O texto contém spoilers da terceira temporada de House of the Dragon e do livro Fogo & Sangue.
Estamos falando de Ormund Hightower e outros homens, mas um perigo maior se formou no episódio 5 da terceira temporada de House of the Dragon. E a dúvida das intenções de Mysaria nesse jogo é válida. A pergunta não deveria ser apenas de que lado Mysaria está, mas até quando os interesses dela continuarão coincidindo com os de Rhaenyra. A Verme Branco construiu sua vida aprendendo que sobreviver em Porto Real depende menos de fidelidade do que de saber o que cada pessoa deseja, teme e esconde. Até agora, ela escolheu Rhaenyra. Isso, porém, não significa que tenha prometido morrer por ela e o modo como Mysaria morre no livro torna sua aproximação com Alicent ainda mais perigosa.
Mysaria estava acompanhando os passos de Helaena e Alicent, descobriu a tentativa de fuga das duas e percebeu que havia algo ainda mais importante sendo escondido. Depois de seguir o rastro do chá da lua levado por Orwyle, ela chegou à verdade: Helaena está grávida.

Em vez de correr imediatamente até Rhaenyra, porém, Mysaria permaneceu para ouvir o que Alicent tinha a oferecer. A rainha viúva lembrou que a Verme Branco já havia vendido informações a Otto Hightower, sugeriu que alguém que sobreviveu ao jogo político por tanto tempo deveria preservar relações com os dois lados e ofereceu a gratidão dos Hightower caso eles voltassem ao poder.
Alicent não precisava convencê-la a trair Rhaenyra naquele momento. Bastava fazer com que guardasse um segredo. Mysaria não revelou a gravidez nem a tentativa de fuga, pelo menos por enquanto, transformando a conversa em algo mais perigoso do que uma negociação passageira. Foi o início de uma aliança silenciosa, ou pelo menos a abertura de um canal que não passa pela rainha.
A cartada final de Alicent, contudo, foi emocional. Ela percebeu que existe um envolvimento de Mysaria com Rhaenyra e atingiu exatamente o ponto de maior insegurança dessa relação: “Rhaenyra sempre escolhe Daemon”.
Alicent não ofereceu apenas proteção política. Ela plantou em Mysaria a possibilidade de que, por mais indispensável que se torne, jamais será realmente escolhida.

Mysaria sempre trabalhou para Mysaria
Mysaria afirma que seu principal objetivo é defender o povo de Porto Real, e não há razão para considerar esse discurso completamente falso. Ela conhece a fome, a exploração e a violência que os nobres quase nunca enxergam. Foi ela quem mostrou a Rhaenyra que uma rainha não governa apenas com dragões, brasões e juramentos, mas também com pão, informação e a percepção pública de que o poder ainda serve para alguma coisa.
Isso não significa que Mysaria seja uma personagem desinteressada. Ela saiu dos prostíbulos de Flea Bottom, criou uma rede de informantes e chegou ao Conselho Preto como, na prática, a Mestra dos Sussurros de Rhaenyra. Sua defesa da população pode ser sincera e, ao mesmo tempo, inseparável de sua própria ascensão. Em Westeros, sobreviver também é uma ideologia.

A primeira temporada já havia mostrado que os pequenos espiões de Mysaria abasteciam Otto com informações. Foi um menino ligado à rede do Verme Branco que levou até ele o relato sobre a passagem de Rhaenyra e Daemon pelo bordel, desencadeando o confronto com Viserys e contribuindo para a queda temporária de Otto como Mão do Rei.
Existe, porém, uma distinção importante. A série nunca confirmou que Mysaria também foi a fonte da história sobre o brinde de Daemon ao “herdeiro por um dia”. Otto disse apenas que suas fontes ouviram a frase, e Daemon não se esforçou para explicar com clareza o que realmente aconteceu.
Portanto, é possível teorizar que Mysaria tenha participado daquela primeira articulação, especialmente porque ela já tinha acesso aos prostíbulos frequentados por Daemon, mas isso não pode ser tratado como fato estabelecido. Também permanece a possibilidade de que Otto tenha recebido uma versão incompleta, exagerada ou deliberadamente distorcida da fala.
O ponto central não muda: Mysaria não controla apenas a obtenção da informação. Ela controla o momento, a forma e a pessoa para quem essa informação será entregue. Até agora, com Rhaenyra, ela parece ter falado a verdade. Isso não significa que tenha contado tudo, nem que continuará contando quando a verdade deixar de lhe ser conveniente.
Uma informação omitida pode ser tão letal quanto uma mentira.

