Elize Matsunaga: quando um bom filme transforma uma versão em verdade

Cinco anos depois do documentário Elize Matsunaga: Era Uma Vez um Crime, lançado em 2021, a Netflix retorna a um dos casos policiais mais chocantes do Brasil. Desta vez, não por meio de entrevistas, documentos e imagens de arquivo, mas de uma dramatização: Elize: Sombras de Uma Mulher, com Lorena Comparato no papel principal.

A ligação entre as duas produções não é apenas temática. O filme foi produzido pela Boutique Filmes, a mesma empresa responsável pela série documental. A direção é de Felipe Vellas, de DNA do Crime, com argumento de Raphael Montes e roteiro assinado por ele e Mariana Torres, ambos ligados a Bom Dia, Verônica. Henrique Kimura interpreta Marcos Matsunaga, e o elenco conta ainda com Denise Weinberg, Miwa Yanagizawa e Julia Shimura.

Sou muito dura com filmes brasileiros, talvez até mais do que deveria. Por isso, é preciso reconhecer a qualidade e a excelência desta produção. Há um bom roteiro, direção segura, uma reconstituição visual cuidadosa e atores, em sua maioria, com desempenhos convincentes. Lorena Comparato não transforma Elize em caricatura nem tenta reproduzir mecanicamente a mulher que vimos nos telejornais. Sua atuação é contida, ambígua e desconfortável.

O resultado funciona como filme. Funciona como suspense psicológico, como drama conjugal e como retrato de uma relação atravessada por dinheiro, classe social, traição, poder, ciúme e insegurança. Sem surpresa, Elize: Sombras de Uma Mulher chegou ao primeiro lugar entre os filmes mais assistidos da Netflix no Brasil.

O problema está justamente em como ele funciona.

O crime que chocou o Brasil

Em maio de 2012, o empresário Marcos Kitano Matsunaga, então com 42 anos, foi morto com um tiro dentro do apartamento onde vivia com Elize e com a filha pequena do casal, em São Paulo. Elize esquartejou o corpo, colocou as partes em malas e sacos plásticos e as abandonou em uma área de mata em Cotia.

Ela confessou o crime depois de ser confrontada com as evidências. Segundo sua versão, o tiro aconteceu durante uma discussão provocada pela descoberta de mais uma traição de Marcos. O que se seguiu foi uma operação minuciosa de destruição e ocultação do cadáver, realizada dentro do apartamento enquanto a filha do casal estava no imóvel.

Em dezembro de 2016, depois de um julgamento de sete dias, Elize foi condenada a 19 anos, 11 meses e um dia de prisão por homicídio qualificado, destruição e ocultação de cadáver. Os jurados reconheceram a qualificadora de recurso que impossibilitou a defesa da vítima, mas não acolheram as acusações de motivo torpe e meio cruel. Em 2019, o Superior Tribunal de Justiça reduziu a pena do homicídio para 16 anos e três meses, reconhecendo sua confissão como circunstância atenuante.

O caso reuniu praticamente todos os elementos clássicos de uma história de true crime: uma família milionária, um casamento construído sobre uma enorme diferença social, traição, sexo, dinheiro, câmeras de segurança, um desaparecimento e a revelação de que a pessoa que inicialmente dizia procurar a vítima havia sido responsável por sua morte.

Mas havia também algo ainda mais difícil de processar para a sociedade brasileira: uma mulher havia matado o marido rico, esquartejado seu corpo e tentado esconder o crime.

A história contada por quem sobreviveu

Tanto o documentário de 2021 quanto o novo filme conduzem a narrativa pela perspectiva de Elize. Isso não significa que neguem o crime ou que a declarem inocente. O assassinato e o esquartejamento estão presentes. A questão é como o público é conduzido emocionalmente até eles.

No filme, acompanhamos a paranoia, o ciúme, a humilhação e o medo de Elize. Marcos é mostrado como infiel, arrogante, controlador e cruel. Cada gesto dele parece confirmar as inseguranças dela. Cada diálogo aumenta a sensação de que aquela relação caminhava inevitavelmente para uma explosão.

Dramaticamente, funciona, mas existe um problema incontornável: não sabemos exatamente o que aconteceu nos momentos privados daquele casamento. Não temos gravações das discussões. Não conhecemos o conteúdo exato da última conversa entre os dois. Não temos como confirmar determinadas ameaças, humilhações ou frases atribuídas a Marcos. O que conhecemos desse espaço íntimo é, em grande parte, a versão de Elize, a única pessoa que saiu viva daquele apartamento.

O filme nunca esconde que é uma obra de ficção inspirada em um crime real. Para existir como cinema, precisa preencher lacunas, imaginar diálogos e transformar informações dispersas em uma narrativa coerente. A própria Netflix apresenta a produção como uma adaptação dramatizada sobre a deterioração do casamento, e não como uma reconstituição documental dos fatos.

Ainda assim, existe uma diferença entre criar uma verdade dramática e permitir que ela seja recebida como verdade histórica.

Quando o público acompanha quase toda a história pelos olhos de Elize, Marcos deixa de ser apenas a vítima incapaz de falar. Torna-se também o principal acusado do filme. É condenado por atitudes e diálogos dos quais não conhecemos todo o contexto e que ele, evidentemente, já não pode contestar.

Isso não significa que Marcos tenha sido um bom marido. Sua infidelidade não é apenas parte da versão de Elize: ela havia contratado um detetive particular e obtido provas da relação extraconjugal. Mas uma traição comprovada não confirma automaticamente todas as cenas privadas construídas depois dela.

