O quinto episódio da terceira temporada de House of the Dragon, “Unbowed and Unbent”, faz algo curioso depois da destruição e das reviravoltas das semanas anteriores: diminui novamente a presença dos dragões para mostrar o estrago deixado por eles. Não é exatamente um episódio parado, embora em alguns momentos pareça andar em círculos. É, acima de tudo, uma hora sobre consequências. Criston Cole finalmente entende a guerra que ajudou a começar, Rhaenyra descobre que conquistar Porto Real era talvez mais fácil do que governá-la, Aegon e Aemond tentam voltar dos mortos à sua maneira e Ormund Hightower confirma que não precisa de um dragão para ser um dos homens mais perigosos de Westeros.
O episódio começa nas Terras Fluviais, onde Oscar Tully, Roderick Dustin, o Roddy the Ruin, e Petyr Piper tentam conduzir o exército de Rhaenyra para o sul. Criston Cole, porém, transformou sua pequena força em um grupo de guerrilha e passou a atacar acampamentos, destruir suprimentos e desaparecer antes que os adversários conseguissem reagir. Petyr Piper está entre as vítimas da emboscada, e a guerra que até pouco tempo parecia depender exclusivamente de dragões volta a ser lembrada por aquilo que sempre foi para a maioria dos homens de Westeros: lama, sangue e morte sem qualquer glamour.

Oscar percebe rapidamente que perseguir Criston da maneira convencional apenas permitirá que ele continue controlando o ritmo da marcha. Se Cole quer guerrilha, terá guerrilha. A solução é simples e eficiente: espalhar caltrops, pequenas peças metálicas pontiagudas, pelo caminho usado pela cavalaria Verde. Os cavalos caem, vários precisam ser sacrificados e Criston e Gwayne Hightower são obrigados a continuar a marcha a pé. A vantagem de mobilidade que mantinha o grupo à frente desaparece de uma vez.
Enquanto isso, em Harrenhal, Aemond finalmente desperta depois de passar boa parte dos últimos episódios entre a vida e a morte. Acorda atormentado por pesadelos em que Aegon aparece queimado e o arrasta para a culpa que ele continua tentando negar. Também descobre que Vhagar desapareceu. Para um homem que construiu boa parte da própria identidade em torno do fato de montar o maior dragão vivo, ficar sem ela é quase voltar a ser o menino que perdeu um olho e precisava provar constantemente que não era fraco.
Alys Rivers continua cuidando dele e, ao mesmo tempo, impedindo que homens interessados na recompensa oferecida por Rhaenyra descubram que o príncipe está escondido em Harrenhal. A relação entre os dois finalmente começa a adquirir a forma que conhecemos de Fire & Blood, embora a série acrescente uma camada bastante evidente de dependência emocional. Aemond fala da mãe, de Aegon, da sensação de sempre ter sido menos amado e, pela primeira vez em muito tempo, aceita ser cuidado. O guerreiro que nunca precisava de ninguém aparece encolhido junto a Alys quase como uma criança.

Do outro lado de Westeros, Aegon também continua obcecado pelo irmão. Ele e Larys seguem perseguindo rumores sobre aparições de Vhagar, numa busca que começa a deixar até Larys sem paciência. Aegon culpa Aemond por praticamente tudo o que aconteceu com ele e transforma a vingança em único projeto de vida, até que Larys finalmente diz aquilo que ninguém ousava dizer quando ele ainda ocupava o Trono de Ferro: Aegon teve todas as oportunidades possíveis, nasceu como filho de um rei, recebeu educação, treinamento, privilégios e até Sunfyre. Poderia ter sido grande e desperdiçou quase tudo. Curiosamente, Aegon escuta.
Derrotado, ferido e aparentemente sem alternativa, ele acaba aceitando retomar o plano original de Larys: fugir para Essos, desaparecer durante algum tempo e esperar que a guerra destrua os outros antes de tentar voltar. O plano muda novamente quando alguém que acreditávamos perdido reaparece. Tyland Lannister sobreviveu à Batalha da Goela.
Depois de ter sido jogado ao mar por Sharako Lohar, ele conseguiu chegar vivo ao continente e encontrou Aegon e Larys. Sua volta é especialmente importante porque Tyland continua sendo um dos poucos homens que sabem onde parte do dinheiro da Coroa foi escondida antes da tomada de Porto Real. Em vez de Essos, ele sugere que Aegon procure proteção em Lannisporto, onde teria apoio dos Lannister e estaria muito menos exposto.

