The Morning Show está oficialmente caminhando para sua despedida. A quinta temporada, atualmente em produção e prevista para estrear em 2027, será a última da série estrelada e produzida por Jennifer Aniston e Reese Witherspoon. O anúncio encerra também uma história importante para a própria Apple TV: lançada em novembro de 2019, no mesmo dia da estreia da plataforma, a produção foi uma de suas primeiras grandes apostas originais.
Talvez o mais curioso seja perceber que The Morning Show teria tudo para já ter morrido há algumas temporadas.

A série enfrentou mudanças de tom, excessos narrativos, tramas cada vez mais improváveis e duas protagonistas que, com frequência, parecem tão perdidas quanto as crises que tentam administrar. Ainda assim, conseguiu uma façanha rara: esticar fantasticamente sua sobrevida sem simplesmente sobreviver por inércia.
E talvez justamente porque entendeu, em algum momento, que seu grande drama nunca dependeu exclusivamente de Alex Levy e Bradley Jackson.
Jennifer Aniston e Reese Witherspoon sustentam o centro da história, naturalmente, mas suas personagens são deliberadamente falhas, contraditórias e, muitas vezes, frustrantes. Alex alterna brilhantismo, vaidade, coragem e uma necessidade quase desesperada de continuar relevante. Bradley atravessou temporadas tentando descobrir quem queria ser enquanto destruía algumas das próprias convicções pelo caminho.
O verdadeiro grande drama, curiosamente, quase sempre esteve ao redor delas.
Os melhores personagens nem sempre estavam no centro
Billy Crudup transformou Cory Ellison em um dos personagens mais fascinantes da série justamente porque nunca permitiu que soubéssemos completamente onde terminava o executivo manipulador e começava o homem emocionalmente devastado. Mark Duplass fez de Chip muito mais do que o eterno escudeiro de Alex. Karen Pittman construiu em Mia Jordan uma profissional cuja competência nunca significou que o reconhecimento viria automaticamente.
Ao longo das temporadas, nomes como Greta Lee, Julianna Margulies, Jon Hamm, Nicole Beharie, Marion Cotillard e tantos outros entraram e saíram da história ajudando a criar um universo muito mais complexo do que a simples relação entre duas mulheres que começaram disputando espaço diante das câmeras.


Talvez essa tenha sido a grande inteligência de The Morning Show: perceber que uma redação, especialmente uma redação de televisão, oferece combustível dramático praticamente inesgotável. Poder, ego, dinheiro, audiência, política, sexo, amizade, lealdade e ambição convivem no mesmo corredor enquanto todos fingem estar apenas discutindo jornalismo.
Nem sempre funcionou.
A série frequentemente exagerou. A cada temporada parecia perguntar até onde poderia empurrar seus personagens antes de romper definitivamente qualquer compromisso com a verossimilhança. Inteligência artificial, deepfakes, conspirações corporativas, bilionários, escândalos ambientais e Bradley terminando presa em Belarus mostram que a resposta foi: bastante longe. A quarta temporada abraçou novamente esse melodrama de altíssimo risco, misturando crise jornalística, poder empresarial e corrupção com uma trama que terminou colocando praticamente toda a estrutura da UBN em xeque.
E, estranhamente, continuamos assistindo. Em parte porque The Morning Show entendeu muito cedo que não precisava ser realista para falar de coisas reais. Desde 2019, passou por #MeToo, pandemia, polarização política, crise da imprensa, desinformação, inteligência artificial e concentração do poder econômico, frequentemente transformando acontecimentos reconhecíveis em melodrama corporativo sem qualquer vergonha de ser grandiosa.
A partir daqui, spoilers da quarta temporada
Há ainda uma razão narrativa para uma última temporada: The Morning Show deixou justamente alguns de seus personagens mais interessantes em lugares que pedem conclusão.
Cory terminou a quarta temporada talvez no ponto mais curioso de todo o seu arco. Depois de passar anos confundindo poder, afeto, ambição e controle, descobriu que parte de sua própria ascensão profissional estava ligada a uma negociação feita nos bastidores por sua mãe e ao encobrimento do escândalo ambiental que atravessou a temporada. No momento decisivo, porém, escolheu entregar a Alex a prova que poderia derrubar Celine e ajudou a criar as condições para libertar Bradley de Belarus. É quase uma inversão do Cory que conhecemos.
Durante anos, ele parecia acreditar que fazer a coisa certa só valia a pena quando também era a jogada mais inteligente da sala. Agora chega à temporada final sem o poder que durante tanto tempo definiu sua identidade e obrigado a descobrir quem é quando já não pode controlar todas as peças do tabuleiro. Sua relação com Bradley também atravessou finalmente a fronteira romântica que a série vinha insinuando havia temporadas, acrescentando outra pergunta que dificilmente poderá ficar sem resposta.


Mia Jordan está diante de uma ruptura igualmente interessante.
Ela queria comandar a divisão de jornalismo da UBN, mas Stella, pressionada por Celine, promoveu Ben Rusch para o cargo. Sentindo-se mais uma vez preterida, Mia rompeu com Stella e chegou a decidir deixar a empresa. Depois, com a saída de Stella da presidência executiva, recebeu dela justamente a possibilidade de aproveitar o vazio de poder que se abria dentro da companhia. A temporada terminou deixando Mia e Ben em uma disputa profissional que a própria showrunner Charlotte Stoudt já descreveu como carregada também de uma tensão mais pessoal.
Só que a quinta temporada já introduzirá uma nova peça nessa disputa: Jesse Williams interpretará Vernon, anunciado como o novo chefe de jornalismo da UBN. Isso torna ainda mais interessante saber o que acontecerá com Mia, uma mulher que passou anos provando ser suficientemente boa para assumir mais poder e, ainda assim, repetidamente viu outra pessoa ocupar o espaço que parecia finalmente destinado a ela.
É uma questão que toca justamente em algo que The Morning Show sempre discutiu melhor do que parecia: quanto uma instituição pode exigir de alguém em nome da oportunidade, da lealdade e da promessa de que, desta vez, o reconhecimento finalmente virá?
A temporada final terá ainda novos personagens interpretados por Jeff Daniels, Lizzy Caplan, Sean Hayes, Jesse Williams e Reneé Rapp, além dos retornos de Aniston, Witherspoon, Crudup, Duplass, Pittman, Nicole Beharie e Jon Hamm. Saber antecipadamente que será o último capítulo dá aos roteiristas uma vantagem que poucas séries recebem: a possibilidade de realmente construir um fim.
E talvez seja a hora certa. Não porque The Morning Show tenha finalmente perdido o fôlego, mas porque conseguiu algo ainda mais difícil: chegar ao final depois de passar anos nos fazendo pensar que não chegaria inteira nem à temporada seguinte.

Alex e Bradley obviamente precisam de uma despedida. Mas talvez seja igualmente — ou até mais — interessante descobrir o que acontecerá com Cory, Mia, Chip e todas as pessoas que passaram cinco temporadas orbitando as protagonistas.
Porque, no fim das contas, talvez tenha sido esse o segredo da improvável longevidade de The Morning Show: suas duas estrelas nos trouxeram até aqui, mas foram muitas vezes os personagens ao redor delas que nos deram razões para continuar assistindo.
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