Quando a psicanálise das redes se transforma em armadilha

“Ele é evitativo.” “Eu tenho apego ansioso.” “Minha mãe é narcisista.” “Estou repetindo um trauma.” Nunca falamos tanto sobre saúde mental, relações tóxicas, mecanismos de defesa e feridas da infância. Em algum nível, isso é positivo. Quanto mais conseguimos nomear nossas dores, menos precisamos escondê-las como defeitos pessoais ou fracassos morais.

O problema começa quando conceitos criados para investigar a complexidade humana são transformados em respostas instantâneas. A suposta psicanálise das redes sociais é, em muitos aspectos, a antítese do trabalho analítico: oferece definições antes que qualquer investigação tenha realmente começado.

Tudo pode ser explicado em poucos minutos. Você sofre porque tem determinado estilo de apego. Ele desaparece porque teme a intimidade. Você não consegue impor limites por causa de um trauma. Sua dificuldade amorosa nasceu da ausência emocional dos seus pais.

Talvez seja verdade. Mas também pode não ser, ou representar apenas uma parte de uma história muito mais complexa.

A sedução de encontrar uma resposta

É natural buscar uma explicação quando alguma coisa está doendo. Queremos que a dor pare e, de preferência, rapidamente. Encontrar um termo que pareça descrever exatamente o que sentimos produz alívio porque organiza o caos. Se a dor tem nome, talvez também tenha uma solução.

Foi em parte por isso que a teoria do apego se tornou uma febre. Desenvolvida a partir dos anos 1950 pelo psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby, ela propõe que as primeiras relações de cuidado ajudam a formar nossas expectativas sobre os vínculos. Aprendemos muito cedo se o outro é confiável, se a proximidade é segura ou se depender de alguém representa um risco.

Nas redes, uma teoria complexa foi reduzida a estilos facilmente reconhecíveis. Os vídeos ensinam a descobrir qual é o nosso e, principalmente, a identificar o da pessoa com quem estamos nos relacionando.

Essa popularização não é necessariamente ruim. Alguém pode finalmente perceber por que se desespera diante de uma mensagem não respondida. Outra pessoa talvez reconheça que costuma se afastar justamente quando começa a gostar de alguém. O risco está em transformar uma identificação inicial em diagnóstico definitivo.

Bowlby não criou um teste de personalidade, e os padrões de apego não são identidades imutáveis. Podem variar entre relações e se modificar a partir de novas experiências. Uma pessoa pode se sentir segura em uma amizade e profundamente ameaçada em um relacionamento amoroso. Também pode parecer evitativa simplesmente porque não deseja aquele vínculo específico.

Nem todo afastamento é medo da intimidade. Às vezes, é desinteresse.

O trabalho começa onde a definição termina

A psicanálise não se contentaria em concluir que alguém foge da proximidade. Perguntaria o que aquela proximidade representa para essa pessoa. Dependência? Risco de abandono? Perda de liberdade? Medo de ser conhecida e, depois, rejeitada?

O comportamento visível pode ser semelhante em diferentes pessoas. A história inconsciente que o sustenta, não.

É por isso que o trabalho analítico demanda tempo, vontade e abertura. A psicanálise não oferece uma lista de comportamentos que levarão à cura nem uma explicação unilateral sobre a origem de todos os conflitos. Antes de aliviar determinadas dores, pode nos aproximar de outras ainda mais antigas e cuidadosamente protegidas pelas defesas que construímos.

Freud percebeu que não repetimos apenas aquilo que nos faz bem. Também recriamos relações frustrantes e escolhas que juramos nunca mais fazer. Não necessariamente porque desejamos sofrer, mas porque o conhecido, mesmo ruim, pode parecer menos ameaçador do que aquilo que nunca experimentamos.

Também podemos repetir movidos pela fantasia inconsciente de finalmente conseguir um desfecho diferente: fazer com que a pessoa indisponível nos escolha, conseguir que alguém permaneça ou transformar uma relação presente na reparação de todas as anteriores.

Saber o nome do padrão não interrompe essa repetição. Posso conhecer tudo sobre apego ansioso e continuar desejando justamente quem alimenta minha insegurança. A informação organiza intelectualmente o sofrimento, mas não necessariamente alcança aquilo que o sustenta.

Quando o conhecimento se transforma em defesa

Há ainda um conforto narcísico em diagnosticar o outro. Defini-lo como evitativo pode significar: não fui rejeitada; ele é incapaz de se vincular. A explicação preserva nossa imagem e desloca para uma categoria psicológica aquilo que deveria ser pensado como relação.

Passamos a pesquisar como lidar com determinado “tipo” de pessoa, em vez de perguntar por que continuamos em um vínculo que não oferece aquilo que desejamos.

Compreender a história de alguém não nos obriga a permanecer em uma relação que nos machuca. Tampouco devemos transformar toda ausência em sintoma. Em alguns casos, usar uma teoria sofisticada serve apenas para evitar uma verdade simples e dolorosa: aquela pessoa talvez não queira ficar.

É justamente aí que as tendências psicológicas das redes revelam sua maior contradição. Elas oferecem reconhecimento sem necessariamente exigir transformação. Descobrimos a origem do padrão, compartilhamos um vídeo sobre ele e continuamos repetindo a mesma história.

Quanto mais uma teoria precisa ser simplificada para circular, maior o risco de deixar de funcionar como ferramenta de compreensão e se transformar em armadilha. O conceito que deveria abrir uma pergunta passa a encerrá-la.

A psicanálise das redes diz: “Você é assim”. O trabalho analítico pergunta: “Por que isso acontece dessa maneira com você?”. A primeira resposta oferece uma identidade. A segunda devolve ao sujeito sua singularidade e também alguma responsabilidade sobre aquilo que continua acontecendo.

A teoria do apego é útil quando funciona como mapa. Torna-se perigosa quando vira identidade, desculpa ou sentença. Dar nome ao sofrimento pode ser o começo de uma investigação, mas nunca deveria ser seu ponto final.

Entre reconhecer um padrão e conseguir deixar de repeti-lo existe tudo aquilo que as redes sociais precisam eliminar para caber em um vídeo: tempo, resistência, contradição, desejo e responsabilidade. Existe também a descoberta mais incômoda de todas, a de que nem sempre somos apenas vítimas das histórias que se repetem. Em algum nível, também ajudamos a mantê-las vivas.

Talvez seja justamente por isso que a psicanálise continue necessária. Ela não oferece o conforto imediato de dizer quem somos, mas a possibilidade muito mais difícil de compreender por que continuamos sendo assim.

O rótulo acalma a dor ao afirmar: “Você é assim”. A análise começa quando finalmente conseguimos perguntar: “Por que ainda preciso ser?”.


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