E ser um marido infiel, arrogante ou mesmo emocionalmente abusivo não torna ninguém responsável pelo próprio assassinato.

Elize também foi julgada por ser mulher

Há, porém, um cuidado fundamental. Questionar a simpatia construída em torno de Elize não pode nos levar ao movimento contrário: apagar o machismo, o moralismo sexual e o preconceito de classe que marcaram seu julgamento e a cobertura do caso.

O documentário de 2021 acerta ao mostrar como o passado de Elize como garota de programa ocupou um espaço desproporcional na maneira como ela foi apresentada ao público. Em muitos momentos, parecia que não se julgava apenas uma mulher acusada de um crime brutal. Julgava-se também uma mulher pobre que havia vendido serviços sexuais, casado com um homem milionário e atravessado fronteiras sociais que não pareciam destinadas a ela.

A diretora Eliza Capai foi clara ao defender que discutir o machismo do caso não significava justificar o assassinato. Seu objetivo era também expor o julgamento moral e midiático dirigido a Elize como mulher, especialmente em torno de sua sexualidade e de seu passado.

Elize nasceu em uma família extremamente humilde em Chopinzinho, no interior do Paraná. Durante o julgamento, uma tia relatou que ela havia sofrido abuso sexual do padrasto ainda adolescente. Elize deixou aquela realidade, mudou-se primeiro para Curitiba e depois para São Paulo, encontrou formas de sobreviver, estudou e formou uma família. Há coragem, força e capacidade de reconstrução nessa trajetória.

Nada disso deve ser tratado como detalhe irrelevante. A história de uma pessoa antes de um crime continua fazendo parte de quem ela é. Elize não nasceu no momento em que matou Marcos Matsunaga.

Mas nada disso pode justificar o que aconteceu.

É possível reconhecer que ela sofreu abusos, pobreza, abandono e preconceito. É possível admitir que seu julgamento foi atravessado por misoginia. É possível enxergar a desigualdade de poder existente em seu casamento. E ainda assim afirmar, sem hesitação, que ela matou o marido, desmembrou seu corpo e tentou ocultar o crime.

As duas verdades precisam permanecer juntas.

Compreender não é absolver

Talvez a maior qualidade de Elize: Sombras de Uma Mulher seja também sua maior armadilha. O filme consegue humanizar uma mulher que durante anos foi reduzida à imagem da assassina fria e calculista. Mostra sua origem, suas fragilidades, seus medos e o deslumbramento diante de uma vida que parecia muito distante daquela em que havia crescido.

Elize não precisa ser transformada em monstro para que sua responsabilidade seja reconhecida.

Mas também não precisa ser convertida em heroína de uma história de ascensão social, abuso e sobrevivência para que possamos reconhecer o preconceito que sofreu.

O problema não está em tentar compreender Elize. A ficção existe justamente para entrar nos lugares moralmente desconfortáveis, recusar respostas simples e investigar como pessoas comuns podem chegar a atos extremos.

O problema começa quando a compreensão se aproxima perigosamente de explicar demais. Quando a narrativa organiza cada traição, cada ameaça e cada humilhação de maneira tão eficiente que o crime surge não como uma escolha, mas como a conclusão emocional de uma história.

A biografia de Elize pode ajudar a compreender sua personalidade, seus medos e sua relação com o poder. Não pode transformar o assassinato de Marcos em consequência inevitável das falhas dele.

O filme dá a Elize toda a complexidade que uma personagem merece. Marcos recebe menos. Surge principalmente como o homem que a traiu, a humilhou e ameaçou tirar dela a vida que havia conquistado. Mesmo morto, continua ocupando o papel de antagonista.

E isso talvez diga menos sobre o que aconteceu naquele apartamento do que sobre a necessidade de toda boa narrativa encontrar um vilão.

Onde está Elize Matsunaga hoje?

Elize deixou a Penitenciária Feminina de Tremembé em maio de 2022, depois de cumprir cerca de dez anos de prisão, e passou a cumprir o restante da pena em liberdade condicional. Entre as condições determinadas pela Justiça estava a obrigação de manter endereço e ocupação profissional informados.

Atualmente, aos 44 anos, ela vive de forma discreta em Franca, no interior de São Paulo. Reportagens recentes afirmam que trabalha no ramo de produtos e serviços para animais de estimação, depois de também ter tentado atuar como motorista de aplicativo.

Elize cumpriu a parte da pena determinada pela legislação para ter acesso à liberdade condicional. Tem, portanto, o direito de reconstruir a própria vida dentro das condições impostas pela Justiça. Reconhecer esse direito não exige minimizar o crime. Da mesma maneira, reconhecer a brutalidade do assassinato não autoriza que seu passado seja usado eternamente para negar sua humanidade.

Talvez esse seja o verdadeiro desconforto provocado por Elize: Sombras de Uma Mulher. Como filme, é excelente. Como suspense psicológico, prende a atenção. Como produção brasileira, merece ser reconhecida pela qualidade técnica, pelo roteiro e, especialmente, pela atuação de Lorena Comparato.

Mas, como narrativa inspirada em um crime real, repete o problema do documentário de 2021: permite que a única pessoa capaz de contar o que aconteceu dentro daquele casamento também determine quem era o homem que ela matou.

Elize merece ser compreendida para além do crime. Marcos merece não ser reduzido apenas à versão da pessoa que tirou sua vida.

Quando somente um dos dois sobrevive para contar a história, transformar sua memória em verdade nunca é uma escolha neutra.


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