Rosalía se apresenta no Brasil na próxima semana, e estarei na plateia da segunda noite, no dia 11 de agosto, no Rio de Janeiro. A expectativa já seria grande simplesmente por ser Rosalía, uma artista que nunca parece interessada em repetir o que fez antes. Mas a LUX Tour chega cercada por algo ainda mais estimulante: a sensação de que estamos diante de um espetáculo que tenta ampliar os limites do que entendemos como uma turnê pop.
Desde que estreou, a turnê tem sido descrita menos como uma sequência de músicas e mais como uma obra cênica completa. Há ópera, ballet, flamenco, música eletrônica, religiosidade, humor, sensualidade e uma artista disposta a transformar o próprio corpo em parte da narrativa. Rosalía canta, dança, interpreta, surge sobre sapatilhas de ponta e atravessa um palco construído como um espaço de fé, culpa, desejo e libertação.
Naturalmente, a turnê gira em torno de LUX, álbum monumental no qual Rosalía canta em diferentes idiomas, trabalha com referências religiosas e aproxima música orquestral, eletrônica e pop experimental. Quem espera uma retrospectiva convencional, com todos os sucessos apresentados em sequência, poderá estranhar. A proposta é outra: conduzir o público por uma experiência dividida em atos, com mudanças de atmosfera e imagens que parecem retiradas de uma missa, de uma ópera ou de um sonho febril.
O repertório começa de maneira solene com músicas como “Sexo, violencia y llantas”, “Reliquia”, “Porcelana”, “Divinize” e “Mio Cristo piange diamanti”. Aos poucos, a cerimônia se rompe e dá lugar à Rosalía mais física de Motomami, com “SAOKO”, “LA FAMA” e “LA COMBI VERSACE”. Mais adiante chegam “BIZCOCHITO” e “DESPECHÁ”, quase como uma libertação depois de toda a solenidade anterior. O encerramento com “Magnolias” devolve o espetáculo ao terreno espiritual com o qual começou.

Talvez o mais interessante seja justamente a maneira como Rosalía evita escolher entre a artista experimental e a estrela pop. Ela pode cantar de forma quase operística, cercada por referências a santas e sacrifícios, e poucos minutos depois transformar a arena em uma pista de dança. Não há contradição. A mistura é a essência de seu trabalho e também o motivo pelo qual cada novo projeto parece exigir que o público abandone as expectativas construídas pelo anterior.
Há ainda um confessionário no palco, ocupado a cada noite por convidados diferentes. O momento oferece uma pequena margem de improviso dentro de uma produção cuidadosamente coreografada e tem rendido encontros engraçados, emocionais e imprevisíveis. Em Buenos Aires, Lali Espósito foi uma das convidadas e contou uma história pessoal diante de Rosalía e do público.
A passagem pela América Latina vem confirmando a força do espetáculo. Rosalía realizou quatro apresentações em Santiago, recebida por um público que cantou as músicas em diferentes idiomas, e depois seguiu para Buenos Aires antes de chegar ao Rio. A segunda apresentação brasileira foi acrescentada diante da procura por ingressos, transformando a passagem pela cidade em duas noites na Farmasi Arena.
Os shows acontecem nos dias 10 e 11 de agosto, com abertura dos portões às 18h e início previsto para as 21h. No meu caso, será a segunda noite. E talvez seja justamente esse o melhor estado para chegar a uma apresentação de Rosalía: sabendo o suficiente para reconhecer a ambição do que ela criou, mas ainda sem saber exatamente como tudo aquilo será sentido ao vivo.
Porque vídeos, repertórios e críticas ajudam a antecipar o espetáculo, mas não conseguem reproduzir o que parece ser o centro da LUX Tour: a presença de Rosalía, uma artista que não quer apenas cantar suas músicas para milhares de pessoas. Ela quer construir, diante delas, um mundo inteiro — e depois incendiá-lo.
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