alguma coisa sobre nós e sobre mim. Rivalidades funcionam assim; nostalgia também. Ninguém olha tanto para o outro sem encontrar, de algum modo, o próprio reflexo. Mas talvez esse reflexo, por si só, já diga alguma coisa.

Não somos mais os melhores. Somos a referência. E, desculpa aê, às vezes isso dura muito mais do que uma Copa.


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