Entre mudanças de regras, discussões sobre arbitragem, suspeitas de favorecimento e, finalmente, uma cena lamentável de briga depois da decisão que manchou a despedida de uma campanha quase vitoriosa da Argentina, a Copa do Mundo de 2026 produziu assunto para todos os gostos. A FIFA, inclusive, abriu uma investigação disciplinar sobre a confusão ocorrida depois da vitória da Espanha sobre a Argentina na final.
Até a velha polarização política brasileira conseguiu entrar em campo. Desta vez, o sucesso extraordinário da CazéTV foi usado por muita gente para, mais uma vez, decretar a “derrota” da TV Globo. Dependendo do lado de onde se olhava, parecia quase uma versão midiática da própria final: a jovem e irreverente CazéTV facilmente escalada no papel da desafiante, enquanto a Globo ocupava o lugar do velho gigante que muitos queriam ver cair. É uma comparação divertida, mas os números não permitem que ela seja levada tão longe.
A Globo ainda teve um problema adicional que nenhuma estratégia de direitos esportivos poderia controlar: o desempenho da Seleção Brasileira. O Brasil foi eliminado pela Noruega por 2 a 1 já nas oitavas de final, em 5 de julho. Sem a Seleção justamente nas fases mais decisivas e valiosas do campeonato, a emissora perdeu seu maior motor de audiência duas semanas antes da final.
Foi então que uma decisão tomada anos antes ficou muito mais visível. Sem os jogos do Brasil para concentrar o público e sem os direitos de todas as partidas restantes, o brasileiro passou a encontrar algo que durante décadas parecia estranho: jogos importantes de Copa do Mundo que simplesmente não estavam na Globo. Nesse cenário, ganhou força uma narrativa fácil segundo a qual a CazéTV havia finalmente derrotado a emissora. A verdadeira história, porém, é muito mais interessante.

A Globo não perdeu os direitos. Ela abriu mão do antigo modelo
A ruptura começou durante a pandemia. Em 2020, em plena crise provocada pela Covid-19, a Globo entrou em disputa com a FIFA para renegociar seu contrato e conseguiu suspender judicialmente uma parcela de cerca de US$ 90 milhões. O acordo vigente era caríssimo e garantia à empresa um grau de exclusividade que, durante anos, transformou a Copa quase em propriedade cultural da emissora no Brasil. Globo e FIFA acabariam chegando a um acordo em 2021, mas aquela relação já não voltaria ao modelo anterior.
Quando a Globo renovou com a FIFA, em novembro de 2022, para o ciclo que incluía a Copa de 2026, o novo contrato já não previa a exclusividade absoluta em todas as plataformas. Em 2023, a empresa deixou clara sua nova estratégia: em vez de comprar o torneio inteiro, ficaria com aproximadamente metade dos jogos. O pacote final chegou a 55 partidas de uma Copa ampliada para 104.
Financeiramente, a decisão fazia sentido. Os direitos esportivos haviam se tornado cada vez mais caros, o consumo estava mudando e já não parecia racional pagar qualquer preço simplesmente para impedir que concorrentes transmitissem o mesmo conteúdo. O problema foi que, ao abandonar o monopólio, a Globo criou um espaço que outro grupo soube ocupar muito melhor do que talvez ela imaginasse.
Quem realmente está por trás da CazéTV?
É tentador contar essa história como a aventura de um streamer que saiu de casa falando de futebol e derrotou uma gigante da televisão, mas essa é apenas uma parte da história. Casimiro Miguel é, sem dúvida, o rosto, a voz e a personalidade que tornaram a CazéTV reconhecível. A linguagem informal, o humor, a sensação de estar assistindo ao jogo ao lado de amigos e a relação direta com uma geração criada no YouTube e nas redes sociais são fundamentais para explicar o fenômeno.
Por trás dessa linguagem aparentemente espontânea, porém, existe uma sofisticada empresa de mídia esportiva: a LiveMode. Fundada em 2017 por Edgar Diniz e Sergio Lopes, executivos ligados à criação do antigo Esporte Interativo, a empresa construiu um modelo que combina negociação de direitos, produção, distribuição digital e comercialização. Em 2024, recebeu investimento minoritário liderado pela americana General Atlantic, com participação da XP Private Equity.
Em 2025, a estrutura ficou ainda mais clara quando a LiveMode passou a controlar integralmente a CazéTV. Casimiro deixou de ser acionista direto do canal e passou a integrar a estrutura societária da holding do grupo. Isso significa que Cazé continua sendo a personalidade central do projeto, mas a CazéTV já não pode ser entendida apenas como “o canal do Casimiro”. Trata-se de uma operação empresarial de mídia bastante sofisticada e poderosa.
A LiveMode também atua na negociação e estruturação de direitos esportivos, inclusive em negócios ligados à FIFA. Essa posição dupla, participando do ecossistema de comercialização de direitos e ao mesmo tempo controlando um veículo transmissor, provocou questionamentos no mercado sobre possíveis conflitos de interesse. A FIFA afirmou publicamente que não vê irregularidade no modelo. Independentemente dessa discussão, a Copa de 2026 deixou claro que a informalidade diante das câmeras esconde uma máquina empresarial extremamente profissional por trás delas.