Em Porto Real, Rhaenyra continua descobrindo que todo problema resolvido imediatamente cria outros dois. Joffrey finalmente retorna do Vale e agora é oficialmente seu herdeiro depois das mortes de Luke e Jace. É um momento que deveria aproximar mãe e filho, mas Rhaenyra simplesmente não consegue enfrentá-lo. Quando finalmente vai até seus aposentos, espera que ele esteja dormindo. A cena é pequena, mas diz muito. Receber Joffrey significa admitir definitivamente que Jace morreu. Rhaenyra consegue enfrentar exércitos, dragões e conselhos hostis, mas continua evitando o próprio luto.
Ela também recebe Lady Sabitha Frey e surge mais uma conta deixada por Jace. Para permitir a passagem dos exércitos do Norte pelas Gêmeas, ele prometeu Harrenhal aos Frey. O problema é que Rhaenyra acaba de oferecer exatamente o mesmo castelo como recompensa para quem entregar Aemond.
Quando Sabitha cobra o acordo, Rhaenyra praticamente responde que Jace morreu e suas promessas morreram com ele. É uma solução politicamente perigosa, principalmente porque os Frey cumpriram sua parte. Em compensação, Sabitha ganha um lugar no Conselho. Mais uma vez, Rhaenyra resolve um problema criando outro, algo que começa a se transformar em padrão desde que assumiu o Trono de Ferro.
Dentro da Fortaleza Vermelha, Alicent tenta resolver outro problema antes que ele se torne impossível de esconder. A gravidez de Helaena está confirmada, e Alicent pede ao Grande Meistre Orwyle a famosa moon tea para interrompê-la.
Para Alicent, existe uma lógica política evidente. Se Helaena tiver um menino, haverá mais um herdeiro Targaryen capaz de ser usado pelos Verdes. Para Helaena, porém, não existe qualquer discussão. Depois de perder Jaehaerys, ela se recusa a abrir mão de outro filho.


Quando Mysaria percebe que o chá foi levado aos aposentos, Alicent precisa beber a poção para fingir que era destinada a ela e afastar as suspeitas. É uma solução temporária porque Mysaria, evidentemente, já percebeu que alguma coisa está sendo escondida.
Em Tumbleton, Ormund Hightower continua seu projeto particular de transformar Daeron em rei.
Os dois jogam cyvasse enquanto Ormund fala sobre Meria Martell e sobre como Dorne conseguiu resistir até mesmo aos dragões de Aegon, o Conquistador. Daeron pergunta se Meria deveria ser considerada heroína ou vilã pelo que fez, e percebe imediatamente que está entrando em terreno perigoso. A relação entre os dois continua sendo uma das coisas mais interessantes desta temporada. Daeron respeita Ormund, teme Ormund e está sendo moldado por ele, mas já começa a mostrar que não é apenas um menino obediente.
No próprio jogo, Daeron vence o primo usando justamente a peça do dragão. Ormund reage mal à derrota, derruba o tabuleiro, mas transforma até aquilo numa lição: Daeron não deve pedir desculpas por vencer.