Daemon é o ponto cego dessa relação
Alicent foi especialmente inteligente ao usar Daemon porque ele não é apenas o marido de Rhaenyra. Ele também pertence ao passado de Mysaria.
No livro, Mysaria realmente engravida de Daemon enquanto vive com ele em Dragonstone. Daemon entrega um ovo de dragão para a futura criança, provocando a fúria de Viserys, que exige a devolução do ovo e determina que Mysaria seja enviada de volta a Lys. Durante a travessia do Mar Estreito, em meio a uma tempestade, ela perde o bebê. O episódio aumenta ainda mais o ressentimento de Daemon contra o irmão e os responsáveis por separá-los.
A série eliminou quase toda essa carga emocional. Daemon inventa a gravidez para provocar Viserys e anuncia uma união que Mysaria nem sequer deseja. Ela se revolta ao descobrir que foi transformada em instrumento de mais uma disputa entre dois príncipes e deixa claro que não quer casamento, filhos ou um ovo de dragão.
Não foi, para mim, um desenvolvimento tão forte quanto o do livro. Ao retirar a gravidez e a perda da criança, a adaptação enfraqueceu o vínculo emocional entre Mysaria e Daemon e também reduziu o peso do confronto com Otto e Viserys.
O que permaneceu foi o conhecimento íntimo. Mysaria sabe quem Daemon é, e Daemon sabe do que ela é capaz.

Embora agora estejam formalmente no mesmo campo, os dois disputam o ouvido, a confiança e até o afeto de Rhaenyra. Daemon encara Mysaria como alguém que ganhou espaço demais dentro do Conselho Preto. Mysaria o vê como o homem que sempre poderá reivindicar uma proximidade com Rhaenyra que nenhuma conselheira, amante ou amiga conseguirá superar.
Daemon também não explica a Rhaenyra, de maneira suficientemente clara, o que Mysaria fez no passado. Em parte, isso existe para que a série preserve o drama, mas também é coerente com a arrogância geral dele. Daemon costuma considerar suas suspeitas tão evidentes que não acredita precisar justificá-las. Quando Rhaenyra não o escuta, ele reage com raiva, desprezo ou violência, em vez de construir um argumento que ela possa aceitar.
O resultado é que Mysaria e Daemon disputam não apenas o poder político, mas também a interpretação da realidade oferecida à rainha.
O beijo entre Rhaenyra e Mysaria significou alguma coisa
O beijo entre Rhaenyra e Mysaria pode ter permanecido como um momento isolado, mas isso não o torna insignificante. Ele aconteceu depois de Mysaria revelar parte de sua história e encontrar em Rhaenyra acolhimento, desejo e reconhecimento.
Para uma mulher que passou a vida sendo utilizada por homens mais poderosos, aquela aproximação poderia representar algo diferente. Pela primeira vez, Mysaria talvez tenha acreditado que não era apenas útil, mas verdadeiramente vista.
É exatamente aí que Alicent encontra a chave da manipulação.
A rainha viúva percebe que Mysaria não está ligada a Rhaenyra apenas por conveniência política. Existe afeto, desejo ou pelo menos a expectativa de uma intimidade que ultrapasse a relação entre governante e conselheira. Por isso, Alicent não tenta competir oferecendo mais poder. Ela oferece uma ferida: por mais próxima que Mysaria esteja, Rhaenyra continuará voltando para Daemon.

A frase funciona porque provavelmente contém uma verdade. Rhaenyra pode discutir com Daemon, afastá-lo, desconfiar dele e procurar apoio em outras pessoas, mas sempre retorna à ligação Targaryen que os une. Eles compartilham sangue, idioma, dragões, casamento, história e uma convicção de excepcionalidade que inevitavelmente transforma todos os outros em estrangeiros.
Não é necessário encontrar um momento específico em que Rhaenyra tenha escolhido Daemon em vez de Alicent ou Mysaria. Alicent está descrevendo uma lógica maior: quando chegar a decisão definitiva, os Targaryen fecharão o círculo.
Mysaria continuará sendo a mulher que veio de fora.
Rhaenyra está dividida entre duas formas de governar
A disputa entre Daemon e Mysaria também representa duas concepções diferentes de poder. Mysaria defende inteligência, paciência, manipulação da opinião pública e atenção às necessidades dos pequenos. Daemon acredita na força, no medo, nos dragões e na eliminação rápida dos inimigos.
A tragédia é que ambos costumam enxergar coisas que Rhaenyra prefere não reconhecer.
Mysaria entende que uma rainha odiada pela população não consegue permanecer no trono apenas porque possui o direito legal de ocupá-lo. Daemon entende que uma guerra não termina porque uma das partes insiste em negociar com pessoas que já demonstraram não ter intenção de cumprir acordos.
Isso não significa que toda violência defendida por Daemon seja justificável. Daemon frequentemente ultrapassa os limites da estratégia e entra no terreno da crueldade, da vingança e do prazer pessoal. No entanto, em termos militares, vários de seus alertas acabam confirmados justamente porque Rhaenyra repete o erro de Viserys: evita decisões difíceis até que elas se tornem inevitáveis e muito mais caras.


