Julho fecha o mês com uma notícia triste para os fãs de música.
O cantor, compositor e ator irlandês Glen Hansard morreu nesta quarta-feira (29), aos 56 anos, encerrando de forma abrupta uma carreira construída muito mais pela honestidade artística do que pela fama.

Para o grande público, Hansard será lembrado para sempre por Once (2007), o pequeno filme independente que se transformou em um fenômeno mundial. Ao lado de Markéta Irglová, escreveu e interpretou Falling Slowly, vencedora do Oscar de Melhor Canção Original em 2008. Era uma música despretensiosa, quase tímida, mas carregava uma verdade emocional tão rara que atravessou fronteiras e acabou eternizada também nos palcos, quando Once virou um premiado musical da Broadway.
Mas reduzir Glen Hansard ao Oscar seria profundamente injusto.
Muito antes da estatueta dourada, ele já era um dos músicos mais respeitados da Irlanda como líder do The Frames, banda que ajudou a definir uma geração do rock alternativo. Depois veio o The Swell Season, parceria artística e afetiva com Irglová que produziu algumas das canções mais bonitas dos anos 2000. Em seguida, construiu uma sólida carreira solo, marcada por discos em que a intensidade nunca parecia calculada. Tudo soava vivido.
Tive a sorte de vê-lo ao vivo quando veio ao Brasil com o The Swell Season. É um daqueles shows que permanecem na memória muitos anos depois. Hansard cantava como quem conversava diretamente com cada pessoa da plateia. Não havia distância entre palco e público, nem qualquer sensação de espetáculo cuidadosamente ensaiado. Existia apenas uma entrega absoluta à música.
Talvez essa fosse sua maior qualidade.
Enquanto tantos artistas buscavam impressionar pela técnica ou pela grandiosidade, Glen Hansard parecia interessado apenas em emocionar. Sua voz nunca foi perfeita nos padrões tradicionais, mas justamente por isso transmitia uma humanidade difícil de encontrar. Cada pequena imperfeição lembrava que aquelas canções nasciam de alguém real.
Sua trajetória também dizia muito sobre quem era. Antes dos palcos lotados e do Oscar, passou anos tocando nas ruas de Dublin. Mesmo depois da fama, nunca perdeu essa essência. Continuou fazendo da música um encontro, não um monumento.
Vinte anos depois de Once transformar uma produção minúscula em um clássico moderno, Falling Slowly continua sendo muito mais do que uma canção premiada. É daquelas músicas que sobrevivem porque falam das fragilidades humanas mais universais.

Hoje, o cinema perde um vencedor do Oscar. A música perde um compositor extraordinário.
E eu me despeço de um artista que acompanhei por muitos anos, desde antes da estatueta, e que tive o privilégio de ver ao vivo. Glen Hansard nunca foi o músico mais famoso da sua geração. Mas foi, sem dúvida, um dos mais sinceros.
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