Então vemos até onde o projeto chegou. Ormund já mandou cunhar moedas com a imagem do protegido como rei. Não é mais apenas a ideia de substituir Aegon ou Aemond caso seja necessário. Existe uma campanha concreta para apresentar Daeron como uma alternativa ao Trono de Ferro. E ela já começou em Porto Real.
Dois integrantes da Patrulha da Cidade aparecem assassinados nas ruas. Daemon percebe imediatamente que não se trata apenas de violência aleatória, sobretudo depois da repressão promovida por Luthor Largent contra quem espalhava mensagens contra Rhaenyra.
A rainha, porém, continua muito mais preocupada com Aemond e Vhagar. Os corpos aumentam. Dois viram quatro. Depois seis.
Daemon insiste que existe alguma coisa organizada acontecendo dentro da cidade, mas Rhaenyra quer que ele saia em busca de Vhagar. A discussão entre os dois deixa claro mais uma vez como enxergam ameaças de maneiras completamente diferentes. Ela olha para o maior dragão do mundo. Ele olha para homens mortos em becos.
Nas Terras Fluviais, Criston e Gwayne descobrem que a situação está muito pior do que imaginavam. Sem cavalos, atravessam florestas, pântanos e terrenos infestados de sanguessugas enquanto seus homens começam a morrer de exaustão ou a cogitar deserção. Gwayne tenta convencer Criston a desistir daquela perseguição e seguir para Tumbleton, onde poderiam se juntar a Ormund e reorganizar as forças Verdes.
Criston não quer.

Os dois têm uma conversa que finalmente explica onde o personagem chegou depois de tudo o que viveu desde Rook’s Rest. Gwayne oferece até a possibilidade de uma vida em Vilavelha, longe daquela guerra. Criston admite que passou a vida inteira servindo alguém. Primeiro Rhaenyra, depois Alicent, Aegon, Aemond, juramentos, famílias nobres e causas que mudavam conforme os interesses daqueles que estavam acima dele. Agora, pelo menos, quer escolher como terminar.
Ele ainda acredita ser o maior guerreiro do reino e quer morrer como tal.
Em Porto Real, Rhaenyra procura algum tipo de resposta no Grande Septo. Daemon a encontra ajoelhada diante das velas e os dois discutem em alto valiriano. Ele acha que ela está deixando a preocupação com rumores, bastardos, legitimidade e religião limitar decisões que deveriam ser simples. Rhaenyra, por outro lado, sabe que dragões podem conquistar uma cidade, mas não conseguem obrigar seus habitantes a aceitar quem governa. É justamente essa fragilidade que Ormund está explorando.
Os Gold Cloaks também estão furiosos porque, além de serem assassinados nas ruas, estão há semanas sem receber salários. Daemon precisa intervir antes que a própria Patrulha da Cidade entre em colapso. Promete que haverá dinheiro quando a guerra terminar e, sendo Daemon, transforma até salários atrasados numa visão grandiosa de expansão: depois dos Sete Reinos viria Dorne, depois talvez um novo império.
Ele consegue manter os homens sob controle. Por enquanto.

Alicent decide então tentar fugir com Helaena. As duas se disfarçam de criadas e tentam sair da Fortaleza Vermelha aproveitando a confusão na cidade, mas Mysaria as intercepta.
A cena entre Alicent e Mysaria é particularmente interessante porque Alicent não implora simplesmente pela liberdade. Ela lembra a antiga White Worm, uma coisa que Mysaria deveria conhecer melhor do que ninguém: informação é poder, alianças mudam e ninguém deveria apostar tudo numa única pessoa. E ela já foi informante de Otto Hightower.
Mysaria não entrega imediatamente a tentativa de fuga a Rhaenyra. É um detalhe pequeno, mas importante.
Nas Terras Fluviais, Oscar Tully vence definitivamente a disputa de estratégia com Criston. Quando os Verdes finalmente chegam ao cruzamento perto de Stoney Sept, descobrem que os homens de Rhaenyra já atravessaram o rio e destruíram a ponte atrás deles.
Criston perdeu. Gwayne insiste novamente que ainda existe uma saída: Tumbleton. Criston prefere ficar. Gwayne parte, enquanto Criston decide atravessar o rio com os homens que ainda o seguem e caminhar diretamente para uma batalha que sabe provavelmente não poderá vencer.
De volta a Harrenhal, Aemond começa finalmente a recuperar as forças. Homens entram no castelo procurando por ele e ameaçam Alys. Desta vez, o príncipe deixa a cama e mata os invasores, mesmo ainda ferido. O Aemond que parecia reduzido a uma figura quase infantil ao lado de Alys continua ali, mas o guerreiro está voltando. E Vhagar continua desaparecida.