Toda tentativa de paz com Alicent produziu novas complicações. Toda demora em eliminar uma ameaça permitiu que ela crescesse. Rhaenyra deseja governar sem se transformar em tirana, mas sua hesitação não impede a violência. Muitas vezes, apenas entrega a iniciativa aos adversários.
Ao oscilar entre Mysaria e Daemon, Rhaenyra não consegue construir uma estratégia própria. Ela se aproxima de um, rejeita o outro e muda novamente quando as consequências aparecem. Dessa forma, os dois conselheiros passam a disputar qual versão da realidade chegará primeiro aos seus ouvidos.
Agora Alicent entrou nessa disputa.
Alicent não age apenas por amor ou inocência
A cena também afasta novamente a interpretação de que Alicent age somente por amor a Rhaenyra, arrependimento ou inocência. Isso não significa que seus sentimentos pela antiga amiga sejam falsos. Significa que Alicent sabe transformar sentimentos verdadeiros em instrumentos políticos.
Ela reconheceu a afeição de Mysaria, encontrou sua insegurança e a utilizou para proteger Helaena e a criança que ela espera. Foi uma manipulação precisa, feita por alguém que passou anos observando como homens como Otto, Larys e Criston exploravam as vulnerabilidades das pessoas ao redor.
Alicent aprendeu com todos eles, mesmo quando insiste em se enxergar como alguém diferente.

Ela é perigosa justamente porque quase nunca se considera perigosa. Em sua própria narrativa, Alicent está sempre protegendo os filhos, evitando uma execução ou tentando impedir uma guerra. O problema é que suas soluções dependem de segredos, promessas impossíveis e negociações emocionais que frequentemente provocam consequências catastróficas.
Alicent consegue circular entre os Pretos e os Verdes porque possui ligações afetivas com os dois lados. Entre os Verdes, continua sendo a mãe de Aegon, Aemond, Helaena e Daeron. Entre os Pretos, ainda possui acesso emocional a Rhaenyra, construído pela amizade de infância e pela intimidade que a série nunca tratou como inteiramente resolvida.
Ela entra em ambos os campos sob o manto das boas intenções e quase sempre altera o equilíbrio.
Agora, pode ter instalado uma informante dividida dentro do círculo mais próximo de Rhaenyra.
Como Mysaria morre no livro de House of the Dragon?
Ao contrário de Alicent, Mysaria não sobrevive à Dança dos Dragões.
Durante a revolta de Porto Real, Rhaenyra abandona a cidade. Mysaria permanece na Fortaleza Vermelha e tenta fugir quando o local é tomado pelos homens de Sor Perkin, a Pulga. Ela é capturada e recebe uma proposta cruel: poderá viver caso atravesse nua a cidade até o Portão dos Deuses enquanto é açoitada.
Mysaria não consegue completar o percurso. Ela morre antes de chegar à metade do caminho, sobre as pedras de Porto Real.

O fim é especialmente irônico porque Mysaria saiu das ruas da cidade, construiu sua rede entre as pessoas invisíveis de Flea Bottom, chegou ao centro do poder e terminou destruída pelo mesmo lugar cuja população dizia defender.
A série pode alterar essa morte, como já mudou tantos outros acontecimentos de Fogo & Sangue. Ainda assim, o destino original da personagem ajuda a entender por que a aproximação com Alicent é tão perigosa. Mysaria passou a vida tentando não depender completamente de ninguém. Quando percebe que sua segurança junto a Rhaenyra pode ser temporária, a tentação de preservar outra saída se torna quase inevitável.
O que acontece com Alicent no livro?
Alicent sobrevive à guerra, a Rhaenyra, a Daemon, a Aegon II e a todos os seus filhos.
Depois da ascensão de Aegon III, permanece confinada na Fortaleza Vermelha. Passa os últimos meses chorando, falando sozinha e demonstrando uma profunda aversão à cor verde, símbolo da facção que ajudou a construir.
Em 133 depois da Conquista, Alicent contrai a Febre de Inverno e morre durante a epidemia que atinge Porto Real. Em seus últimos momentos, fala dos filhos que perdeu e deseja reencontrá-los.
A ironia também é cruel. Alicent vestiu o verde para transformar sua família numa dinastia, mas termina odiando a cor que representava sua causa. Mysaria ascendeu graças à sua capacidade de circular entre todos os lados, mas morre sem que nenhum deles a proteja.
As duas não sobrevivem juntas à Dança e tampouco formam uma aliança no livro.

