Por favor, deixem Marilyn Monroe descansar

Marilyn Monroe completaria 100 anos em 2026. Nasceu em 1º de junho de 1926, morreu em 4 de agosto de 1962, aos 36 anos, e, portanto, está morta há quase 64 anos. Ainda assim, Hollywood continua se comportando como se houvesse uma última porta a ser aberta, uma explicação definitiva a ser encontrada ou mais uma atriz capaz de finalmente revelar quem existia por trás da mulher mais fotografada, analisada, imitada e explorada do século 20.

Agora será a vez de Dakota Johnson.

A atriz interpretará Marilyn em Flesh Impact, curta-metragem dirigido por Maggie Gyllenhaal. Dakota viverá Monroe no auge da fama, enquanto Ellen Burstyn encarnará a mulher que o mundo jamais teve a oportunidade de conhecer: uma Marilyn mais velha, que sobreviveu, envelheceu e pôde existir além dos 36 anos.

Não é exatamente outra cinebiografia convencional, o que torna o projeto um pouco mais interessante. Flesh Impact não parece interessado apenas em revisitar os casamentos, os filmes, os remédios, os Kennedy, a exploração e as circunstâncias de sua morte. Em vez disso, parte da ausência provocada por aquela morte precoce para imaginar a vida que Marilyn nunca pôde viver.

Pode ser uma bela ideia. Pode até resultar em um filme comovente, mas a pergunta permanece: por que ainda precisamos inventar novas Marilyns?

Quantas Marilyns ainda precisamos conhecer?

Marilyn Monroe já foi interpretada, recriada, citada, imitada e evocada por dezenas de atrizes no cinema, na televisão, no teatro, na publicidade e na música. Algumas eram grandes estrelas. Outras se tornaram conhecidas justamente porque assumiram o cabelo platinado, a voz sussurrada e os gestos que o público imediatamente reconhece.

Houve Misty Rowe em Goodbye, Norma Jean, Catherine Hicks em Marilyn: The Untold Story, Theresa Russell em Insignificance, Susan Griffiths em Marilyn and Me, Barbara Niven em The Rat Pack e Melody Anderson em Marilyn & Bobby: Her Final Affair.

Ashley Judd e Mira Sorvino dividiram a personagem em Norma Jean & Marilyn. Poppy Montgomery protagonizou a primeira adaptação televisiva de Blonde. Michelle Williams recebeu uma indicação ao Oscar por Sete Dias com Marilyn. Kelli Garner viveu a atriz em The Secret Life of Marilyn Monroe. Até Smash construiu uma série inteira em torno da disputa entre atrizes para interpretá-la em um musical da Broadway.

Madonna, Uma Thurman, Margot Robbie, Blake Lively e tantas outras também tomaram emprestadas as roupas, a voz, as poses ou a mitologia. Marilyn deixou de ser apenas uma pessoa histórica e se tornou uma linguagem visual que qualquer produção pode convocar com um vestido branco, uma pinta no rosto e um pouco de cabelo platinado.

Ana de Armas foi a intérprete mais recente em uma grande produção. Blonde era um filme muito ruim: manipulador, punitivo e, em alguns momentos, quase cruel com a mulher que fingia querer compreender. Reduzia Marilyn quase exclusivamente ao sofrimento, como se cada instante de sua existência precisasse conduzir inevitavelmente à destruição. Ana de Armas, porém, estava sensacional. Sua atuação sobreviveu ao filme ao redor e lhe rendeu uma indicação ao Oscar.

O problema nunca foi a falta de atrizes talentosas. Michelle Williams encontrou uma delicadeza inesperada em Marilyn. Mira Sorvino capturou a persona construída. Ana de Armas encontrou sua angústia. Dakota Johnson pode perfeitamente oferecer outra grande interpretação.

Eu gosto de Dakota. Ela tem uma inteligência seca, uma presença incomum diante da câmera e uma qualidade introspectiva muitas vezes mais interessante do que os projetos que primeiro a tornaram famosa permitiam perceber. Não tenho motivo para duvidar de que possa criar uma Marilyn sensível e convincente. A questão não é se Dakota Johnson será boa, mas o que exatamente ainda estamos procurando em Marilyn Monroe?

