Há algo particularmente brutal em retirar um sobrenome.
Dinheiro pode ser dividido. Casas podem ser vendidas. Advogados podem passar anos discutindo vinícolas francesas, guarda de filhos e acordos que ninguém fora daquela família jamais compreenderá completamente. Mas um sobrenome é outra coisa. É identidade, pertencimento, história. Por isso, quando um filho decide que não quer mais carregar o nome do pai, é difícil tratar o gesto como simples burocracia. Brad Pitt agora sabe disso melhor do que quase ninguém em Hollywood.
Vivienne, a caçula dos seis filhos que o ator teve com Angelina Jolie, completou 18 anos há poucas semanas e entrou na Justiça da Califórnia para retirar oficialmente “Pitt” de seu nome. Quer passar de Vivienne Marcheline Jolie-Pitt para Vivienne Marcheline Jolie. Nos documentos, explicou apenas que a decisão é “pessoal”. O surpreendente é que ela está longe de ser a primeira.
Sua irmã, Shiloh, foi a primeira a tomar medidas legais e fez o mesmo assim que completou 18 anos, em 2024, conseguindo legalmente abandonar Pitt. Em 2026, Maddox e Zahara também iniciaram processos para retirar o sobrenome. Knox, gêmeo de Vivienne, ainda não formalizou uma mudança judicial, mas usou “Knox Jolie” em seu diploma do ensino médio. Pax é o único dos seis que ainda mantém publicamente o sobrenome composto, embora sua relação com o pai também seja descrita há anos como distante.
Uma família que o mundo conheceu como Jolie-Pitt está, literalmente, deixando de ser Pitt.

Sabendo que os defensores do ator acusam o gesto como prova de alienação parental, é impossível olhar para isso sem lembrar que a mãe dessas crianças já fez exatamente a mesma coisa.
Angelina nasceu Angelina Jolie Voight, filha do ator Jon Voight e de Marcheline Bertrand. Depois de anos de uma relação tumultuada com o pai, pediu em 2002 que a Justiça retirasse oficialmente “Voight” de seu nome. Tornou-se apenas Angelina Jolie. Na época, dizia ter concluído que não era saudável manter aquela relação. É uma repetição familiar quase psicanalítica demais para ser ignorada. A filha que rejeitou o sobrenome do pai tornou-se mãe de filhos que, uma geração depois, rejeitam o sobrenome do próprio pai.
Isso não prova que Angelina tenha provocado esse movimento, embora pessoas próximas a Brad Pitt insistam há anos nessa narrativa. Depois da nova decisão de Vivienne, uma fonte ligada ao ator voltou a usar exatamente essa expressão. Do outro lado, pessoas próximas à família sustentam que os filhos, agora adultos, tomam suas próprias decisões a partir do que viveram e testemunharam durante e depois da separação. E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais perturbadora.
Não sabemos tudo o que aconteceu dentro daquela família. Sabemos que Angelina pediu o divórcio em 2016 depois do famoso episódio em um avião particular, em que houve acusações graves contra Pitt, negadas por ele, investigações que não resultaram em acusações criminais e uma batalha judicial que atravessou quase uma década. Sabemos também que, ao final desse processo, o resultado familiar é difícil de ignorar: os seis filhos cresceram próximos da mãe e distantes do pai.
Brad, segundo relatos recentes, parece ter chegado a uma espécie de resignação. Ainda estaria profundamente magoado, sobretudo com a rejeição de seu sobrenome, mas já não parece travar publicamente a mesma batalha pela reconciliação. Os filhos são adultos e insistir também tem limites.
É uma história muito diferente — e ao mesmo tempo estranhamente parecida — com a de Tom Cruise.
Brad Pitt e Tom Cruise: dois pais ausentes, histórias muito diferentes
Tom Cruise também tem uma filha que cresceu praticamente sem uma relação pública com o pai.
Suri tinha apenas seis anos quando Katie Holmes pediu o divórcio, em 2012, numa operação tão rápida e cuidadosamente planejada que parece saída de um thriller. Pouco depois, mãe e filha deixaram para trás não apenas o casamento, mas também a Cientologia, religião da qual Cruise continua sendo o integrante mais famoso.
Durante anos, especulou-se que a religião estivesse no centro do afastamento entre pai e filha. A questão nunca foi oficialmente esclarecida dessa maneira, mas o próprio Cruise reconheceu, em um depoimento judicial de 2013, que Katie havia indicado que proteger Suri da Cientologia fora uma das razões para deixá-lo. Desde então, pai e filha não são vistos juntos publicamente há anos.

