Nos últimos anos, filhos de homens muito famosos começaram a retirar o sobrenome paterno de seus nomes públicos e, em alguns casos, também dos documentos. Suri, filha de Tom Cruise e Katie Holmes, passou a usar Suri Noelle. Entre os filhos de Brad Pitt e Angelina Jolie, Shiloh retirou legalmente “Pitt”, enquanto outros passaram a usar apenas Jolie.
Não conhecemos o processo íntimo de nenhum deles e não cabe à psicanálise transformar essas decisões em diagnósticos. Mas é possível perguntar o que esse gesto representa simbolicamente. Porque um sobrenome não é apenas uma identificação civil. Ele anuncia pertencimento, continuidade e reconhecimento.
Quando alguém decide não carregá-lo mais, talvez esteja tentando modificar a maneira como essa filiação será apresentada ao mundo.
O pai real e a função paterna
A primeira distinção necessária é entre o pai concreto e a função paterna.
O pai concreto é o homem da história familiar: aquele que esteve presente ou ausente, que cuidou, amou, decepcionou, abandonou ou permaneceu emocionalmente distante.
A função paterna é outra coisa.
Em Freud, o pai ocupa um lugar fundamental no complexo de Édipo porque representa o limite imposto à fantasia infantil de possuir exclusivamente a mãe. A criança precisa perceber que não poderá ocupar todos os lugares nem ser tudo para quem cuida dela.
Lacan desenvolve essa ideia por meio do Nome-do-Pai. Não se trata literalmente do sobrenome, mas de uma função simbólica que introduz a lei, a separação e a existência de um terceiro na relação inicial entre a criança e a figura materna.
A criança descobre que a mãe possui outros desejos, vínculos e interesses. Descobre que não é o centro absoluto do mundo e que nenhuma relação será capaz de eliminar completamente a falta.
Essa descoberta é dolorosa, mas estruturante.

O limite que liberta
A função paterna não consiste simplesmente em proibir. Seu papel é introduzir um limite que organize a experiência sem destruir o sujeito.
O “não” simbólico informa que nem todos os desejos serão satisfeitos, que as outras pessoas não existem apenas para nos atender e que o amor não significa posse.
Mas esse limite também liberta. Ao perceber que não pode ser tudo para o outro, a criança começa a perguntar quem é. A falta abre espaço para o pensamento, a fantasia, a linguagem e o desejo próprio.
O pai simbólico, portanto, não é somente aquele que diz “você não pode”. É também aquele que comunica: “você não precisa ser minha extensão”.
Um homem pode transmitir o sobrenome sem exercer essa função. Pode aparecer na certidão, nas fotografias e nas manchetes, mas permanecer emocionalmente ausente. Também pode impor autoridade sem oferecer proteção, confundindo limite com controle.
Limite não é abandono
Essa diferença é essencial.
O limite estruturante frustra a criança, mas preserva seu lugar no vínculo. Ela descobre que não terá tudo, porém continua sabendo que é amada e reconhecida.
O abandono comunica outra coisa. O pai que desaparece, rejeita ou ignora não está necessariamente introduzindo a criança na realidade. Pode estar produzindo desamparo.
Não se deve romantizar a ausência paterna como se toda frustração favorecesse o amadurecimento. Algumas experiências ajudam a criança a crescer. Outras deixam feridas que podem reaparecer na vida adulta como medo de rejeição, necessidade de aprovação ou repetição de relações com pessoas emocionalmente indisponíveis.
A função paterna separa sem abandonar.

Winnicott e o ambiente familiar
Winnicott amplia essa discussão ao pensar o desenvolvimento emocional a partir de um ambiente suficientemente bom.
A criança precisa ser sustentada enquanto ainda não consegue existir de forma independente. A figura paterna pode participar desse ambiente, proteger a relação inicial entre mãe e bebê e, aos poucos, ajudar a apresentar à criança um mundo maior do que aquela ligação primária.
Isso não significa que apenas um homem possa exercer essa função. A mãe também estabelece limites. O pai também acolhe. Uma mesma pessoa pode oferecer cuidado, proteção, separação e abertura para o mundo.
As funções não dependem rigidamente do sexo de quem as exerce.
Mas isso não torna as pessoas concretas indiferentes ou facilmente substituíveis. Uma criança pode receber amor e sustentação de várias figuras e, ainda assim, sofrer pela ausência ou rejeição do próprio pai.
O sobrenome como promessa
O sobrenome paterno transforma a filiação em identidade pública.
Ele comunica que aquela pessoa pertence a uma família e participa da continuidade daquele homem. Em famílias famosas, esse peso é ainda maior. Antes mesmo de conquistar algo próprio, o filho já é apresentado como herdeiro de uma imagem, de um patrimônio e de uma narrativa.
“Cruise” e “Pitt” não são sobrenomes neutros. Eles carregam uma força cultural imensa. Podem abrir portas, mas também aprisionar o filho à condição permanente de extensão do pai.
A pessoa corre o risco de ser observada não pelo que é, mas pelo que herdou, recusou ou deixou de reproduzir.
Retirar o nome pode ser uma tentativa de criar distância entre o sujeito e a identidade que lhe foi entregue.