Duas Marilyns, outra vez

Há também motivo para olhar o projeto de Maggie Gyllenhaal com alguma cautela.

Depois do excelente A Filha Perdida, Gyllenhaal dirigiu A Noiva!, uma reinvenção da Noiva de Frankenstein construída a partir de uma leitura abertamente feminista. Defender o feminismo no cinema é sempre necessário, sobretudo quando tantas narrativas clássicas foram criadas silenciando, punindo ou reduzindo suas personagens femininas.

A dificuldade começa quando a tese se torna mais pesada do que a personagem e o argumento político passa a ditar cada escolha criativa. A Noiva! não foi bem recebido, e parte do problema estava justamente na impressão de que o filme se esforçava tanto para deixar sua posição evidente que perdia parte da ambiguidade, da profundidade emocional e da complexidade exigidas pela história.

Não se trata de questionar se o feminismo deve estar no filme. Claro que deve. A questão é como ele se transforma em dramaturgia, em vez de ser entregue como declaração. Essa preocupação se torna relevante porque imaginar duas Marilyns não é, por si só, uma ideia especialmente inovadora.

A divisão entre Norma Jeane e Marilyn Monroe talvez seja o recurso mais utilizado em qualquer narrativa sobre ela. Existe a mulher e existe a estrela; a pessoa privada e a fantasia pública; a figura vulnerável e a persona luminosa; a mulher que queria desesperadamente ser amada e a imagem desejada pelo mundo inteiro.

A própria Marilyn colaborou para essa narrativa. Ela falava sobre a estranha separação entre Norma Jeane e “Marilyn”, descrevendo às vezes a persona da estrela quase como se observasse outra mulher aparecer. Sabia que Marilyn Monroe havia se tornado algo maior do que ela própria, uma performance que conseguia acionar, mas que já não controlava completamente.

O cinema e a televisão exploraram essa dualidade inúmeras vezes; mencionei justamente o filme de 1996 com Ashley Judd e Mira Sorvino, transformando o conflito interno em duas atrizes e praticamente duas mulheres distintas na tela. O contraste entre a pessoa e o mito, portanto, não é uma descoberta. Tornou-se quase a estrutura padrão de toda tentativa de explicar Marilyn.

E se o novo projeto volta mais uma vez a essa divisão familiar, a pergunta se torna ainda mais urgente: se não oferece uma maneira verdadeiramente nova de enxergar Marilyn, por que contar novamente essa história?

Imaginar uma Marilyn mais velha é bonito ou cruel?

A presença de Ellen Burstyn como uma Marilyn envelhecida introduz outra possibilidade. Permite ao filme imaginar o rosto que Marilyn nunca teve a oportunidade de alcançar, as escolhas que poderia ter feito e a mulher que talvez se tornasse quando Hollywood já não pudesse exigir que permanecesse eternamente jovem. É, sem dúvida, uma imagem bonita, mas talvez seja também uma imagem cruel.

Todos os que amam Marilyn já imaginaram, em algum momento, a vida que ela poderia ter vivido caso tivesse sobrevivido. Queremos acreditar que encontraria paz, que conseguiria escapar dos homens que a feriram, libertar-se dos estúdios que a exploraram e receber o reconhecimento artístico que passou anos tentando conquistar.

Imaginamos Marilyn produzindo os próprios filmes, escolhendo papéis mais sérios, talvez dirigindo, talvez escrevendo, talvez finalmente sendo tratada como a atriz inteligente e ambiciosa que sempre quis que o mundo enxergasse. Imaginamos que envelheceria com dignidade e se tornaria uma dessas grandes mulheres de Hollywood capazes de olhar para a juventude com ironia e distância.

Eu, particularmente, não tenho tanta certeza.