A CazéTV tinha aquilo que a Globo não tinha: todos os jogos
Essa talvez tenha sido sua maior vantagem. A CazéTV tornou-se a única plataforma brasileira com direito a exibir gratuitamente todos os 104 jogos da Copa do Mundo de 2026. A Globo ficou com 55, enquanto o SBT, que voltou ao torneio, adquiriu um pacote menor.
No início, essa diferença poderia parecer secundária, já que a Globo tinha os jogos do Brasil, a final e uma seleção dos confrontos mais atraentes. O problema é que Copas do Mundo raramente obedecem ao roteiro. Um jogo aparentemente menor vira a grande zebra, uma seleção improvável se transforma na história do campeonato e um confronto que ninguém imaginava decisivo passa a ser indispensável.
Quanto mais o torneio avançava sem o Brasil, mais evidente ficava a vantagem de quem tinha tudo. Pela primeira vez em décadas, a pergunta “onde vai passar o jogo?” voltou a fazer sentido durante uma Copa do Mundo, e isso por si só já dizia muito sobre o fim de uma antiga hegemonia.
Os números históricos da CazéTV
O crescimento digital foi espetacular. Durante a competição, a CazéTV acumulou recordes de audiência no YouTube e chegou a dezenas de milhões de aparelhos conectados simultaneamente em seus maiores jogos. A semifinal entre França e Espanha alcançou aproximadamente 24,2 milhões de dispositivos simultâneos, enquanto a final entre Espanha e Argentina atingiu pico de cerca de 20,9 milhões.
Esses números impressionam, mas precisam ser tratados com cuidado. “Aparelhos conectados” no YouTube e “pontos de audiência” da televisão são métricas diferentes. Um aparelho pode representar mais de uma pessoa, enquanto o Ibope trabalha com uma metodologia estatística própria. Não se pode simplesmente colocar os números lado a lado e anunciar quem venceu, porque eles não medem exatamente a mesma coisa.
Essa diferença metodológica é justamente o que torna a história mais interessante. O fenômeno da Copa de 2026 não pode ser reduzido a uma competição simples entre uma audiência maior e outra menor, porque estamos falando de formas diferentes de consumir o mesmo evento, muitas vezes coexistindo dentro da mesma casa e até na mesma pessoa.

A Globo continuou líder e por muito
Na final entre Espanha e Argentina, a Globo marcou 27,8 pontos e 45,1% de share na Grande São Paulo, enquanto o SBT ficou com 9,3 pontos e 15,2%. Na televisão aberta, portanto, não houve nenhuma queda de império. A Globo venceu com enorme vantagem.
Mesmo durante a ascensão da CazéTV, a força do grupo continuou gigantesca. Os jogos do Brasil produziram números extraordinários, e o ecossistema formado por TV Globo, SporTV e GE TV ainda alcançou uma parcela enorme da população brasileira durante o torneio. Dizer que “a CazéTV derrotou a Globo”, portanto, simplesmente não corresponde aos fatos.
O erro oposto, porém, seria concluir que nada mudou. A Globo continuou sendo a maior, mas deixou de ser a única referência possível. A diferença parece pequena quando observamos apenas um número de audiência, mas é enorme quando pensamos na maneira como uma geração inteira passou a se relacionar com o futebol.
O baque não foi de audiência. Foi de hegemonia
Durante décadas, a Globo não apenas transmitiu a Copa do Mundo. Ela definiu o Brasil como a via. Seus narradores se tornaram parte da memória dos gols, seus comentaristas ajudaram a estabelecer os personagens; suas vinhetas, músicas, chamadas, repórteres e programas especiais criavam uma espécie de narrativa oficial do torneio.
Assistir à Copa era, em grande medida, assistir à Globo. Mesmo quem reclamava da Globo frequentemente reclamava enquanto assistia à Globo, porque quase não havia uma alternativa real capaz de disputar o mesmo espaço cultural.
Em 2026, isso acabou. A CazéTV tinha todos os jogos, o SBT voltou à disputa e o YouTube tornou-se uma tela tão natural para assistir a futebol quanto a televisão para uma parcela enorme do público. A audiência passou a circular entre TV aberta, TV paga, streaming, celulares, computadores e Smart TVs, e o evento deixou de pertencer culturalmente a um único lugar.
Esse foi o verdadeiro baque. A Globo não perdeu a liderança, mas perdeu a exclusividade sobre a conversa nacional em torno da Copa. Durante décadas, essas duas coisas pareciam quase sinônimas; agora, já não são.

