The Hawk prova que a comédia mudou. Will Ferrell, nem tanto

Talvez a pergunta mais interessante provocada por The Hawk, nova série de Will Ferrell na Netflix, não seja se ela é engraçada. É se Will Ferrell ainda é engraçado da mesma maneira que era há vinte anos. Porque assistir à série é reencontrar quase intacto um tipo de personagem que ajudou a transformá-lo em uma das maiores estrelas da comédia americana dos anos 2000: o homem infantil, arrogante, barulhento, sexualmente inconveniente e completamente convencido da própria genialidade.

Foi uma fórmula extraordinariamente eficiente. Ron Burgundy, de Anchorman, Ricky Bobby, de Talladega Nights, e vários outros personagens de Ferrell partiam basicamente da mesma ideia: homens que ocupavam o centro do mundo sem perceber o tamanho de sua própria estupidez. Nós ríamos deles justamente porque eles jamais desconfiavam de que eram ridículos.

O problema de The Hawk é que vinte anos se passaram.

Ferrell interpreta Lonnie “The Hawk” Hawkins, ex-astro do golfe que viu sua carreira desmoronar depois de fracassar justamente quando estava prestes a conquistar um Grand Slam. Agora envelhecido, enquanto o próprio filho começa a brilhar no esporte, ele tenta desesperadamente voltar ao PGA Tour e recuperar a glória perdida. São dez episódios construídos em torno de um homem que se recusa a aceitar que seu tempo talvez tenha passado — uma premissa que, ironicamente, começa a parecer também uma metáfora involuntária para a própria comédia da série.

Porque Lonnie poderia ter sido um personagem fascinante justamente por isso. Um homem envelhecido tentando sobreviver ao desaparecimento daquilo que sempre definiu sua identidade. Um sujeito que precisa lidar não apenas com a decadência profissional, mas com um filho que ocupa o lugar que já foi seu, uma ex-mulher que conhece todas as suas fraquezas e um mundo que aprendeu a viver perfeitamente bem sem ele.

Só que The Hawk parece frequentemente mais interessada em simplesmente colocar Will Ferrell novamente dentro de um figurino absurdo e deixá-lo fazer aquilo que sempre fez.

E foi justamente aí que boa parte da crítica encontrou o problema.

A recepção foi dura, com a aprovação da crítica no Rotten Tomatoes girando em torno de apenas 30%, embora o público tenha reagido de forma consideravelmente mais simpática. O Guardian definiu a série como uma tentativa pouco bem-sucedida de ressuscitar o humor do chamado “Frat Pack” dos anos 2000, apontando piadas prolongadas, humor corporal, estereótipos envelhecidos e uma sensação constante de que estamos vendo um mecanismo cômico que já funcionou muito melhor antes.

Mas talvez seja simplista concluir que o problema é apenas que “hoje não se pode mais fazer esse tipo de piada”. Pode. A comédia continua vulgar, ofensiva, politicamente incorreta e absolutamente disposta a ultrapassar limites quando encontra uma razão para isso. O que mudou foi outra coisa: já não basta que um homem se comporte mal para que sua inadequação seja automaticamente engraçada.

Nos melhores filmes de Ferrell, havia algo muito mais inteligente acontecendo por baixo da idiotice.

Ron Burgundy não era apenas um machista absurdo. Anchorman ria de um mundo masculino aterrorizado pela chegada de uma mulher que ameaçava sua posição. Ricky Bobby não era apenas um idiota obcecado por velocidade. Talladega Nights fazia uma sátira bastante eficiente da masculinidade americana, do culto ao vencedor e da convicção de que terminar em segundo lugar equivalia a fracassar.

Os personagens eram ridículos, mas o mundo ao redor deles também estava sendo ridicularizado.

É isso que muitas vezes falta a The Hawk: saber exatamente do que está rindo. A série parece reconhecer que Lonnie é um dinossauro, mas nem sempre parece interessada em explorar o que significa ser esse dinossauro em 2026. Em vez disso, repete várias vezes a velha fórmula: Ferrell entra em cena bronzeado demais, vestido de forma absurda, dizendo alguma coisa inconveniente com absoluta confiança e esperando que a convicção do personagem faça metade do trabalho.

Durante muito tempo, fez. Talvez agora faça menos.

Curiosamente, The Hawk melhora quando deixa de depender exclusivamente dele. Molly Shannon, como Stacy, sua ex-mulher, e Fortune Feimster, como sua nova caddie, são frequentemente apontadas entre os melhores elementos da série. Shannon, especialmente, funciona porque não existe apenas para reagir ao personagem de Ferrell. Ela conhece Lonnie, entende seus truques e consegue enfrentá-lo dentro da mesma frequência cômica. Até críticas negativas destacaram como o elenco ao redor dele consegue encontrar momentos que o roteiro nem sempre oferece ao protagonista.

Há também quem tenha defendido exatamente aquilo que outros rejeitaram. O Los Angeles Times, por exemplo, abraçou o humor juvenil e exagerado da série como parte de sua proposta, lembrando que estamos, afinal, diante de uma comédia de Will Ferrell sobre golfe — e talvez esperar algo diferente seja entrar na sala errada. O próprio conhecimento e amor do ator pelo esporte ajudam a dar ao universo uma familiaridade que impede que tudo seja apenas uma coleção de piadas sobre tacos e buracos.

E talvez esteja justamente aí a divisão.

Quem sente saudade daquele Will Ferrell provavelmente encontrará bastante coisa familiar em The Hawk. O problema é que familiaridade e nostalgia não são necessariamente a mesma coisa que graça.

Existe ainda uma ironia especialmente boa na premissa. Lonnie Hawkins é um homem que acredita que ainda pode voltar ao lugar que ocupava vinte anos atrás. Que o mundo apenas precisa vê-lo novamente para perceber que continua sendo extraordinário.

Will Ferrell talvez esteja fazendo algo parecido.

A diferença é que Ferrell já mostrou ser muito mais interessante do que os homens-criança que fizeram sua fama. Há um ator vulnerável, estranho e melancólico escondido atrás daquele talento para o absurdo, e algumas de suas melhores atuações aconteceram justamente quando alguém percebeu isso. Por essa razão, uma série sobre envelhecimento, fracasso, paternidade e a dificuldade de abandonar a própria imagem poderia ter sido o veículo perfeito para confrontar seu antigo personagem com o homem que ele se tornou.

The Hawk chega perto dessa ideia algumas vezes, mas então aparece outra piada genital.

Talvez seja injusto exigir que toda comédia envelheça conosco. Algumas pertencem mesmo ao momento em que foram feitas, e não há nada errado em ainda rir delas. O mais curioso é quando alguém tenta reconstruir exatamente aquele momento e descobre que a fórmula continua praticamente intacta, mas nós não.

No fundo, esse talvez seja o problema mais interessante de The Hawk. Não sabemos se Will Ferrell deixou de ser engraçado.

Talvez nós simplesmente tenhamos aprendido a rir de outras coisas.


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