E aqui está uma diferença curiosa. Suri também deixou de usar o sobrenome famoso do pai em situações públicas. Em sua formatura do ensino médio, em 2024, apareceu como Suri Noelle, usando o nome do meio de Katie Holmes. Não há, porém, confirmação de que tenha feito uma mudança legal equivalente à dos filhos de Brad Pitt.
O silêncio em torno de Cruise também contrasta brutalmente com a guerra Jolie-Pitt.
Katie Holmes praticamente nunca fala sobre o ex-marido. Nicole Kidman, outra ex de Cruise, também sempre foi extremamente cautelosa ao falar dele e dos dois filhos que adotaram juntos, Bella e Connor, que permaneceram ligados à Cientologia.
Durante anos surgiram especulações sobre acordos de confidencialidade envolvendo as mulheres que se relacionaram com Cruise. Não há confirmação pública de que Katie ou Nicole estejam submetidas a um NDA que explique esse silêncio, portanto, seria irresponsável tratá-lo como fato. Mas é impossível não notar como um dos divórcios mais misteriosos de Hollywood produziu quase o oposto de Brangelina: pouquíssimas declarações, praticamente nenhuma guerra pública entre os ex-cônjuges e, ainda assim, uma filha aparentemente afastada do pai.
O silêncio não significa necessariamente paz, assim como barulho não significa necessariamente verdade.

Quando os filhos acabam escolhendo um lado
Hollywood tem outros exemplos dolorosos e talvez nenhum seja mais extremo do que Woody Allen e Mia Farrow.
Mais de três décadas depois do fim da relação, aquela família continua dividida em versões incompatíveis da própria história. Dylan Farrow mantém a acusação de abuso sexual contra Allen, que ele sempre negou. Ronan permaneceu ao lado da mãe e da irmã. Moses Farrow rompeu com Mia e passou a defender Woody, acusando a mãe de abuso, algo que ela e outros filhos negam. Soon-Yi Previn, filha adotiva de Mia e André Previn, tornou-se mulher de Woody Allen.
Não existe sequer uma narrativa familiar compartilhada. É talvez o exemplo mais extremo do que acontece quando a guerra entre adultos deixa de ter dois lados e passa a reorganizar toda uma família.
Anthony Hopkins vive outro tipo de tragédia. Ele e a única filha, Abigail, permaneceram afastados durante grande parte da vida dela depois que o ator deixou a família quando a menina tinha pouco mais de um ano. Em suas memórias, Hopkins reconheceu recentemente que esse é um dos maiores arrependimentos de sua vida e disse que a porta continua aberta para uma reconciliação. Abigail tem hoje quase 60 anos.
Há algo devastador nisso. Porque mostra que nem todo afastamento termina com uma grande cena de reencontro. Às vezes os anos simplesmente passam.

O sobrenome talvez seja apenas o último capítulo
Por isso, o caso de Brad Pitt parece tão incômodo.
Durante anos, a discussão pública ficou presa à pergunta mais fácil: quem estava certo no divórcio? Angelina ou Brad? Ela alienou os filhos? Eles se afastaram por causa do comportamento dele? Quem manipulou quem?
Talvez nunca tenhamos todas as respostas, mas os filhos cresceram e esse detalhe muda tudo. Já não estamos falando de crianças submetidas a uma disputa de guarda. Maddox tem 24 anos. Pax, 22. Zahara, 21. Shiloh, 20. Knox e Vivienne agora têm 18. Cada um deles pode escolher legalmente onde morar, com quem falar e qual nome carregar.
É possível discutir durante décadas quem teve culpa pelo rompimento de Brad Pitt e Angelina Jolie. É muito mais difícil ignorar que cinco dos seis filhos fizeram algum movimento para deixar “Pitt” para trás.

Sobrenomes não determinam amor. Mantê-los tampouco significa proximidade. Suri Noelle aparentemente não precisa retirar judicialmente “Cruise” para deixar claro onde construiu sua vida. Abigail Hopkins manteve o nome do pai durante décadas de afastamento. Pax ainda carrega Pitt e, aparentemente, continua ligado à família paterna, embora não ao próprio Brad.
Mas há uma força simbólica impossível de negar quando tantos filhos da mesma família fazem a mesma escolha. Talvez a maior derrota de um divórcio não seja perder uma casa, uma fortuna, uma vinícola ou uma batalha judicial. Talvez seja perceber, muitos anos depois, que a guerra terminou para os advogados, mas continuou vivendo nos filhos.
E, no caso de Brad Pitt, acabou chegando até o nome deles.
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