A dor de Marilyn não começou com a fama, e me parece difícil acreditar que terminaria simplesmente com o passar dos anos. Sua infância foi marcada pelo abandono, pela instabilidade, por lares temporários, pela ausência de uma família segura e por diferentes formas de violência. A vida adulta repetiu muitas dessas feridas em casamentos, relações e ambientes profissionais nos quais ela continuou buscando uma segurança que jamais conheceu.

Aos 36 anos, ainda extraordinariamente jovem, já era tratada por Hollywood como se estivesse se aproximando da velhice. A indústria que a havia construído como o maior símbolo de juventude e sexualidade começava a considerá-la pouco confiável, difícil e cada vez mais substituível. Emocionalmente, Marilyn estava perdida, confusa e profundamente solitária.

Isso não significa que nunca tenha sido feliz. Eu espero que tenha sido. Espero que tenha vivido momentos verdadeiros de afeto, amizade, prazer, orgulho profissional e alegria. Seu humor era real. Sua inteligência era real. Seu talento para a comédia era real. O prazer que sentia ao atuar não era falso apenas porque convivia com a ansiedade e o desespero. Mas havia nela também uma tristeza muito antiga, acompanhada de amargura, medo, decepção e uma enorme dificuldade de acreditar que pudesse ser amada sem antes se transformar naquilo que os outros desejavam que fosse.

Uma vida mais longa não significaria automaticamente uma vida pacificada.

Talvez Marilyn encontrasse um tratamento eficaz, estabilidade emocional e outra forma de viver. Talvez o tempo lhe desse a distância necessária para compreender as forças que a haviam moldado. Talvez construísse outra carreira e encontrasse relações que não repetissem o abandono da infância. Mas talvez não.

No ponto em que chegou em 1962, estava tão vulnerável, tão dependente de um sistema que simultaneamente a adorava e a destruía, e tão insegura sobre onde Norma Jeane terminava e Marilyn Monroe começava, que encontrar paz exigiria muito mais do que simplesmente sobreviver a uma noite terrível.

Imaginar sua velhice pode nascer de um gesto de ternura. Pode ser uma tentativa de devolver o futuro que a morte lhe tirou. Mas também corre o risco de criar outra fantasia em torno de uma mulher que passou a vida inteira aprisionada nas fantasias alheias.

Até o futuro que ela não viveu agora pertence a cineastas, atrizes e espectadores.

Dakota Johnson e a herança do desejo

A escolha de Dakota Johnson acrescenta outra camada interessante ao projeto porque ela própria nasceu em uma família moldada pelo cinema, pela beleza e pelo desejo do público.

É filha de Melanie Griffith e Don Johnson e neta de Tippi Hedren, três intérpretes cujas imagens foram, de diferentes formas, transformadas em objetos de fascínio. Tippi Hedren, em especial, conhece o preço de ser escolhida por um cineasta poderoso para encarnar uma ideia específica de feminilidade diante das câmeras.

Dakota também entende o que significa ser reduzida à imagem criada por um único projeto. Durante anos, foi tratada principalmente como a mulher de Cinquenta Tons de Cinza, embora papéis posteriores tenham revelado uma atriz muito mais incomum, com um humor discreto, certa distância emocional e uma inteligência que costuma trabalhar por baixo da superfície. Talvez seja justamente isso que a torne uma escolha interessante para Marilyn.

Ela não precisa reproduzir Marilyn com perfeição. Não precisa apresentar a voz mais exata, o andar mais fiel ou o sorriso mais convincente. Precisa compreender o cansaço de uma mulher presa dentro de uma imagem que continuou existindo independentemente dela.

Dakota talvez também compreenda algo sobre crescer cercada por mulheres cuja beleza se tornou parte da identidade pública. É filha e neta de mulheres tratadas como símbolos sexuais e que precisaram negociar a distância entre os papéis projetados sobre elas e as pessoas que realmente eram.

Existe material valioso aí. Existe um filme potencialmente significativo aí. Mas a possibilidade de uma boa interpretação não responde à pergunta maior.