Em Rook’s Rest, o plano de Aegon, Larys e Tyland quase termina antes mesmo de começar. Enquanto os três discutem o destino do antigo rei com pouca discrição, Janos encontra entre os pertences de Larys uma coroa de aço valiriano. Ele entende imediatamente quem está escondido ali. Aegon o mata pessoalmente e parece gostar.
É a primeira vez em algum tempo que vemos algo diferente no antigo rei. Não significa redenção, evidentemente. Aegon continua sendo Aegon. Mas aquele homem quebrado e quase passivo começa a desaparecer. Quando mata Janos para preservar seu segredo, existe novamente alguma coisa parecida com vontade de sobreviver e recuperar poder.
Enquanto isso, Daemon finalmente consegue uma pista concreta sobre os assassinatos em Porto Real. Um homem preso confessa ter participado da conspiração e diz agir em nome do verdadeiro rei.
Daemon o tortura. Entre os pagamentos recebidos pelo assassino aparece uma das novas moedas cunhadas com o rosto de Daeron e a ligação com Ormund finalmente fica clara.
Daemon leva a moeda até Rhaenyra e não perde a oportunidade de lembrar que talvez devessem ter eliminado Daeron quando tiveram chance. Enquanto Rhaenyra continuava concentrada em Aemond e Vhagar, Ormund estava construindo outra guerra praticamente dentro de Porto Real.
Helaena encontra então uma possível saída que ninguém havia percebido. Os gatos usados para controlar os ratos da Fortaleza Vermelha revelam a existência de uma passagem escondida nos aposentos onde ela e Alicent estão confinadas. As duas entram no túnel durante a noite, mas existe um problema: a saída está bloqueada. E, depois de fechar a passagem por onde entraram, mãe e filha ficam presas entre as paredes da Fortaleza Vermelha, no escuro.
Criston, enquanto isso, reúne os homens que decidiram permanecer com ele. Seu discurso final é menos sobre vitória do que sobre morte. Invoca os Sete, fala do Guerreiro, da Donzela, do Ferreiro, da Velha, da Mãe, do Pai e finalmente do Estranho, aquele que representa a morte. Criston sabe perfeitamente para onde está marchando.
Quem conhece Fire & Blood também sabe. Tudo aponta para o Butcher’s Ball.

Enquanto ouvimos sua voz, Daemon entra nos alojamentos da Patrulha da Cidade e percebe que existe alguma coisa errada. Não há ninguém respondendo, então encontra os corpos. Luthor Largent e seus Gold Cloaks foram assassinados e posicionados ao redor de uma mesa numa espécie de Última Ceia grotesca. Olhos arrancados, corpos mutilados, vísceras espalhadas.
Na parede, uma mensagem: “A Feast for Traitors”.
É assim que o episódio termina.
Ormund conseguiu transformar a própria Patrulha da Cidade de Rhaenyra em alvo, Daeron já circula simbolicamente como novo rei antes mesmo de reivindicar qualquer coroa, Alicent e Helaena estão desaparecidas dentro das paredes da Fortaleza Vermelha, Aemond está vivo sem Vhagar, Aegon está vivo quando todos acreditam que morreu e Criston marcha voluntariamente para aquilo que pode ser sua última batalha.
Depois de três temporadas discutindo quem deveria ocupar o Trono de Ferro, House of the Dragon parece finalmente entrar na parte mais cruel da história: aquela em que talvez já não importe quem merece governar.
A guerra começou a destruir todos antes mesmo de decidir quem venceu.
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