Quando o nome não corresponde ao vínculo
Um sobrenome pode anunciar uma proximidade que a experiência emocional não confirmou.
O documento registra a filiação, mas nada diz sobre intimidade, cuidado ou presença. Pode haver um pai no nome e uma ausência na vida.
Nesse caso, retirar o sobrenome pode significar:
Não quero que minha identidade pública anuncie uma relação que não reconheço.
Não quero continuar sendo apresentado como extensão desse homem.
Não quero que filiação biológica seja confundida com proximidade emocional.
Ao adotar um nome ligado à mãe, o filho também pode estar reconhecendo quem efetivamente sustentou sua vida cotidiana. Ainda assim, somente cada pessoa poderia explicar o sentido particular de sua escolha.
O pai imaginário
Além do pai real e do pai simbólico, existe o pai imaginário: aquele construído nas fantasias do filho.
Pode ser o pai idealizado, protetor e poderoso. Pode ser também o pai responsabilizado por todas as dores. Muitas vezes, essas imagens coexistem.
O filho pode rejeitar o pai que teve e continuar esperando que ele se transforme naquele que desejava ter. Que volte, reconheça a dor causada, peça desculpas ou finalmente ofereça o amor esperado.
Por isso, retirar o nome pode envolver um luto. Não apenas pelo pai real, mas pelo pai imaginado.
Talvez o gesto represente a desistência de continuar esperando reconhecimento daquele homem. Mas o documento não conclui o processo psíquico. O pai pode sair do sobrenome e permanecer nas lembranças, nas escolhas, nas comparações e nas tentativas de não se parecer com ele.
Mesmo a rejeição pode manter o sujeito ligado à pessoa rejeitada.
O pai que permite a separação
Existe uma ironia importante nisso tudo.
A função paterna deveria ajudar o filho a separar-se. Um pai suficientemente bom não exige que a criança permaneça como sua extensão. Tolera que ela discorde, faça escolhas próprias e construa uma identidade que não confirme seus desejos narcísicos.
O pai que precisa ser repetido no nome, nas escolhas e nas conquistas do filho pode desejar mais um herdeiro do que um sujeito.
Exercer a função paterna também significa aceitar o próprio limite. O pai precisa reconhecer que não será tudo para o filho e que um dia deixará de ocupar o centro de sua vida.
Quando essa separação não é autorizada, o filho talvez precise produzi-la sozinho.
Retirar o sobrenome pode funcionar como esse corte tardio:
Você participa da minha origem, mas não será toda a minha identidade.

Colocar o pai em seu lugar
Retirar “Cruise” ou “Pitt” não apaga Tom Cruise ou Brad Pitt da história de seus filhos. A biologia, a memória e as experiências vividas não obedecem ao cartório.
Mas o nome também é uma maneira de narrar essa história.
Ao modificá-lo, o filho pode estar reivindicando o direito de decidir qual lugar o pai ocupará em sua apresentação ao mundo. O gesto pode conter raiva, amor, luto, identificação com a mãe, desejo de autonomia ou várias dessas emoções ao mesmo tempo.
Freud mostrou que amor e hostilidade podem coexistir em relação às mesmas figuras. Lacan diferenciou o pai concreto da função simbólica. Winnicott destacou a importância de um ambiente capaz de acolher a criança e, progressivamente, permitir que ela encontre o mundo.
Esses autores ajudam a compreender por que retirar o nome não significa necessariamente eliminar o pai.
Pode significar algo mais difícil: deixar de carregá-lo como identidade.
O pai continua na história.
Apenas deixa de ser o título dela.
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