A maior lenda que Hollywood já criou

Marilyn Monroe talvez seja a maior lenda produzida por Hollywood justamente porque a dimensão de sua permanência tem pouca relação com as medidas convencionais de uma grande carreira. Ela não viveu o suficiente para construir uma filmografia enorme. Não teve décadas para se reinventar, desaparecer, voltar, fracassar, se recuperar e ser redescoberta. Não ganhou o Oscar e sequer foi indicada.

Sua carreira durou pouco mais de uma década e foi marcada por conflitos com estúdios que lucravam com seu corpo e sua imagem enquanto desconfiavam de sua inteligência, de sua ambição e de seu desejo de ser levada a sério. Ainda assim, nenhuma outra atriz ocupa o mesmo lugar.

Não importa quantas estrelas tenham conquistado mais prêmios, realizado mais filmes ou sustentado carreiras muito mais longas. Marilyn permanece acima delas como imagem, símbolo, fantasia e tragédia.

Ela é reconhecida por pessoas que talvez jamais tenham assistido a Quanto Mais Quente Melhor, Os Homens Preferem as Loiras, O Pecado Mora ao Lado ou Os Desajustados. Sua imagem escapou dos filmes e se tornou maior do que a própria obra.

Sua permanência vem em parte do cinema, mas também de tudo aquilo que foi obrigada a representar: a sexualidade, a vulnerabilidade, a fabricação das estrelas, a solidão da fama, a exploração das mulheres e a promessa cruel de que ser desejada pelo mundo inteiro poderia compensar nunca se sentir verdadeiramente amada por ele. Não compensou.

Marilyn alcançou uma imortalidade que pouco tem a ver com prêmios ou com a quantidade de filmes que realizou. Ela nasce do amor do público, do mistério criado em torno de sua morte e da estranha intimidade que as pessoas ainda sentem com uma mulher que jamais conheceram.

Esse amor é verdadeiro. Também é parte da razão pela qual nos recusamos a libertá-la.

Por que não conseguimos deixar Marilyn partir?

Talvez continuemos voltando a Marilyn porque ela morreu cedo demais para corrigir a interpretação que fazemos dela. Ela não envelheceu diante do público. Não teve a oportunidade de abandonar a imagem de símbolo sexual, escolher papéis radicalmente diferentes, dirigir, produzir, fracassar, retornar ou simplesmente se tornar uma mulher mais velha que já não precisava seduzir ninguém. Não pôde contar a própria história com a distância que apenas o tempo talvez proporcionasse. Por isso, todos continuam contando com ela.

Cada geração acredita que finalmente descobrirá a verdadeira Norma Jeane escondida atrás de Marilyn Monroe. Mas talvez essa mulher já esteja soterrada sob tantas versões, teorias, livros, filmes, documentários e projeções que toda nova tentativa revele mais sobre a época que a produz do que sobre a própria Marilyn.

Ela já foi apresentada como vítima, sedutora, criança ferida, amante dos Kennedy, artista incompreendida, dependente, símbolo feminista, manipuladora e mártir de Hollywood. Seu trauma virou entretenimento. Sua morte virou mistério comercial. Seu corpo virou propriedade pública. Agora até a mulher que poderia ter sido aos 70 ou aos 80 anos será interpretada por outra pessoa.

Repito: não duvido de Dakota Johnson. Gosto dela e acredito que possa criar uma Marilyn delicada, inteligente e menos óbvia. Não duvido da força de Ellen Burstyn nem do desejo sincero de Maggie Gyllenhaal de imaginar outro destino para uma mulher a quem esse destino foi negado. Duvido apenas de nossa capacidade de olhar para Marilyn Monroe sem exigir mais alguma coisa dela.

Ela já nos deu os filmes, as fotografias, a voz, o humor, a beleza, a vulnerabilidade e até a tragédia. Deu muito mais do que recebeu. Talvez, no ano em que completaria 100 anos, a homenagem mais generosa não fosse recriar Marilyn outra vez, explicar Marilyn outra vez ou inventar mais uma versão de Marilyn.

Talvez fosse, finalmente, deixar Marilyn Monroe descansar.


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