A ironia da GE TV
Talvez nada revele melhor a dimensão dessa mudança do que a própria reação da Globo. Em 2025, a empresa lançou a GE TV, um canal esportivo digital gratuito pensado para transmissões ao vivo, entretenimento, linguagem mais informal e interação com o público.
Seria simplista chamar a GE TV de uma cópia da CazéTV. A Globo possui seu próprio ecossistema, seus direitos, jornalistas, estrutura e décadas de tradição esportiva. Ainda assim, é impossível ignorar que a empresa passou a disputar de forma muito mais agressiva exatamente o território que durante anos parecia secundário diante da força da televisão linear.
O Brasil tornou-se uma espécie de laboratório dessa transformação global no consumo de esportes: um país ainda profundamente ligado à TV aberta, mas onde uma plataforma nascida digitalmente conseguiu se tornar central em um dos maiores eventos do planeta. A pergunta, portanto, não é se a televisão morreu, porque a Copa provou exatamente o contrário. A questão é saber se algum veículo ainda consegue concentrar sozinho a atenção de todo o público, e a resposta mudou.
O erro da Globo talvez tenha sido também uma decisão correta
É fácil olhar para trás e afirmar que a Globo errou ao abrir mão da exclusividade. Talvez tenha errado estrategicamente, mas talvez também tenha tomado uma decisão financeiramente correta. Pagar dezenas de milhões de dólares apenas para impedir que outros transmitam um torneio faz muito sentido quando existe um único modelo dominante de televisão, mas se torna uma estratégia mais difícil de justificar em um mundo onde o público já está naturalmente fragmentado.
A Globo economizou, manteve os principais jogos, continuou líder e vendeu uma enorme quantidade de publicidade. Sob esse ponto de vista, 2026 esteve longe de ser um desastre. O problema é que decisões financeiramente racionais também podem produzir consequências estratégicas que só aparecem anos depois.
Ao deixar de controlar todo o campeonato, a Globo permitiu que outro player construísse hábito, linguagem, marca e lealdade justamente em torno do evento esportivo mais importante para o brasileiro. A Copa de 2022 foi o ensaio, mas a de 2026 foi a confirmação de que a CazéTV havia deixado de ser uma curiosidade digital para se transformar em uma concorrente real pela atenção do público.
A CazéTV mostrou que uma plataforma digital pode transmitir um evento premium gratuitamente, quebrar recordes, atrair uma geração mais jovem e, principalmente, tornar-se um destino natural para quem quer assistir ao futebol. Isso pode valer muito mais, no longo prazo, do que simplesmente vencer um domingo no Ibope.

Ser a maior já não significa ser dona do evento
No fim, quase todos ganharam alguma coisa. A Globo teve audiências enormes e permaneceu líder. O SBT recuperou relevância esportiva e conseguiu números que dificilmente obteria com sua programação habitual. A CazéTV quebrou recordes e consolidou um modelo de negócio que provavelmente influenciará futuras negociações de direitos. O público, por sua vez, ganhou opções.
Por isso, talvez a história mais importante da Copa de 2026 para a mídia brasileira não seja quem venceu a audiência da final. A Globo não ficou pequena, não deixou de ser líder e não perdeu sua capacidade de reunir milhões de pessoas diante da televisão. O que ela perdeu foi algo muito mais raro e difícil de recuperar: a certeza de que, quando a bola rolasse em uma Copa do Mundo, todo o Brasil estaria olhando para o mesmo lugar.
Durante gerações, ser a maior emissora significava praticamente ser dona do evento. Em 2026, pela primeira vez, ficou claro que essas duas coisas já não são sinônimos.
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