Mysaria e Alicent são inimigas em Fogo & Sangue
A Mysaria de Fogo & Sangue é consideravelmente mais sombria do que a personagem apresentada pela série. Ela atua como intermediária de Daemon na contratação de Sangue e Queijo, alimenta a crescente paranoia de Rhaenyra contra as sementes de dragão e afirma que Daemon está dormindo com Nettles.
A informação leva Rhaenyra a ordenar a morte da jovem e contribui diretamente para a separação definitiva entre ela e Daemon. A veracidade da relação entre Daemon e Nettles permanece discutida dentro do próprio livro, mas Mysaria sabe exatamente qual efeito a acusação produzirá na rainha.
Há ainda a terrível história das chamadas Rainhas do Bordel. Segundo o relato de Cogumelo, Mysaria teria sugerido que Alicent e Helaena fossem levadas a um prostíbulo e submetidas à violência sexual.
O próprio Fogo & Sangue trata a narrativa com desconfiança, e outras fontes rejeitam que o episódio tenha acontecido. Portanto, não se pode apresentá-lo como um fato indiscutível. Ainda assim, a existência do relato mostra como a memória histórica de Westeros associa Mysaria não à proteção das duas mulheres, mas à possibilidade de sua humilhação.

Também existem versões diferentes sobre a morte de Helaena. Uma delas afirma que Mysaria contou à rainha sobre o destino brutal de Maelor e que a notícia contribuiu para que ela se jogasse da janela. Mais uma vez, trata-se de um relato do livro, não de uma certeza absoluta.
A série está construindo uma relação completamente nova entre Mysaria e Alicent. Em vez de inimigas que se encontram apenas quando uma delas está no poder e a outra é prisioneira, elas agora reconhecem uma na outra a capacidade de negociar, mentir, sobreviver e utilizar as emoções de Rhaenyra.
Alicent pode ocupar o lugar narrativo deixado por Nettles
A retirada de Nettles e a decisão de entregar Sheepstealer a Rhaena tornam essa aproximação ainda mais significativa.
No livro, é Mysaria quem fornece a informação que transforma a desconfiança de Rhaenyra em perseguição e separa definitivamente o casal. Como a série não possui mais uma suposta amante estrangeira que Mysaria possa usar para despertar o ciúme da rainha, a adaptação precisa encontrar outra maneira de reproduzir essa ruptura.
Alicent pode ser essa nova peça. Em vez de Mysaria convencer Rhaenyra de que Daemon a traiu com Nettles, Alicent pode convencer Mysaria de que Rhaenyra inevitavelmente a trairá escolhendo Daemon.
A inversão é inteligente. Mysaria continuaria sendo responsável por ampliar a paranoia e separar o casal, mas agora agiria primeiro por medo de ser descartada. A traição deixaria de nascer apenas do ciúme e passaria a nascer da diferença de classe, sangue e pertencimento que a série vem construindo desde a apresentação da personagem.

A frase de Alicent também pode levar Mysaria a observar Daemon de outra forma. Qualquer desentendimento entre ele e Rhaenyra poderá ser usado como prova de que a rainha ainda está emocionalmente presa ao marido. Qualquer reconciliação confirmará o aviso. A partir do momento em que a suspeita foi plantada, todos os acontecimentos poderão alimentá-la.
É assim que uma boa manipulação funciona: não entrega uma mentira completa, mas uma verdade parcial que faz a própria vítima construir o restante.
Mysaria ainda não traiu Rhaenyra. Ela, porém, já escolheu não contar tudo. Alicent conseguiu algo quase tão perigoso quanto recrutar uma espiã: deu a Mysaria um motivo para começar a guardar informações, procurar garantias e imaginar uma vida depois da queda da rainha. No jogo dos tronos, uma verdade entregue tarde demais pode matar tanto quanto uma mentira. A pergunta, portanto, não é exatamente de que lado Mysaria está.
A pergunta é o que ela fará quando acreditar que, apesar de todo o poder conquistado, Rhaenyra jamais estará verdadeiramente do seu lado.
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