Bruno Gagliasso leva Honestino a Bonito CineSur: “Não pode normalizar”

Bruno Gagliasso passou por Bonito, em Mato Grosso do Sul, para apresentar Honestino, um dos filmes mais necessários da programação do Bonito CineSur 2026. Dirigido por Aurélio Michiles, o longa mistura documentário e ficção para resgatar a trajetória de Honestino Guimarães, líder estudantil, presidente da UNE e um dos desaparecidos políticos da ditadura militar brasileira.

Bruno interpreta Honestino nas passagens dramatizadas do filme, construídas a partir de cartas, poemas, documentos e lembranças daqueles que o conheceram. Mas, durante a conversa após a sessão, o ator deixou claro que não quis representar apenas um símbolo da resistência. Seu esforço foi encontrar o jovem que existia antes de se transformar em personagem da História.

“Eu estava fazendo um filme sobre um homem, um garoto, que tinha mãe, que tinha amigos, que amava escrever poesia, que se emocionava, que tinha uma relação com o pai”, disse. “Porque todas essas pessoas que a gente fala na nossa história, que lutaram contra a ditadura, que foram heróis, eram humanas. E eram tão humanas que lutavam por nós.”

Essa talvez seja uma das forças de Honestino. Ao unir imagens reais, depoimentos de familiares e companheiros de militância às cenas interpretadas por Bruno, o filme não permite que o personagem seja reduzido a uma fotografia antiga, a um nome em uma lista ou a mais uma vítima citada nos livros. Honestino volta a ser um rapaz de 26 anos, com desejos, afetos e um futuro que lhe foi roubado.

O convite para interpretar Honestino

Bruno contou que chegou ao filme por intermédio do cineasta Sérgio Machado, amigo em comum dele e de Aurélio Michiles. O encontro aconteceu durante um jantar, quando o ator ainda estava fisicamente transformado para outro trabalho, muito magro, com os cabelos raspados e a sobrancelha marcada.

Aurélio, no entanto, enxergou nele algo que ia além da aparência. “Ele tem uma sensibilidade que tira de você o melhor da sua sensibilidade. Ele enxergou em algum lugar que eu precisava falar sobre isso, não só na minha vida, mas através da arte”, afirmou Bruno.

O ator também estabeleceu uma relação inevitável entre Honestino e Marighella, de Wagner Moura. No filme de 2019, Bruno interpretou Lúcio, um agente da repressão envolvido na perseguição e no assassinato do guerrilheiro. Agora, ele ocupa o outro lado da narrativa.

“Eu fiz isso em Marighella, só que estava do lado da escória. Agora pude fazer através do lado certo da história”, disse. Não se trata, evidentemente, de confundir ator e personagem, mas de reconhecer o percurso interessante de um intérprete que conheceu, pela ficção, os dois lados de uma das páginas mais violentas do Brasil.

“Teve verdade, teve vontade”

Bruno não conheceu Honestino pessoalmente e havia poucas imagens em movimento nas quais pudesse observar seus gestos, seu modo de andar ou sua voz. A construção veio das cartas, dos poemas, dos relatos e, sobretudo, de uma identificação com os ideais defendidos pelo líder estudantil.

“Eu não tentei criar nada. Eu tentei viver. Acredito na liberdade, acredito na educação, na saúde. Então foi de dentro para fora totalmente”, explicou.

A validação mais emocionante veio da família. Após uma sessão, a viúva de Honestino permaneceu abraçada ao ator e lhe perguntou como ele havia conseguido reproduzir até a maneira de andar do marido.

“Eu olhei para ela e falei: ‘Não sei. Porque eu não vi’. Só que fiz com uma verdade muito grande. Fiz com amor, com uma vontade de mudar o mundo. E essa vontade de mudar o mundo era a vontade que ele tinha para poder enfrentar tudo o que enfrentou”, contou Bruno. “Não sei se teve invenção. Teve verdade, teve vontade, teve tesão em fazer.”

O ator também recordou a reação de uma das filhas de Honestino, surpresa ao reconhecer o pai em alguém que nunca o havia encontrado. Para Bruno, a emoção que aparece na tela não pertence apenas ao personagem. Em algumas passagens, especialmente durante a leitura dos textos deixados pelo líder estudantil, era também o próprio ator chorando.

Um filme sobre uma história que continua aberta

Honestino Guimarães foi preso em 1973, aos 26 anos, e nunca mais voltou. Seu corpo jamais foi encontrado. Mais de meio século depois, sua história continua sem um encerramento verdadeiro, como a de tantas famílias brasileiras que nunca receberam os restos mortais de seus filhos, irmãos, pais e companheiros.

Por isso, embora trate de acontecimentos ocorridos há mais de cinquenta anos, Bruno rejeita a ideia de que Honestino seja apenas mais uma obra sobre o passado.

“O filme aconteceu há cinquenta anos, mas até hoje a gente luta por democracia, por saúde, por educação. Não é só mais um filme sobre isso. É um filme sobre a nossa história”, afirmou.

O lançamento em um ano eleitoral também torna o debate ainda mais urgente. O ator reconhece que sua presença pode atrair espectadores que talvez ainda não conheçam Honestino e entende essa visibilidade como parte de sua função como artista.

“Se eu posso trazer essas pessoas para conhecerem a própria história, como não vou fazer? Meu papel como ator e como artista é trazer à tona o que de fato aconteceu no nosso país”, disse. “Tentaram apagar a história desses meninos e não conseguiram. Mataram o corpo, mas não mataram o espírito.”

Bruno admitiu que ele próprio sabia pouco sobre Honestino antes do filme. Agora, espera que o longa faça essa história circular, sobretudo entre os jovens que continuam saindo às ruas, defendendo direitos e imaginando outro país.

“Todos nós somos Honestinos. Basta pensar no outro, pensar no coletivo e querer mudar o mundo”, afirmou.

O cinema não pode devolver a vida que foi interrompida, localizar o corpo que desapareceu ou oferecer à família todas as respostas que o Estado lhe negou. Pode, porém, impedir que o silêncio termine o trabalho iniciado pela violência.

“Olha quem morreu por causa disso. Jovens desapareceram na época da ditadura. Não pode normalizar”, disse Bruno.

Honestino chega aos cinemas em 4 de agosto. Mais do que uma biografia ou um documentário sobre a ditadura, é a tentativa de devolver rosto, voz e humanidade a alguém que tentaram transformar em ausência. Como Bruno resumiu em Bonito: “Honestino vive”.


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